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A justa greve dos bancários

A justa greve dos bancáriosPor Cláudio Puty, publicado no jornal O Liberal *

Na semana que passou, bancários de vários estados do país entraram em greve por tempo indeterminado depois de rodadas infrutíferas de negociações com a Febraban. A pauta das reivindicações inclui aumento salarial acima da inflação, maior participação nos lucros e melhorias nas condições de trabalho. Os bancários querem reajuste de 10,25% (5% de aumento real) e piso salarial de R$ 2.416,38, entre outras coisas. Os bancos ofereceram apenas um reajuste linear de 6% (0,58% acima da inflação). Segundo a Confrat-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), a paralisação já atingiu 33% das agências bancárias do país.

A posição dos bancos de conceder esse reajuste pífio aos seus trabalhadores é injustificável. No início do ano, as maiores instituições financeiras do país anunciaram lucros recordes em 2011. O setor bancário, representado por 25 bancos, foi o que registrou o maior volume de lucro entre as empresas de capital aberto – R$ 49,4 bilhões, crescimento de 14,48% em relação a 2010, segundo levantamento da consultora Economatica. Mas os bancos argumentam que em 2012, em função do agravamento da crise econômica e da queda dos juros, os ganhos serão menores e que, além disso, os bancários já tiveram aumentos em anos anteriores. Trata-se de uma monumental cortina de fumaça.

No primeiro semestre deste ano, o lucro líquido dos sete principais bancos do país somou R$ 25,8 bilhões, representando um crescimento de 1,13% em relação a igual período de 2011. Além disso, os bancos brasileiros ganharam quase 50% a mais do que os bancos norte-americanos, mesmo depois da queda da taxa de juros Selic e da iniciativa do governo de baixar os juros dos bancos públicos para forçar a competitividade do setor. De acordo com um levantamento da Economatica encomendado pelo Estadão.com., no segundo trimestre de 2012 os bancos brasileiros tiveram um retorno de 11,31% de seu patrimônio, enquanto que, nos Estados Unidos, o retorno das instituições financeiras foi de 7,68%. E, mesmo baixando suas taxas de juros, o Banco do Brasil teve um retorno de 20% de seu patrimônio líquido entre abril e junho, enquanto que Bradesco e Itaú tiveram retorno médio de 18%. O que mostra que há espaço para mais redução de juros e do spread bancário para se combater a crise, além de aumentos salariais para os funcionários, sem que o lucro dos bancos seja comprometido.

O lucro dos bancos cresceu mais de dez vezes em uma década – de R$ 4 bilhões em 2001 para R$ 50 bilhões em 2011 – e teve como um dos pilares o enxugamento de postos de trabalho no setor, devido ao processo de reestruturação produtiva imposto pelo modelo neoliberal a partir dos anos 1990 – leia-se terceirização. Segundo um estudo do Dieese, o total de 508 mil bancários existentes hoje representa apenas 69,4% do que o setor tinha em 1990 (732 mil), embora esse número tenha crescido durante a última década. E, nos primeiros três meses de 2012, o ritmo de abertura de vagas no setor caiu 83,3%, também segundo o Dieese.

Tal situação se reflete nos salários dos bancários: nos últimos oito anos, eles tiveram 13,9% de aumento real, mas, apesar disso, a média salarial da categoria no mesmo período cresceu apenas 3,6% – de R$ 4,2 mil em 2004 para R$ 4,4 mil em 2011. A explicação é que a “reengenharia” trocou profissionais com salários mais altos por novos empregados com remuneração menor.

Os bancários também reclamam do assédio moral. De acordo com a Contraf, 66% da categoria sofrem com cobrança abusiva, humilhação e falta de reconhecimento por parte de seus superiores. Nem bancos oficiais escapam a essa prática: em Santa Catarina , o Ministério Público do Trabalho entrou com uma Ação Civil Pública contra o Banco do Brasil de Concórdia por assédio moral contra empregados com mais de 30 anos de casa. Se condenado, o banco poderá ter que pagar multa de mais de R$ 1 milhão.

E aqui no Pará, o Banpará adotou uma postura intransigente, recusando-se a negociar as reivindicações econômicas dos trabalhadores. Durante o governo do PT, o Banpará foi mantido como banco de fomento, numa época de privatizações desenfreadas, e se fortaleceu muito, com crescimento do patrimônio e do lucro líquido. Hoje, o Banpará é considerado o 5º melhor banco do país. Não há, portanto, nenhuma justificativa para que não abra negociações com os bancários.

* Cláudio Puty é Deputado federal (PT-PA).    

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