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A necessidade de realização do II Enjune

Jairo Hely *

As raízes fincadas na ancestralidade e o exercício do potencial jovem-revolucionário edificaram a pauta dessa juventude, que resiste às imposições do embraquecimento capitalista e atua nas várias frentes em defesa de uma sociedade justa, sem racismo e desigualdades de classes.

Podemos sublinhar essas como ideias principais para a realização do I Enjune – Encontro Nacional da Juventude Negra, realizado em 2007, na cidade de Lauro de Freitas, Bahia, agregando grande parte da Juventude Negra Brasileira consciente e de luta, em torno da discussão de temáticas importantes e alargando as suas perspectivas de combates contra o racismo e as desigualdades sociais.

Surgido da necessidade de maior organização e unidade nacional em torno das questões pertinentes às suas lutas para os tempos atuais, o Enjune significa a acumulação de uma pauta comum da Juventude Negra no Brasil e representa um marco na história. Podemos considerar como uma das mais importantes vitórias do período pós-Enjune, a criação do Fórum Nacional de Juventude Negra – Fonajune – e de Fóruns em 10 estados brasileiros: Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins.

Hoje, o Fonajune se consolida como um instrumento de representação política nacional e ousada atuação em campo internacional, encampando frentes estratégicas de enfrentamento ao racismo estrutural e o preconceito contra a juventude, tão presentes na sociedade brasileira e mundial. Exemplo disso é a sua ativa participação no Círculo de Juventude Negra das Américas, no Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e no Conselho Nacional de
Segurança Pública (Conasp), além da articulação com outras organizações jovens negras em torno de uma pauta unificada em prol da Juventude Negra Brasileira.

Usando uma citação de Steve Biko, que diz que “… procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida.”; devemos defender todo o legado das vitórias atuais, com formulações de novas teses e ampliações dos horizontes políticos e de lutas da Juventude Negra Brasileira, que a cada dia sofre um extermínio conseqüente do racismo estrutural na sociedade capitalista “desenvolvida”.

Nesse novo cenário, a renovação de quadros, ampliação da representação política, radicalização da democracia e denúncia do extermínio programado contra a Juventude Negra Brasileira torna-se indispensável. Por isso e entendendo que a opressão só acaba a partir da resposta revoltada dos oprimidos, a Juventude Negra do Brasil deve se empenhar na realização do II Enjune, bem como no fortalecimento do Fonajune e dos Fóruns Estaduais, e na ampliação dos espaços de participação e representações de suas lutas.

Avaliando as somas e saldos de nossas vitórias atuais, precisamos proferir que ainda somos a minoria no mundo do trabalho, marginalizados, sofremos com a falta de perspectivas, empregos e vagas nas universidades públicas. Estamos, em grande parte, na informalidade profissional, e vivemos uma vida de perigos e incertezas. Neste momento, passa a ser tarefa primordial da juventude negra consciente a avaliação dos ganhos do I Enjune e a organização de uma nova agenda de lutas da Juventude Negra para os tempos futuros. É indispensável, também, a renovação dos quadros jovens negros, em resposta à cooptação para a adesão ao modelo branco-desenvolvimentista da qual a juventude negra têm sido vítima, com grande ajuda da mídia.

Esses, acredito, devem ser nossos guias para a realização do II Enjune, somados aos acúmulos gerados pelas defesas das bandeiras já levantadas, difundidas e defendidas pelo Movimento Negro e de Juventude Negra Brasileira, como o combate à intolerância religiosa, a afirmação do feminismo negro, a luta por uma educação e saúde inclusiva, a luta dos povos quilombolas, entre outras.

O ano de 2011 e a nova década que se inicia, deve ser de novas ações e conquistas, uma década de novas mobilizações, que seja o reflexo do acúmulo das nossas lutas históricas e de crescimento para o Movimento de Juventude Negra, a fim de cumprirmos a construção de um novo mundo, sem racismo e divisão de classes.

Axé de Ogum!

* Jairo Hely é coordenador do Fonajune e do Fojunepe; militante do Movimento Negro Unificado de Pernambuco e do Coletivo Enegrecer.

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