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A Venezuela e a ampliação do Mercosul

A Venezuela e a ampliação do MercosulPor Cláudio Puty, publicado originalmente no jornal O Liberal

Por uma cruel ironia da História, o golpe parlamentar contra Fernando Lugo no Paraguai foi um fator decisivo para superar um impasse que durava sete anos no Mercosul, possibilitando que a Venezuela finalmente ingressasse no bloco. Essa adesão vinha sendo barrada pelo Senado do Paraguai desde 2009; agora, com a suspensão deste país do Mercosul por conta da ruptura institucional, o pedido da Venezuela pôde ser aceito. Por um lado, essa crise eliminou qualquer dúvida sobre o papel da oligarquia que domina o Paraguai há seis décadas na estratégia dos EUA de dividir o bloco por meio de acordos bilaterais de livre comércio com países da região. Por outro, a adesão da Venezuela ao Mercosul é um passo decisivo para a consolidação do projeto sul-americano de integração, por mais que os porta-vozes do fim do mundo da direita nativa torçam o nariz.

Haverá um considerável incremento da economia regional, com o PIB total do bloco atingindo US$ 3,2 trilhões – 75% da economia sul-americana – e uma população de 272 milhões de pessoas, algo como 70% do total da região. Mais importante do que essa nada desprezível pujança econômico-social, no entanto, é o fato de a adesão da Venezuela representar um turning pointgeopolítico do Mercosul, que a partir de agora deixa de ser uma entidade limitada ao Cone Sul para expandir-se em direção ao norte da América do Sul. E esse deslocamento possibilitará a integração dos Estados amazônicos ao projeto de integração regional, como assinalaram Pedro Barros, Luiz Pinto e Felippe Ramos em artigo na Folha de S. Paulo.

Os autores lembram que a importância econômica da Venezuela também poderá contribuir para dar mais equilíbrio ao bloco, atenuando o peso de Brasil e Argentina. A Venezuela tem hoje o 24º PIB mundial – o Brasil, o 7º e a Argentina, o 27º – ficando adiante do Chile, Peru, Bolívia e Paraguai. E não é apenas isso: as reservas comprovadas do país vizinho atingem mais de 250 bilhões de barris de petróleo (cerca de 20% das reservas mundiais), superando inclusive a Arábia Saudita, segundo o relatório anual de 2011 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Além disso, a Venezuela detém a oitava maior reserva de gás do planeta, de acordo com o Informe Estatístico de Energia Mundial 2011, da British Petroleum, sem falar das riquezas minerais como níquel, carvão, zinco, prata, cobre, cromo, chumbo, bauxita, diamantes, ouro e manganês e fosfato.

Em relação ao Mercosul, estima-se que, com a entrada da Venezuela, o comércio intra-bloco aumentará cerca de 20%. Já o Brasil poderá incrementar o comércio com os venezuelanos, em alta desde 2003. No ano passado, tivemos um superávit de US$ 3,2 bilhões, o terceiro maior em 20 anos. A sinergia entre os dois países deverá aumentar bastante; o mercado de fertilizantes, por exemplo, é uma das possibilidades. Apesar de a Venezuela contar com grandes reservas de fosfato, ela ainda exporta pouco para o Brasil, que importa metade do que consome.

Com a Venezuela no Mercosul, ampliam-se as possibilidades de empresas brasileiras usarem o país andino como plataforma logística para exportação para o Caribe e para os Estados Unidos. A instalação de centros de distribuição no Norte também facilitaria o processo de vendas de mercadorias na região. O Pará, por exemplo, poderá aumentar significativamente a exportação de carne de búfalo para a Venezuela.

Mas há um gargalo no comércio bilateral, que é a integração logística entre os dois países – hoje ela é feita apenas por meio de cabotagem e frete aéreo. No médio e longo prazo, será preciso investir na diversificação de modais. Como assinalou o professor Paulo Vicente dos Santos Alves, da Fundação Dom Cabral, poderíamos construir ferrovias ligando cidades como Belém e Caracas, passando pelas Guianas e pelo Suriname.

Mas, como dissemos anteriormente, a chegada da Venezuela transcende o aspecto meramente econômico e ganha uma dimensão geopolítica fundamental. Abre caminho para a integração ao Mercosul de outros países andinos e amazônicos, tornando o bloco mais abrangente. Com isso, o Mercosul se consolidará e poderá dar um salto qualitativo, avançando da fase de união aduaneira para a de integração econômica.

* Claudio Puty é Deputado Federal e militante da DS. 

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