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Assistimos uma insurreição horizontal na França? | Juan-Pablo Pallamar

No sábado, 17 de novembro de 2018, iniciou-se o poderoso movimento contra as reformas fiscais do governo de Emmanuel Macron, batizado de “gilets jaunes”, os coletes amarelos. Trata-se de pessoas entre 30 e 50 anos, trabalhadores, considerável número ganha um salário mínimo. São na maioria casados, com filhos, com algum desempregado no núcleo familiar, usam os serviços sociais do estado e compõem a parte urbana da população que vive na periferia das grandes cidades, e são também franceses que vem das províncias do interior. Um grande volume dos manifestantes são também pessoas aposentadas. Muitos dos coletes amarelos não tinham participado antes em manifestações e se identificam como abstencionistas, ou seja, não votaram em ninguém nas últimas eleições.

Genealogia dos Coletes Amarelos

Em maio deste ano, Priscilla Ludosky, francesa, colocou nas redes sociais uma petição contra a taxa dos combustíveis anunciada pelo governo de Emmanuel Macron, no marco de uma vontade ecológica do país, mas também com o propósito de reequilibrar o orçamento nacional depois da supressão – o ano passado – do Imposto sobre as Grandes Fortunas (ISF, sua sigla em francês). Em outubro a petição registrava mais de 200 mil assinaturas e ao final de novembro superou um milhão.[1]

Ainda no início de outubro, Eric Drouet e Bruno Lefèvre, dois motoristas da periferia leste de Paris, fazem um chamado pelo Facebook de uma manifestação no dia 17 de novembro: o objetivo é o bloqueio da periferia de Paris, fechando uma estrada vital para a circulação dos transportes privados da metrópole. A convocação de um mês antes viralizou pelas redes sociais, sem a atenção da imprensa e nem do mundo político. Nos dias prévios, o governo tenta descreditar o movimento acusando-lhe de extrema-direita.

No primeiro sábado de manifestações o movimento consegue bloquear muitas estradas no país. Carros e caminhões são impedidos de circular, desatando um dia de muita tensão social. Inclusive, são registradas algumas mortes de manifestantes atropelados por carros que tentaram romper os bloqueios. Ainda assim, o governo não só manteve sua posição, como seguiu ignorando o movimento. A partir daí, os protestos continuaram por todos os dias da semana nas estradas francesas. Os estoques dos supermercados não pareciam estar afetados e pelos olhos da imprensa o país seguia normalmente.

No entanto, considerando a jornada de 17 de novembro como uma primeira vitória, os coletes amarelos não param e convocam a população para nova manifestação no sábado seguinte, agora nos Campos Elíseos da cidade de Paris. O governo manteve sua posição e sua indiferença. O protesto, inclusive, não foi autorizado nesse lugar simbólico.

Pela manhã do sábado de 24 de novembro, milhares de pessoas já estão nos Campos Elíseos. Com a manifestação não autorizada, a polícia começa a dispersão das pessoas com gases e carros de jatos d’água. O resultado foi o contrário do esperado.

Manifestantes se rebelam, sem lideranças, contra as forças da ordem. Em poucos minutos, uma das mais simbólicas avenidas da França – por onde marcharam as tropas nazistas de ocupação e também por onde desceram depois as tropas livres da França após a “grande guerra” – transformou-se em campo de enfrentamento aberto. Bombas lacrimogêneas, bombas de ruído, matracas, pedras, materiais de construção, cadeiras de restaurante, barricadas e carros queimados incendiaram os bairros da elite francesa. O bairro onde também se situa o palácio de governo da presidência da República, L’Élysée.

Chega a violência.

O resultado foi caótico. A imprensa rapidamente mobilizou a categoria moral da “violência”[2] para julgar os acontecimentos sócio-políticos desse dia, sob a ideia dos “violentos contra os violentados” e das “pessoas favoráveis a violência versus as pessoas contrarias a violência”. A mesma fórmula foi disseminada pelo governo Macron.

Foi uma jornada de violência? Certamente, mas foi também um dia de profunda cólera popular contra o governo e especialmente contra Emanuel Macron. E mesmo assim o presidente decidiu não falar. Guardou silêncio e esperou até terça-feira para publicamente se dirigir ao país. Nos mais de 50 minutos de discurso sob a transição ecológica, ele proferiu apenas uma vez a palavra “coletes amarelos” e duas vezes a palavra “manifestações”. Centrou-se assim nas metas ecológicas do governo, reafirmando a vontade de manter suas posições.[3] De lá, Macron partiu para Argentina, na reunião do G20. Os coletes amarelos por sua vez, insatisfeitos e frustrados, reforçam as mobilizações e seu divórcio com o governo.

Na terceira semana, os coletes amarelos já contavam com três quartos de apoio da opinião pública francesa, segundo as pesquisas. Apesar da violência e da contra campanha da grande imprensa, a indiferença do governo galvanizou o apoio popular dos franceses com o movimento. O terceiro ato, sábado 1º de dezembro, marcou não apenas a fratura social entre as elites governantes e midiáticas, mas revelou o povo heterogêneo, diverso e inclusive contraditório. A rebelião se aprofundou e se estendeu. Não eram só as estradas, não era só os Campos Elíseos, com mais violência e força. Agora também no centro de muitas cidades do país irrompiam conflitos, fogo e protestos. A jornada vestiu a roupa da insurreição simbolizada na tomada e depredação do Arco do Triunfo, o monumento fundacional da França Livre do pós-guerra.

“Nem ultradireita, nem ultraesquerda: o ultrapovo” [5]. Black blocs, ultranacionalistas, trabalhadores e aposentados, mas, sobretudo coletes amarelos convergiram, sem pauta clara, nem diálogo, nem política comum, levando a política francesa a um novo ciclo histórico. Não querem nem um dos partidos políticos atuais entre eles, não querem sindicatos, mas há uma ampla diversidade de pensamentos e objetivos que tornam complexa a leitura política de quem eles são e de qual pode ser o resultado político do êxito do movimento. O qual é, talvez, o ponto que mais preocupa a elite francesa.

O que começou em protesto contra a reforma ecológica do governo, denunciada como uma ecologia de elite, uma falsa-ecologia paga pelos contribuintes médios e pobres, foi reforçado no fato de Macron ter eliminado o ISF logo no início de seu mandato, favorecendo as grandes fortunas da França, e hoje, as classes populares trabalhadoras pagam mais taxas sobre os hidrocarbonetos, num quadro geral de corte governamental dos transportes públicos e dos serviços sociais.

O desastre do governo frente ao ritmo da crise

Emmanuel Macron volta da Argentina. No Arco do Triunfo saúda as polícias e, espontaneamente, de novo, dezenas de pessoas dando conta da sua presença, gritam contra ele: demissão, demissão. Desta vez não temos a atitude do Macron de antes do G20, nem do Macron durante os encontros com lideranças mundiais. Desta vez, o rosto do presidente fica fechado, grave, sério.

Foi necessário passar três semanas para que no dia 03 de dezembro, o governo fizesse um gesto. Um gesto que, no meio de debates virulentos entre os partidos, os sindicatos e mesmo entre os coletes amarelos, que começam a ser convidados aos estúdios de televisão, ficou deslocado, atrasado. O governo decide congelar a taxa sobre os combustíveis, mas parece ser tarde. Nas redes sociais, nos programas de televisão, já se fala de outras reivindicações, de uma dissolução do parlamento e de novas eleições, inclusive da demissão de Macron e de uma constituinte.

Haverá uma convergência dos movimentos sociais?

Por outra parte, o movimento não conta ainda com a participação decisiva de jovens abaixo os 30 anos. Apenas na terceira semana, os estudantes secundaristas saíram para as ruas. Em muitas cidades da França como, por exemplo, na periferia de Paris e em cidades como Sant-Étienne e Clermont-Ferrand, que ficam no centro do país, estabelecimentos educativos, escolas e liceus, foram tomados ou bloqueados por barricadas ou simplesmente por atos que terminaram em enfrentamentos similares aos recentes. É outro movimento social. Tem objetivos setoriais, relativos a educação, a seu financiamento, ao acesso a universidade e a oposição frente as reformas do governo no plano educacional. Ainda assim, a pauta dos estudantes toma nova forca com a onda nacional gatilhada pelos coletes amarelos e há então possibilidade de convergência. O mesmo acontece com os sindicatos, os movimentos dos trabalhadores das ferrovias que no primeiro semestre tinham realizado uma greve de quase seis meses e com os trabalhadores da saúde que parecem se fortalecer neste novo cenário social e político que o povo francês está criando.

Este movimento, inclusive deve estar sendo atentamente monitorado pelas autoridades dos outros países da Comunidade Europeia. Durante essas três semanas de mobilizações, tem se registrado em menor escala protestos de coletes amarelos na Bélgica, Alemanha, Sérvia e Holanda, o qual abre pela primeira vez a possibilidade de futuros cenários de convergência social ao nível regional, a escada europeia.[6] Trata-se assim de um movimento que pode se estender além do território nacional, pois é também uma frustração social de massas que abre um novo espaço popular de disputa política no qual ainda está tudo por se fazer.

Macron fraturou o contrato social francês.

Parece que nada que o governo Macron fizer nos próximos dias poderá distensionar o clima de fratura nacional entre elites e trabalhadores que está hoje lavrado. Depois de anunciar o congelamento da taxa dos combustíveis e algumas horas depois ao reafirmar a anulação definitiva da taxa, o Primeiro-Ministro, com baixa presença da imprensa e em silêncio, se dirigiu durante a noite para a cidade de Puy-em-Velay (no centro da Franca) com a finalidade de visitar o prédio regional do governo que foi inteiramente queimado pelos manifestantes no sábado anterior e foi recebido pelos funcionários locais e a polícia, numa operação discreta. Péssima ideia. Um grupo de moradores percebendo sua presença, manifestou-se com insultos e exigências de renuncia. Pego de supressa, Macron decide regressar de imediato a Paris, num comboio de apressados carros de janelas pretas.

Macron aparenta ter poucas saídas frente a uma pressão que sugere se emergir tanto da política econômica de seu governo quebrando definitivamente o contrato social francês que vem sendo agredido por seus antecessores, como de uma arrogância contra os setores populares (majoritários) que foi denunciada reiteradamente durante as últimas semanas. Assim, um novo sábado de protestos está sendo convocado pelo movimento e o discurso do governo e da imprensa está orientado a atiçar o medo, a violência e assim tentar dissuadir o máximo de pessoas de participarem das mobilizações. Será um sábado chave para Macron que já anunciou a mobilização de um contingente extraordinário de policias (mais de 80 mil agentes). Mas, será também vital para o futuro dos coletes amarelos, dos quais se escuta que não vão renunciar até conseguir seus objetivos em definitivo e irão além da anulação da taxa aos combustíveis, que já conseguiram esta semana.[7] Será um fim de semana decisivo para um movimento que não tem e não quer lideranças. Agora eles só querem se entender diretamente com o Presidente da República.

Jessika Martins Ribeiro:
[1] Aline LECLERC, « Priscilla Ludosky, porte-parole des « gilets jaunes » : « Ce n’est qu’un premier rendez-vous, on en attend d’autres » », 28 novembre 2018, https://www.lemonde.fr/societe/article/2018/11/28/priscilla-ludosky-porte-parole-des-gilets-jaunes-ce-n-est-qu-un-premier-rendez-vous-on-en-attend-d-autres_5390007_3224.html.

[2] Laurent MUCCHIELLI, « Comment analyser sociologiquement la colère des Gilets Jaunes? », Club de Mediapart, consulté le 6 décembre 2018, https://blogs.mediapart.fr/laurent-mucchielli/blog/041218/comment-analyser-sociologiquement-la-colere-des-gilets-jaunes-0.

[3] Emmanuel. MACRON, « Discours de Macron sur l’écologie trois jours après les évennements 24 novembre à Paris. », 27 novembre 2018, https://www.youtube.com/watch?v=UKfHm58PujQ.

[4] BernardMORVAN, « Gilets jaunes. Les analyses de Sandra sont plus vivantes que celles de Jeanne Emmanuelle », BREIZH-INFO.bzh (blog), 29 novembre 2018, https://www.breizh-info.com/2018/11/29/106822/gilets-jaunes-macron-hutin.

[5] Alain BAUER, « «Gilets jaunes: l’ultrapeuple est de retour» », L’Opinion, 2 décembre 2018, https://www.lopinion.fr/edition/politique/gilets-jaunes-l-ultrapeuple-est-retour-l-analyse-d-alain-bauer-170562.

[6] Emma DONADA, « D’autres pays d’Europe ont-il leur mouvement des gilets jaunes ? », Libération.fr, 7 décembre 2018, https://www.liberation.fr/checknews/2018/12/07/d-autres-pays-d-europe-ont-il-leur-mouvement-des-gilets-jaunes_1695931.

[7] RobertJOUMARD « Analyse des revendications des Gilets jaunes », Club de Mediapart, consulté le 6 décembre 2018, https://blogs.mediapart.fr/robert-joumard/blog/051218/analyse-des-revendications-des-gilets-jaunes.

Juan-Pablo Pallamar – pesquisador da Universidade de Paris, com a colaboração de Ramon Szermeta.

 

 

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