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Clarissa, vice-presidenta do PT: As cidades, nossas lutas e a Copa

1239814Sim, terá Copa; resta saber qual Copa teremos, e esse questionamento será respondido através da politização do debate pelo governo

Por Clarissa Alves da Cunha, na Fórum

As Jornadas de Junho, como já debatidas, apresentaram um passo importante no amadurecimento da nossa democracia. Isso pode ser afirmado pela quantidade e pela diversidade de cada passo dado no asfalto, durantes as manifestações, em nossas cidades. Essas ruas tomadas por pés, que igualmente corriam, pulavam e às vezes fugiam, sustentavam corpos que erguiam diferentes cabeças e levantavam diferentes cartazes. Esses pés oriundos de diferentes classes sociais, credos e crenças pisavam com a mesma força, lado a lado, no mesmo chão. Esse chão ganhava, nesse momento único, a oportunidade de ser mais democrático e deixar pisar, cair, sangrar, sorrir, cantar, em cima dele qualquer um que ousasse sair de casa. Por mais que se avalie a existência de contradições entre as visões de mundo dos manifestantes, é inegável que naquele momento a democracia se fez mais presente nas ruas.

Mas a verdade é que em nossas cidades o asfalto não tem essa característica democrática durante o resto dos dias do ano. Durante os outros dias do ano, esse mesmo asfalto deixa pairar em cima dele o BMW parado no sinal que tem ao lado dele pés pobres e descalços encostados no meio-fio. E isso existe mesmo com todos os importantes avanços na redução da desigualdade obtidos em nosso país nos últimos 11 anos. É esse o asfalto, vivido por nós em todos os outros dias do ano que precisa ser radicalmente transformado. Nossos asfaltos precisam trazer a experiência vivida nas manifestações para seu dia a dia. E, logicamente, ceder e dar lugar para outros espaços importantes em nossas cidades. Espaços públicos, usados pelo povo democraticamente.

Na contramão desse desejo, pelo espaço público e democrático em nossas cidades, está o desejo dos outros. Os outros são aqueles com interesses pessoais, de lucro, e, consequentemente, de privatizações, fazendo nossas cidades cada vez mais mercantilizadas e excludentes.

Não é despolitizado, sem foco ou sem rumo jovens escancararem esses problemas vividos em nossas cidades e junto a isso apontarem possíveis soluções. Soluções que muitas vezes não concordamos, mas que se misturavam ao lado das que concordamos e juntos mexiam no cenário político do país dizendo: eu também quero participar!

É nesse debate sobre o direito à cidade, de ter transporte público e de qualidade, de lutar contra a desmilitarização da policia, contra o PLS nº 728/2011 que tipifica o crime do terrorismo e criminaliza os movimentos sociais, a especulação imobiliária, a prostituição, as remoções, e por fim o controle da Fifa sobre nosso território, que se questiona e se debate a Copa.

É um debate público que não foi feito à priori por quem “acordou” em junho, mas que agora tomou corpo e ganhou centralidade. Neste sentido, acredito que não há nesse momento nada mais errado do que enfrentar os que são contra a Copa com gestos ufanistas ou de simples afirmação ao invés de enfrentar politizadamente as críticas à Copa.

Setores à direita criticam a Copa, é verdade. Esses querem que a Copa dê errado no seu aspecto estrutural. Problemas nos aeroportos, rodoviárias, engarrafamentos etc. Querem inclusive que tudo que aconteça durante o governo Dilma dê errado. Não há novidades nesse campo. Mas há sim novidades no campo da esquerda e nas vozes que vêm questionar o mérito dos megaeventos. A novidade é o debate que todos querem fazer em torno das vantagens ou desvantagens de se sediar uma Copa do Mundo e o que ela deixa de legado para os cidadãos e cidadãs. Sim, muitos vão desconsiderar qualquer argumento. Vão falar em corrupção e fazer um debate moral, mas muitos vão tentar entender o debate.

É necessário para quem governa o país que a Copa dê certo, mas que dê certo aos olhos do povo e para o povo, e não somente aos seus próprios olhos. Logo, o que é considerado certo em torno da Copa tem que ser debatido e não se trata simplesmente de quantificar a arrecadação. A esquerda das ruas e dos movimentos quer apontar os problemas que a Copa trouxe às cidades (que já tinham problemas estruturais), e a esquerda que governa o país tem que apontar vantagens que ela traz para a cidade (sem chegar perto de resolver seus problemas). Se não for possível apontar é porque ela não traz nenhuma vantagem imediata (ao menos aos olhos da população). O dito legado que se traduz em obras que beneficiam a população, especialmente com relação à mobilidade urbana, não terá ocorrido (ou ao menos esta será a impressão da população). Essa é a melhor maneira de afirmar que terá Copa. Porque terá Copa. Sim, terá. Resta saber qual Copa teremos. E esse questionamento será respondido através da politização do debate pelo governo.

* Clarissa Alves da Cunha é militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres e da Coordenação Nacional da DS; foi vice-presidenta da UNE, secretária-geral da UEE-RJ e coordenadora do DCE da PUC Rio.

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