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Desencontros

A história latino-americana das últimas décadas do século XX apresentou momentos de desencontro entre parcelas da esquerda e o protagonismo popular.

“A vida é a arte do encontro embora nessa vida haja tanto desencontro”.
Vinicius de Moraes

LUCIO COSTA

Em 19 de setembro de 1945, em Buenos Aires, ocorre a Marcha da Constituição e da Liberdade pedindo a destituição de Perón do governo. A manifestação era composta basicamente de “manifestantes de classe média e alta, todos elegantemente vestidos” o que levou a J.J. Real, dirigente comunista argentino, a declarar que “ali estavam presentes os mais altos expoentes do conservadorismo, da banca estrangeira, da Sociedade Rural: eu não via minha classe, os trabalhadores… Percebi que não estávamos no bom caminho“. No Brasil, 1954, Almino Afonso, dirigente da esquerda brasileira daquele período, teve o mesmo sentimento ao dar-se conta que as manifestações contra Getúlio tinham forte concorrência de Senhores e Senhoras que expressavam o mais representativo da oligarquia paulista.

Alguns meses depois da Marcha da Constituição, em dezembro de 1946, a União Democrática lança a candidatura de Tamborini à presidência. O ato de lançamento, realizado nas escadarias do Congresso Nacional, teve como pano de fundo um telão com imensas fotos de Roosevelt, Truman, Churchill e Stalin. Presentes junto aos conservadores estavam o PC e o PS. Perón, que era apoiado pela amplíssima maioria dos movimentos sindical e popular e apresentava uma plataforma nacionalista e de defesa das reivindicações populares, vencerá as eleições com 55,85% dos votos.

No Brasil, em 1954, quando do suicídio de Getúlio Vargas as instituições responsabilizadas pela campanha contra o governo que levou à morte do Presidente, foram alvo da fúria popular: as sedes da UDN e dos jornais conservadores foram depredadas. Como o PCB havia somado a sua voz a do udenismo no ataque a Getúlio igualmente a sede e as sucursais do jornal do “Partidão” foram atacadas.

Atualmente, assistimos cenas que evocam desencontros de outros tempos. Num cenário de 2º turno em que se defrontam Lula e Alckmin há quem se limite a “denunciar ambas as candidaturas” e se recusar a indicar o voto em qualquer dos dois candidatos.

Qual a racionalidade explica que, em momentos nos quais as elites burguesas se confrontam com forças populares, segmentos da esquerda se afastem da disputa e mantenham um “silêncio obsequioso”?

Lançar luz sobre as motivações destas condutas impõe analisar a forma como segmentos da esquerda latino-americana relacionam-se com nossas sociedades.

Importantes parcelas das esquerdas seguem bitoladas às origens européias do marxismo sem buscar apreender as particularidades da formação e funcionamento de nossa sociedade. No passado, tal barreira ao conhecimento concreto ofuscou a compreensão do relevante papel das nações indígenas, do povo negro, dos pobres dos campos e cidades e dos cristãos como protagonistas das mudanças.

No terreno da disputa política, a transposição de paradigmas europeus de análise fez com que parcelas da esquerda inúmeras vezes andassem de braços dados com o liberalismo, como por exemplo, o PCB quando se soma a UDN para atacar Getulio ou, o PC Argentino nos momentos em se alia a UCR contra Perón.

É de registrar que, essa reflexão destituída de “análise concreta da situação concreta” dá origem a um discurso político no qual as lacunas de uma limitada percepção da realidade nacional são preenchidas através de uma fala que mescla a proclamação da “doutrina socialista” a um forte apelo ético-moral dando origem à retórica udenista com tons de preocupação social.

O processo de substituição da vida com todas as suas potencialidades e tensões por afirmações genéricas da doutrina, por um marxismo de corte economicista – expresso na idéia vulgar de que se a política econômica do Governo Lula é conservadora estamos diante de um governo conservador – permite apagar as contradições presentes nos governos progressistas tornando-os idênticos aos neoliberais.

Ao “jogar a criança junto com a água suja fora“, ao igualar Lula a Alckmin cria-se a justificativa para abandonar a batalha e recolher-se ao silêncio. Um silêncio que ocorre num momento que derrotar a direita significa manter e aprofundar uma correlação de forças nacional e continental que torne possível inviabilizar a ALCA, afirmar uma nação soberana, avançar na construção da participação popular e seguir resgatando milhões dos grilhões da fome e da miséria.

A estes equívocos, decorrentes de uma compreensão limitada da sociedade brasileira, agrega-se um agir político no qual o dialogo é substituído por uma práxis centrada na delimitação das diferenças frente ao movimento democrático popular o que acaba transformando-os em meros “defensores do programa”. Daí, que estas parcelas da esquerda tenham extremamente limitada sua capacidade de formular propostas capazes de construir pontes que permitam elevar as atuais formas de consciência e prática política da maioria do povo a estágios mais elevados de compreensão e participação.

Ao levar-se em conta que o PT continua sendo o espaço em que o processo de luta pela independência política dos trabalhadores se dá – diferentemente do peronismo ou getulismo em que a hegemonia da burguesia nacional colocava na agenda socialista a construção de instrumentos de organização política popular – o equivoco desta postura se torna mais nítido, pois impede o diálogo e limita a capacidade de contribuição da esquerda com a construção do proletariado como sujeito político autônomo.

Aliás, não é gratuito que sejam justamente essas correntes as mais refratárias à democracia participativa. Ao não compreenderem que as massas aprendem por suas próprias experiências se recusam a construção de políticas e instrumentos de participação que permitam fazer a transição da consciência das necessidades imediatas do povo à consciência sobre o funcionamento da sociedade burguesa e a necessidade de sua superação por uma democracia socialista.

A incapacidade de compreensão da realidade aliada a uma práxis sectária, expressa na abstenção frente ao 2º turno, faz com que esses setores encenem desencontros do passado, se apartem do povo trabalhador e sua vanguarda que, como já definiram a CUT, a UNE, a UBES, o MST, a Marcha Mundial de Mulheres e a Coordenação dos Movimentos Sociais, vota contra a direita, vota Lula.

Lúcio Costa é membro da Coordenação Nacional da Democracia Socialista.

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