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Dilemas das esquerdas nas eleições na França

Jornal DS – 22. Partidos da esquerda anunciam apoio à candidata socialista.

Melhor que na eleição presidencial anterior, em 2002, quando direita e ultra-direita foram ao segundo turno com Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen; e pior que no referendum sobre a neoliberal Constituição Européia, em 2005, situação na qual o “não” teve mais da metade dos votos. O primeiro turno da eleição presidencial francesa de 22 de abril passado colocou no segundo turno um candidato de direita duro, o ex-Ministro do Interior Nicolas Sarkozy (31 %), e uma candidata light da esquerda, a socialista Segonèle Royal (26%).

Foi uma das eleições mais concorridas do pós-Guerra na França, com um comparecimento de 85% do eleitorado (o voto é facultativo no país). Sarkozy assumiu parte do eleitorado do extremista Le Pen (11% agora, 17% em 2002; mas ainda com votação expressiva na classe operária). Royal se beneficiou do “voto útil” impulsionado pelo trauma de setores mais à esquerda, que tiveram que votar em Chirac, na eleição anterior, para derrotar Le Pen.

As candidaturas à esquerda do Partido Socialista tiveram um desempenho de conjunto (percentual e total de votos) pior que em 2002. Depois da euforia por terem liderado a campanha vitoriosa pelo “não” à Constituição Européia – ponto alto da luta altermundialista no período recente –, não houve acordo sobre uma candidatura unitária capaz de representar esse amplo movimento. Cada força política apresenta sua explicação para o fato, mas isso não muda o resultado e compromete a perspectiva de que após o segundo turno se possa retomar uma dinâmica unitária.

Porém, no interior desse resultado observam-se situações diferentes. O destaque positivo foi a candidatura de Olivier Besancenot (da Liga Comunista Revolucionária, LCR), que manteve seu percentual anterior (4,1 %), mas com uma votação absoluta superior (280 mil votos a mais) por conta do maior número total de votantes. O Partido Comunista teve seu pior resultado no pós-Guerra, pouco menos de 2% dos votos; Arlete Laguiller, candidata do partido trotskista “Luta Operária”, alcançou 1,34 % (em 2002, teve mais de 5%); e Jose Bovè, que se apresentou como expressão do movimento altermundialista (com apoio de militantes da LCR e do PC) não passou de 1,32%. Os verdes dividiram-se em duas candidaturas com poucos votos, e os lambertistas do Partido dos Trabalhadores repetiram uma campanha inexistente.

Segundo turno
Para o segundo turno, toda a esquerda além do Partido Socialista já declarou voto contra Sarkozy. Uma decisão tão correta quando difícil, já que a candidatura de Royal – com o dado de que toda a esquerda junta não alcançou 40% dos votos – busca se posicionar ao centro, na tentativa de captar os votos do candidato terceiro colocado, Bayrou (19%), que ganhou espaço com uma terceira via, ainda que seja da mesma coalizão atualmente no governo, da qual Sarkozy é parte.

De fato, isso já parece estar acontecendo. Pesquisas de opinião publicadas no final de abril davam uma situação de quase empate, com leve vantagem para o candidato da direita. Sarkozy atraiu votos com seu comportamento truculento e xenófobo quando Ministro do Interior do presidente Chirac, mas também assustou uma França que ainda se vê como berço da civilização – Royal e Bayrou apostaram nesse medo. Se eleito, levaria o país a uma polarização inédita. Se a candidata do Partido Socialista for a eleita, o país voltará à sua “normal” indefinição e às disputas sobre o que é “ser francês”, sobre qual relação deve ter com os franceses muçulmanos, sobre qual futuro oferecer aos marginalizados filhos franceses dos imigrantes das antigas colônias, etc. Mas essas são questões que também assombram as forças que se situam à esquerda do PS de Segonèle Royal.


 

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