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Direto de Assunção: Diário da resistência popular paraguaia 3

281726 (1)Por Iuri Faria Codas, direto de Assunção

Segunda-feira, 26 de junho de 2012

Ao longo desse dia a estratégia da resistência democrática começou a ficar mais clara. Pela manhã, o presidente Fernando Lugo se reuniu com seu “gabinete paralelo”. À tarde, a sede da central sindical CNT (Central Nacional dos Trabalhadores) foi palco de duas reuniões importantes: a primeira contou com as lideranças da Frente Guasú (que até então estava desarticulada), na qual Lugo também estava presente, e a segunda serviu para cada uma das comissões da Frente pela Defesa da Democracia (FDD) apresentar o que havia definido. A FDD, além de incluir os partidos da Frente Guasú, congrega também representantes de organizações da sociedade civil, estrangeiros que estão presentes no Paraguai, militantes independentes, e mesmo membros de partidos que destituíram o presidente Lugo, mas que divergiram de seus correligionários e se posicionaram contra o golpe de Estado.

A principal preocupação de Lugo e seus companheiros e companheiras é que a luta por democracia não se transforme de forma alguma em um conflito armado e que não cause nenhuma morte. Por esse motivo na sexta-feira, depois de votado no Senado o “Juicio Político”, o presidente eleito fez uma fala na qual ele parecia aceitar o golpe, porque temia que a população concentrada na Plaza de las Armas pudesse entrar em confronto violento com a polícia. Além disso, após sucessivas trocas no comando das Forças Armadas ao longo de seu governo, Lugo possuía apoio de parte dos militares, que inclusive se ofereceram para resistir à destituição, o que ele logo descartou.

Dessas três reuniões, a linha de resistência tirada foi a defesa da democracia, exigindo a volta do presidente Lugo, mas sem esse ser o foco fundamental. Está claro para a FDD que, legalmente e politicamente, a anulação do “Juicio Político” é muito difícil na atual conjuntura, sendo mais importante mostrar para a população como o atual sistema político paraguaio até comporta a alternância de poder, mas não aceita a alternância de projetos e, portanto, é profundamente antidemocrático. Nesse primeiro momento, o objetivo é deslegitimar o atual governo, tanto domesticamente quanto internacionalmente, e enfraquecê-lo, demonstrando que o povo não tolera mais golpes e nem o que parte da população chama, há algum tempo, de “ditadura parlamentaria” (termo que não é utilizado nem pela Frente Guasú nem pela FDD).

Dessa forma, as ações planejadas para essas próximas semanas serão mais focadas e pontuais, ao invés de atos de rua massivos, como muitos esperavam. Isso inclui protestos em povoados no interior do país, desde atos de rechaço ao golpe até edições do “Micrófono Abierto” transmitido pelas rádios comunitárias locais, bloqueios de estradas e fronteiras, entre outros. A política de comunicação da FDD está melhor estruturada e já possuem um site próprio http://paraguayresiste.com . A ocupação da Rua Alberdi, na frente da sede da TV Pública Paraguay continua, visando garantir seu caráter público, não-governamental e não-partidário, algo que pode ser comprovado ao ver que ela também está dando espaço para os membros e apoiadores do governo de Federico Franco (inclusive, na manhã de segunda-feira, policiais tentaram expulsar os manifestantes da sede e após um breve conflito, foi feito o acordo para a desobstrução da rua, que voltou a ser fechada a tarde). Além disso, o presidente Fernando Lugo vai voltar a realizar a partir da próxima semana o “ñemongueta guasu”, uma das suas principais ações durante a campanha presidencial, que consiste em rodas de conversa com a população, para ouvir o que pensam sobre o país e o que deve ser feito. Essa estratégia vai seguir entre as próximas duas a quatro semanas, quando Lugo, seu gabinete, a Frente Guasú e a FDD vão reavaliar como continuar no período seguinte.

No contexto internacional, na tarde da segunda-feira funcionários da chancelaria de Federico Franco tentaram entrar na reunião preparatória da Cúpula do Mercosul que ocorrerá essa semana, mas foram barrados. O presidente Lugo ainda está avaliando se irá a esse evento ou se é melhor não deixar o Paraguai, enquanto o deputado pela Frente Guasú, Ricardo Canesse, membro do Parlasul, já está na Argentina. Ainda não está totalmente claro quais sanções o bloco imporá à república guarani, o mais provável é que se restrinjam à medidas políticas (não reconhecimento do novo governo, proibição de participar nos espaços de decisão do Mercosul, etc), sem incluir os aspectos econômicos (suspensão da Tarifa Externa Comum para o Paraguai, por exemplo), para evitar que se prejudique a população paraguaia.

Nesse dia também foram empossados alguns dos novos ministros e outros servidores em cargos de confiança do governo Franco, entre eles o diretor-geral de Itaipú pelo lado paraguaio Franklin Rafael Boccia Romanãch. Boccia chegou a declarar que caso o Brasil não reconheça o novo governo o Paraguai irá parar de vender o excedente de sua energia ao país vizinho e essa seria redirecionada à economia paraguaia, afirmação completamente absurda, uma vez que a capacidade de transmissão da produção elétrica de Itaipú para seu país já está completamente saturada e essa só será expandida com a inauguração da linha 500 kv e da estação de Vila Hayes, previstas para agosto de 2013, e ainda assim são necessários mais investimentos da ANDE para garantir a distribuição. De qualquer forma, essa é uma demonstração de um pretenso nacionalismo que a direita paraguaia busca se utilizar para ganhar o apoio da população e atacar Lugo e seus aliados.

Por fim, começaram a circular boatos de conflitos entre os setores golpistas. Aparentemente, membros do Partido Colorado estão insatisfeitos que o golpe de Estado contra o presidente Lugo tenha passado o poder aos liberais e oviedistas. Porém, é muito cedo para falar em quais consequências isso pode acarretar.

Afora as ações políticas organizadas pela Frente Guasú e FDD citadas anteriormente, algumas outras estão sendo convocadas por membros da sociedade civil e organizações independentes para esta terça-feira (26) e para os próximos dias. O Partido Liberal, que havia convocado uma manifestação para quarta-feira (27) em apoio ao novo governo, já desistiu da ideia. A capital Assunção continua em geral calma, ainda que com alguns locais de protestos e turbulência, porém o clima de incertezas quanto ao futuro próximo não se dissipa. Ainda vai levar tempo até a crise pela qual o Paraguai passa ser resolvida.

* Iuri Faria Codas é diretor de Movimentos Sociais da UEE-SP, militante da Democracia Socialista e está acompanhando a resistência ao golpe no Paraguai, direto da capital Assunção.

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