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Disparos, gás lacrimejante e machismo: militante da Marcha relata o início dos protestos na Turquia

779555Por Yildiz Temurturkan, no Blog da MMM

Fui para Diyarbakir, no Curdistão, para a Conferência da Mulher no Oriente Médio. Participaram da Conferência 250 mulheres de 26 países. No primeiro dia do evento, a polícia invadiu o sit-in (1), no parque Gezi, em Taksim (Istambul), organizado pela Plataforma Taksim. A polícia já havia queimado as tendas usadas pelos manifestantes, na noite anterior. Anexei a imagem simbolizando este primeiro ataque. Muitas pessoas vieram para a praça Taksim para apoiar a resistência, e esta demonstração resultou em uma revolta contra o governo conservador, em todos os lugares, de forma espontânea e instantânea.

As ações se estenderam para 77 cidades (exceto as cidades curdas), em todo o país, em protestos que duram todo o dia. As pessoas voltam para suas casas depois do trabalho e saem com tachos e panelas, até a meia-noite. A reação da polícia é brutal, com uso excessivo de gás lacrimejante e disparo de cápsulas de gás, mirando cabeças e atirando dentro de casas e carros das pessoas, mesmo que não sejam manifestantes. Há muitas pessoas feridas na cabeça e nos olhos, muitos foram hospitalizados com pernas e braços quebrados. Até agora, três jovens foram mortos nessas demonstrações e esse número pode aumentar.

A maioria dos manifestantes são jovens e mulheres. No entanto, a linguagem da rua é muito machista. Você pode ver grafites em todos os lugares como: “Tayyip filho da puta” [Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro turco], “nós te fodemos”, etc. Por fim, aumentou a quantidade de prostitutas com a bandeira: “nós prostitutas temos certeza de que ele não é nosso filho”. O Redhack (grupo de hackers anarquistas) preparou um guia para os manifestantes advertindo as mulheres para não usarem lugares desertos para ir para casa depois dos protestos e para colocarem anéis de casamento (!).

No ano passado, o governo tinha introduzido o ensino religioso nas escolas públicas, com o intuito de levantar uma juventude conservadora. As meninas são obrigadas a cobrir a cabeça, segundo a leitura Alcorão. As escolas públicas foram convertidas em escolas religiosas. Isso criou uma agitação, e os pais vêm demonstrando seu descontentamento em torno das escolas. O aborto tornou-se impossível em hospitais públicos e proibido em clínicas privadas. O primeiro-ministro insiste em garantir que as mulheres deem à luz a pelo menos três filhos.

No verão passado, a opressão sobre o álcool começou no Ramadã. Você se lembra dos bares nas ruas ao redor de Taksim: todas as mesas de fora dos bares foram confiscadas pela polícia municipal em conflitos de longa duração. O Governo trouxe a exigência de 21 anos para locais de entretenimento, proibindo-os de servir álcool caso haja menores de 21 anos. Isso significa que não existe mais álcool em cerimônias de casamento. Na semana passada, essas limitações foram estendidas a lojas de bebidas alcoólicas, proibindo sua venda após as 22 horas.

Tivemos resistências também para proteger o teatro histórico e salas de cinema em diferentes cidades. No ano passado, a estação ferroviária foi fechada, e está sendo convertida em Centro de Congressos, outras estações em Ankara serão transformadas em hoteis.

Além disso, a praça Taksim é um lugar muito simbólico para celebração do Mayday [o Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras, aqui no Brasil, 1º de maio]. A esquerda a chama de Mayday Square (Praça do Dia do Trabalhador). Este ano, a manifestação foi proibida de acontecer lá, e não apenas em Taksim, mas também nas praças centrais de outras cidades. Este Mayday foi marcado por grandes confrontos entre polícia e oposição.

Na última semana, o governo propôs um novo projeto de lei para controlar organizações não-governamentais. De acordo com esta lei, as ONGs não poderiam captar recursos, receber doações, nem organizar atividades de arrecadação de recursos como concertos e jantares de solidariedade sem a permissão do Ministério do Interior.

Por fim, as negociações entre o PKK (Partido da Libertação do Curdistão) e o governo não são um processo transparente. São realizadas pelo serviço de inteligência turco e Ocalan (líder curdo preso). Esse processo não inclui outros setores da sociedade, mas influencia-nos. As pessoas estão preocupadas com a concordância de ambos os lados em aumentar o conservadorismo e o autoritarismo na Turquia. Eles têm ignorado as demandas de outros grupos, como mulheres, jovens desempregados e alevitas (adeptos de uma perspectiva liberal do Islã, que constituem 30% Turquia).

A resposta do primeiro-ministro foi um desastre e provocou ainda mais as pessoas. Ele considerou todos esses protestos como “ideológicos”, realizados por “saqueadores”, e desafiou a população, insistindo que Gezi será um centro comercial. Lembrou ainda que tem o apoio de 50% das pessoas, defendendo que esses 50% querem isso. Ele também ameaçou iniciar uma guerra civil, levando seus apoiadores às ruas.

Fãs de três grandes times de futebol estão unidos contra o terror policial. Atrizes e atores de seriados de televisão, um ramo em crescimento na Turquia, estão unidos contra o governo, que colocou pressão sobre programas de TV e seriados e destruiu salas de cinema e teatro. Diferentes setores da sociedade, por diferentes razões, apoiam a resistência em torno de Gezi.

Agora Gezi e Taksim foram libertadas. Os confrontos continuam em torno de Taksim, muito perto do escritório do primeiro-ministro. A polícia de Ancara age de forma muito brutal para evitar a ocupação do Parlamento. Agora, há um grande encontro na Praça Kızılay, em Ancara.

Parece que a política do governo para criar uma juventude conservadora falhou. Pessoas politizadas estão intrigadas sobre como esses jovens “apolíticos” podem ter uma melhor compreensão do mundo. As pessoas e as manifestações são organizadas pela internet, principalmente através do Twitter. O Governo proibiu a mídia de fazer transmissões. Por outro lado, os meios de comunicação também estão sujeitos a protestos, por não informarem a sociedade. O primeiro-ministro condena o Twitter como uma “dor de cabeça”. Ontem à noite, 28 pessoas foram detidas por incitar tumulto usando as mídias sociais.

Apesar de as organizações de esquerda não serem fortes o suficiente, as pessoas nas ruas querem mais democracia e liberdade. Em março do próximo ano, temos eleições locais. Espero que estas revoltas influenciem-nas.

Em solidariedade,

Yildiz, 5 de junho de 2013.

* Yildiz Temurturkan é membra do Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres na Europa e militante da MMM na Turquia.

[1]  Forma de protesto baseada na ideia de ocupar  um espaço temporariamente,  sem sair do lugar. Geralmente, os manifestantes sentam-se no chão como forma de resistência.

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