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Economia solidária e autonomia econômica das mulheres

A economia solidária é considerada estratégica para muita gente no Brasil. O principal motivo é a intersetorialidade de temas, e por isso, o tema das mulheres deve ser tratado e debatido em nosso dia-a-dia.

Divisão sexual do trabalho

As relações de gênero são sustentadas e estruturadas por uma rígida divisão sexual do trabalho. O papel masculino idealizado é de responsabilidade pela subsistência econômica da família e a isso corresponde designar o trabalho do homem na produção. A atribuição do trabalho doméstico designa as mulheres para o trabalho na produção: ter filhos criá-los, cuidar da sobrevivência de todos no cotidiano.

O que se observa é que essa divisão entre trabalho reprodutivo e produtivo não é tão real assim. Há homens trabalhando no campo da reprodução e há muitas mulheres na produção.

No entanto, o mito que designa um tipo de trabalho para cada gênero influencia o real. Pode-se dizer que a divisão sexual do trabalho perpassa o conjunto das atividades realizadas por homens e mulheres. É comum dizer que tal serviço é trabalho “de homem” ou que tal tarefa é tarefa “de mulher”.

No caso das mulheres, a tentativa é sempre de considerar o trabalho realizado fora da casa com uma extensão do seu papel de mãe. As se concentram em atividades consideradas tipicamente femininas como serviço domestico, professoras, enfermeiras, assistentes sociais. Em 1990, 30% das mulheres que se declararam como trabalhadoras no Censo 2000 do IBGE eram empregadas domésticas, costureiras e professoras primárias.

A maioria das professoras dá aula para o primário, já são menos as que trabalham no nível secundário e muito pouco as da universidade. Quando estão na universidade, elas se concentram em determinadas áreas, como educação e psicologia, e tem menos aceso a promoção, a títulos etc. Este exemplo mostra que mesmo dentro de uma determinada categoria, formas de divisão sexual são recriadas. Um outro exemplo: as mulheres são minoria entre os escritores literários, mas a maioria das escritoras são autoras de literatura infantil.

Na industria, as mulheres são embaladoras, montadoras e costureiras, funções que exigem habilidade manual, coordenação motora fina, paciência. As habilidades para exercer essas profissões foram sendo desenvolvidas no processo de educação das meninas: brincando de casinha, cuidando dos irmãos, bordando, ajudando a mãe no trabalho domestico. As pessoas “esquecem” que as meninas precisam treinar para aprender tudo isso e agem como se toda mulher já nascesse com essas “aptidões”, como se fosse uma dádiva da natureza.E se é dádiva da natureza, não precisa ser reconhecida, nem devidamente remunerada. Porém, se homens fossem ser treinados para realizar essas tarefas, seria necessário um grande investimento.

O trabalho das mulheres rurais também é menos valorizado que o dos homens. A pesquisadora Maria Inês Paulilo, comparando as etapas do trabalho agrícola na cana -de – açúcar, em diferentes regiões do Nordeste, pôde perceber uma diferença significativa. Carpir, no sertão nordestino era uma tarefa dos homens e era considerado um trabalho pesado. Carpir, no Brejo Paraibano era tarefa das mulheres e era considerado trabalho leve. Como se vê, no cultivo da cana o que caracterizava um trabalho como leve ou pesado não era a força física necessária para executá-lo, mas o valor social de quem o fazia. Sempre que o trabalho é considerado de mulher, ele é leve, é coisinha à-toa, é ajuda.

Desigualdade e pobreza.

Como os homens é que são considerados os provedores da família, o trabalho profissional das mulheres é sempre visto como complementar às suas “responsabilidades” domésticas; estas, sim, sua verdadeira ocupação. A partir dessa idéia, surgem várias conseqüências negativas para as mulheres. A primeira é a de que os salário delas podem ser baixos, já que o que elas ganham é visto como suplementar. Em segundo lugar, os serviços públicos não se organizam para assegurar às mulheres condições de trabalhar fora. Não existem serviços de apoio, como creches, abrigos para idosos, lavanderias coletivas. Os postos de saúde e as escolas têm horários restritos, como se todas as mães estivessem o tempo todo em casa, à disposição da família, prontas para levar crianças e outras pessoas à escola e ao médico somente nesse horário. Dessa forma, muitas mulheres “optam” por ocupações em que há maior flexibilidade de horários: elas “escolhem” trabalhos em tempo parcial ou no mercado informal;

“belas escolhas”, que não garantem direitos trabalhistas e oferecem poucas perspectivas de crescimento profissional.

O resultado disso é uma enorme desigualdade na distribuição dos recursos e do poder na sociedade, entre homens e mulheres.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU):

* O salário médio das mulheres do setor industrial no mundo representa ¾ do salário masculino.

* As mulheres executam 2/3 do trabalho realizado pela humanidade.

* As mulheres recebem 1/3 dos valores destinados a salários mundialmente.

* Somos proprietárias de apenas 1% dos bens imóveis do mundo.

* As diferenças de renda entre mulheres e homens no Brasil são as maiores do mundo.

* Dos quase 1,3 milhão de miseráveis do mundo, 70% são mulheres.

* No Brasil, as mulheres recebem em media metade do salário dos homens e, as mulheres negras, a metade do que ganham as mulheres brancas.

* Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a situação das mulheres está melhorando e, se o ritmo atual se mantiver, 475 anos conseguiremos a igualdade salarial entre homens e mulheres.

Conforme demonstram os dados do instituto brasileiro de Geografia e estatístico (IBGE) a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro ampliou-se na década de 90. Segundo estes dados à presença feminina na população economicamente ativa (PEA) do país cresceu cerca de 9%, mas ao contrário do que se poderia esperar, a inserção qualificada tem pequena parcela de responsabilidade nesse crescimento. Houve, sim, uma precarização da mão-de-obra feminina urbana, resultado, entre outros fatores, do ingresso no mercado de um expressivo contingente de mulheres na faixa etária de 40 a 54 anos, com baixa escolaridade e sem profissionalização. A grande maioria delas se tornou empregadas domésticas premiadas pela necessidade de auxiliar a família economicamente.

Mulher e economia e solidária.

Como exposto anteriormente perceber que a participação das mulheres no mundo de trabalho, apesar de apresentar relativa ampliação, está longe de garantir uma situação de igualdade entre homens e mulheres.

A partir do que foi visto até aqui é possível perceber como tem sido a vida das mulheres, ou seja, como este sujeito se constitui. As histórias de formação, as experiências no mundo do trabalho, como um ambiente hostil de trabalho tem prejudicado a saúde da classe trabalhadora. Este é um elemento importante, pois conhecendo a história, percebemos que podemos mudar os seus rumo e construir um mundo de igualdade, solidariedade, respeito mútuo e de cooperação.

Na economia capitalista, as mulheres ainda são consideradas cidadãs de segunda categoria, desempenhando tarefas que requerem habilidades consideradas como pertencentes a “natureza feminina” e estas por serem tidas como pré-existentes desqualificam o trabalho da mulher que recebe menos pelas tarefas realizadas.

Para que tenhamos uma outra economia, baseada nos princípios de igualdade, solidariedade, cooperação e ética, é necessário pensar novas relações de gênero, quer dizer qual o papel da mulher nesta relação de trabalho diferenciada?

Não podemos falar em solidariedade se as mulheres ainda não vivenciarem a igualdades em todos os espaços de atuação.

Debater a necessidade da participação das mulheres nos empreendimentos é formular as respostas e as perguntas. Toda a organização se dá em uns sistemas de relações sociais. Mesmo a empresa de autogestão onde a pessoa é reconhecida como o centro e razão de sua existência, tem que estar atento para a visibilidade das mulheres dentro de empreendimento.

Acreditamos que a economia popular e solidária é uma forma de resistência da classe trabalhadora, mas deve ser também um espaço de emancipação das mulheres e elemento primordial na construção de um mundo de igualdade.

As mulheres e homens que atuam na autogestão necessitam a compreensão de que as mesmas relações solidárias exercidas no empreendimento devem ser estendidas aos vários espaços de atuação de cada um e cada uma.

Economia solidária: um jeito de trabalhar e produzir a vida.

Construir uma empresa autogestionária desafia homens e mulheres a desconstruir valores individualistas e estabalecer relações harmônicas, pautadas na igualdade, solidariedade, diálogo e cooperação. Valores esses que busquem o fim toda e qualquer forma de exclusão /discriminação e construa um mundo melhor para todos e todas.

Então, deste tecido de diferentes matizes é preciso construir coletivamente o novo, com novas características que são:

* Autogestão – controle da gestão e autonomia.

* Democracia – decisões tomadas pelo conjunto dos associados e associadas.

* Participação – garantia do direito de decidir e condições para a efetiva participação.

* Igualitarismo – todos e todas têm tratamento igualitário seja de remuneração como de acesso à formação e conhecimento, PARA MESMA TAREFA E FUNÇÃO.

* Cooperação – responsabilidade partilhada na gestão e produção.

* Desenvolvimento humano – concepção da formação como direito de todo / a trabalhador e trabalhadora, numa dimensão humana que possibilite o acesso às novas técnicas e educação integral.

* Responsabilidade social – a empresa está inserida em uma comunidade e com esta deve estabelecer relações solidárias e éticas de comprometimento com sua melhoria. Gerando trabalho com qualidade para os / as trabalhadoras e trabalhadores e com o meio ambiente.

O sentido do trabalho.

Ao organizar um empreendimento de autogestão, temos que atentarmos para as desigualdades de gênero, pois se não assim o fizermos poderemos cometer o erro de reproduzir a estrutura construída pela sociedade. Temos que levar em conta os aspectos ligados ao gênero desses grupos ou poderemos estar aumentando as desigualdades entre homens e mulheres ao tratarmos como falsa igualdade os que são desiguais. Desigualdade esta gerada por um longo processo de exclusão /descriminação das mulheres nos vários espaços públicos entre esses o trabalho.

É necessário considerar as seguintes questões:

* Como os princípios da economia solidária estão sendo vivenciados nas relações de gênero dentro da empresa?

* Onde estão as mulheres na economia solidária?

* As mulheres estão participando coletivamente com os homens na construção do empreendimento?

* Como as mulheres participam das instâncias deliberativas? (conselhos, assembléia, diretoria)?

O trabalho é um espaço formativo. Então em um empreendimento solidário as mulheres têm que estar em todas as instâncias. Cada instância contribui de forma diferenciada na formação e é fundamental para o “empoderamento” das mulheres vivenciarem estas experiências e ir assim resistindo e reduzindo as desigualdades até que elas não mais existam.

“Garantir uma participação efetiva das mulheres em todas as instâncias em uma empresa de autogestão ou unidade produtiva de qualquer de qualquer ramo é tarefa de todos e todas que constrói coletivamente o empreendimento e não só das mulheres”. As trabalhadoras e trabalhadores da autogestão já estão dando os primeiros passos para esta mudança, mas esta caminhada só começou.

É preciso incorporar novas formas e criar medidas que ampliem a perspectiva de participação das mulheres nos empreendimentos. Faz-se necessário encarar a problemática do empoderamento das mulheres no espaço político, econômico e de desenvolvimento.

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[1] Texto retirado do livro de apoio do Projeto de Promoção do Desenvolvimento Local e Economia Solidária (PPDLES) da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), executado pela Fundação Universitária de Brasília (FUBRA).

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