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Estado Espanhol: após a reviravolta eleitoral

Reação ibérica. PSOE ganha as eleições, mas Esquerda Unida perde espaço.

Por Diosdado Toledano

O massacre de 11 de março em Madrid iniciou a seqüência de acontecimentos que três dias mais tarde deu lugar a uma reviravolta eleitoral inesperada: uma maioria cidadã castiga eleitoralmente ao PP de José Maria Aznar, partido da “direitona” centralista espanholista, colocando-o para fora do governo do Estado espanhol.

A última etapa do governo do PP esteve recheada de grandes mobilizações de massas contras suas política reacionárias em praticamente todos os âmbitos: a exitosa Greve Geral contra o chamado “Decretazo”, as grandes mobilizações impulsionadas pelo movimento antiglobalização contra a Europa do Capital e a Guerra, os milhões de manifestantes contra a guerra no Iraque.

Contudo, este amplo mal-estar e mobilização social não se traduziam politicamente. Nesse sentido, a grosseira manipulação de informações do governo do PP sobre os autores do atentado – com a intenção de desviar a responsabilidade para o ETA, quando os dados e provas apontavam para o Al Qaeda – terminou por se voltar contra ele.

A magnitude da reviravolta

O aumento de participação em 9% em relação às eleições de 2000, fundamentalmente dos abstencionistas de esquerda e da juventude, se concentrou nas listas do PSOE, que obteve 10.788.000 votos (cerca de 3 milhões mais do que em 2000), enquanto a “direitona” centralista retrocedeu 7% e perdeu 35 cadeiras. No País Basco, perdeu 28%, e na Catalunha, 19%. Também é significativo que a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), partido nacionalista radical, tenha passado de 1 para 8 cadeiras, e que o partido da direita nacionalista catalã, aliado pontual do PP, tenha diminuído em 1/3 seus assentos no parlamento.

A Esquerda Unida, porém, retrocedeu percentualmente de 5,96% para 4,96%, e passou de 8 a 3 cadeiras, compensados parcialmente pelas duas cadeiras obtidas pela coalizão da Iniciativa pela Catalunha-Verdes, membro do Partido Verde Europeu, com a Esquerda Unida e Alternativa, organização irmã da Esquerda Unida na Catalunha. A virada à direita dessa organização nos últimos anos, e a aposta por governar com o Partido Socialista a qualquer preço, facilitou os efeitos do chamado ao voto útil que, como em outras ocasiões, o PSOE praticou abertamente.

Governo monocromático

A composição anunciada do novo governo indica seu caráter e suas limitações. A presença do comissário europeu Solbes no superministério da Economia e Fazenda expressa o compromisso do novo governo com a política neoliberal, redução do déficit e privatizações. De imediato, o governo do PSOE vai ser julgado por seus eleitores e a maioria cidadã de esquerda em relação ao cumprimento da promessa de retirar as tropas do Iraque. Diferentemente do governo socialista anterior, de Felipe González, dessa vez a atitude dos eleitores é mais crítica, sem cheques em branco, tal como ilustram os gritos de “no nos falle” (não falte conosco, ou não falhe o seu compromisso) dirigida por milhares de pessoas ao futuro chefe de governo, Sr. Zapatero.

Os efeitos previsíveis das políticas do novo governo socialista fazem prever duros conflitos sociais e políticos, num contexto social crítico e mais disposto à mobilização. Nesse sentido, novas possibilidades e espaços políticos se abrem do lado da esquerda anticapitalista. Tudo depende, entretanto, do modo como evoluirá a crise interna na Esquerda Unida depois do fracasso eleitoral.

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