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Genética

Em artigo publicado logo depois do Congresso Estadual de São Paulo, onde a Articulação-Unidade na Luta sofreu uma dura derrota, o secretário nacional de cultura lançou um texto que pode ser resumido numa única “idéia”: a Articulação tem um “montão” de delegados, o resto tem “montinhos”. Esse modelo de análise lembra um outro, de triste memória, que tentava transformar militantes e pessoas em garrafas.

Apesar de usar algumas frases pomposas – como “As maiorias partidárias, que devem ser respeitadas, são importantes para o funcionamento do partido, já que, ao se constituírem, tornam-se as primeiras responsáveis pela condução adequada da política”, cuja profundidade é inversamente proporcional ao “montão”; ou ainda, numa combinação original entre aritmética, biologia e ciência política, “Não podemos negar a aritmética. Ela não está apenas na genética do PT, mas também da própria democracia”, que deixaria Pitágoras, Mendel e Maquiavel atônitos – o artigo do secretário de cultura gira em torno do mesmo eixo: a Articulação tem um “montão”, o resto tem “montinhos”.

Ocorre que esse “princípio” da aritmética, ou da genética, ou ainda da ciência política, ou dos três juntos, não parece ser de fácil aplicação. E se fosse, praticamente tornaria dispensável não só o 3º Congresso, mas qualquer processo humano de compreensão e de ação para transformar a realidade. Bastaria que algum representante linha-dura das classes dominantes decretasse: temos um montão de dinheiro, de meios de comunicação e de poder, o resto tem míseros montinhos.

Vejamos como esse princípio cultural se traduziu em São Paulo. A Articulação alcançou 42% na eleição de delegados, um montão portanto, segundo nos ensina o secretário de cultura. Acontece que esse conjunto importante e representativo do partido não apresentou qualquer proposta criativa ou mesmo construtiva aos debates. Apenas reagiu negativamente a elas.

Por exemplo, no debate sobre código de ética, atacou essa proposta desqualificando-a como sendo nada mais que moralismo lacerdista e aceitando a tese que o socialismo prescinde da ética, “contribuição” (ou, melhor dizendo, “subtração”) trazida pel´O Trabalho em ataque conjunto. É possível que um partido que elegeu o Presidente da República reaja assim ao tema da ética?

Outro aspecto foi o debate sobre a situação atual e a necessidade de formular uma visão sobre os acontecimentos políticos verificados nos primeiros meses de governo e tendo como perspectiva avançar as mudanças potencializadas com a reeleição de Lula. A Articulação apresentou como seu projeto de resolução a nota da executiva nacional. Não tinha nada a acrescentar, apesar da boa entrevista do presidente nacional do partido, dos bons debates ocorridos em alguns encontros e na própria executiva nacional sobre o tema.

E outro ponto ainda: repeliu discussões sobre organização da base partidária e sobre democracia interna com um simples NÃO! Por isso se viu derrotada na antecipação do PED, na redução do mandato das direções de 3 para 2 anos, e na grande acolhida que teve entre os delegados teses como proporcionalidade qualificada, núcleos e auto-sustentação financeira.

Melhor para o partido, mas teria sido muito melhor que uma grande corrente que já trouxe grandes contribuições voltasse a trazê-las.

Carlos Henrique Árabe é da Comissão Executiva estadual do PT de São Paulo.

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