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Neste 8 de março a aula será nas ruas e a lição de casa é RESISTÊNCIA!

Brasília- DF 18-11-2015 Foto Lula Marques/Agência PT   Marcha da mulheres negras. Deputado disutiu com manifestantes golpista e a polícia jogou gás de pimenta.
Brasília- DF 18-11-2015 Foto Lula Marques/Agência PT Marcha da mulheres negras

Bruna Rocha, diretora da UNE

Assim como nos anos 90, mais uma vez o capitalismo internacional de organiza para atacar os direitos das mulheres em todo o planeta. A ofensiva neoliberal, que age através do imperialismo neocolonialista sobre as forças produtivas dos povos subalternizados, depredando territórios, precarizando mão de obras e violentando seus corpos e subjetividades, tem um impacto redobrado sobre a vida das mulheres. Os ataques conservadores na institucionalidade dos países em questão, se materializam quase que automaticamente em violências cotidianas. Os corpos das mulheres são os que estão na zona de coalizão, e também são estes os corpos e os rostos da resistência, que têm provocado levantes populares em todo o mundo.

 Mudar o mundo para salvar a vida das mulheres

Na Argentina, onde a direita se organizou para derrotar o ciclo de políticas públicas e republicanismo conquistado no mandato da presidenta Cristina Kirchner, a era Macri já começa marcada por casos brutais de feminicídio, precarização do trabalho industrial, a exemplo da demissão em massa das trabalhadoras têxteis de Neuquén, perseguição aos meios de comunicação, ataque à liberdade de expressão. Em resposta, as mulheres vão as ruas para dizer que não aceitaremos #NiUnaMenos (nenhuma a menos), denunciando o feminicídio como uma prática política institucionalizada pelo estado patriarcal, parte da cultura argentina; ocupam as fábricas pelo direito de produzir a partir dos equipamentos conquistados com o seu trabalho, e denunciam os abusos do patronato.

Nos países islâmicos, os conflitos territoriais e religiosos seguem a todo vapor, derramando muito sangue e travando o desenvolvimento e a economia dos povos atingidos pelas guerras civis, financiadas pelas grandes potências. As mulheres mulçumanas sofrem duplamente, na afirmação de sua cultura e luta conta o apagamento de suas tradições, ao mesmo tempo que enfrentam as contradições que, muitas vezes, atingem brutalmente sua autonomia e liberdade. Precisam enfrentar as dores da guerra, limpar o sangue dos feridos, reconstruir territórios devastados pelas bombas e pela intolerância, ao passo que lutam para se afirmar enquanto sujeitos políticos, digno de direitos e igualdade de oportunidades.

As curdas, ao longo dos últimos 40 anos, têm sido exemplo desta resistência. Além de integrarem à luta armada, pela conquista do reconhecimento do Curdistão como um Estado-nação, passaram a questionar os limites da cultura patriarcal do povo curdo e elaborar um modelo alternativo, um projeto de democracia, desenvolvimento sustentável e cultura libertária não só para o território curdo, mas para todos os países do oriente médio, inclusive aqueles nos quais encontra-se distribuído o povo curdo: Iraque, Turquia, Irã e Síria. (saiba mais sobre a luta das mulheres curdas em http://www.sul21.com.br/jornal/mulheres-curdas-lutam-por-democracia-confederada-e-nova-economia/)

Nos Estados Unidos, país que assustou o mundo com o resultado eleitoral que levou o candidato da misoginia, do racismo e da xenofobia, Donald Trump, à presidência da maior potência econômica do mundo, as perspectivas são as mais trágicas possíveis. O aprofundamento do projeto genocida de encarceramento em massa do povo negro, assim como na era Ronald Reagan (assistam a 13ª Emenda! – https://www.youtube.com/watch?v=h4uGff8OScM); o ataque à todas as conquistas no âmbito dos direitos civis das minorias políticas (imigrantes, LGBT’s e mulheres); a consolidação da máxima de superioridade mundial, com avanço das empresas norte-americanas sobre os territórios dos países emergentes (ler mais sobre o discurso dos “Estados Unidos em 1º lugar” – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38696626) e os impactos deste modelo produtivo no meio ambiente; a política xenofóbica de proteção das fronteiras (construção do muro com o México) e perseguição aos muçulmanos, como consequência da consolidação da cultura do medo e da vigilância, sob o argumento do “luta contra o terrorismo”. São alguns dos sinais de que o governo Trump não só será devastador para o território estadunidense, como terá impactos decisivos na correlação de força internacional, pesando a balança do imperialismo, em detrimento das lutas por soberania e autodeterminação das nações do “3º Mundo” e, consequentemente, de nosso projeto de uma cultura internacionalista baseada na cooperação, solidariedade, sustentabilidade e paz.

Neste cenário, foram as mulheres que foram às ruas protestar contra o conservadorismo de Trump, em uma enorme marcha que parou Washington 24 horas depois de sua posse como presidente da república. Artistas, cantoras, ativistas dos direitos humanos, feministas, trabalhadoras, estudantes e lideranças políticas como Angela Davis vêm se colocando como oposição civil à tirania do novo presidente, e contam com o apoio de movimentos e organizações em todo o mundo.

#ForaTemer

No Brasil, vivemos um estado de exceção. O golpe parlamentar que retirou a presidenta Dilma Rousseff do palácio do planalto, agredindo os 54 milhões de eleitores e eleitoras que, em 2014 votaram para reeleger a primeira mulher chefa de Estado em nosso país, abriu portas a um programa ultra-neoliberal, de desmonte das políticas públicas comandado pelo PMDM de Michel Temer e seus aliados do PSDB. Em poucos dias de exercício no Executivo Federal, Temer mostrou para que veio e a serviço de quem: encomendou um pacote de emendas e projetos de lei para beneficiar o empresariado e detonar com os trabalhadores e trabalhadoras. A PEC 55 foi o maior exemplo: a tal política do teto, estrangula completamente as políticas públicas necessárias à sobrevivência do povo brasileiro, pois congela investimentos em Educação e Saúde, setores que aumentam sua demanda com o crescimento populacional ao longo dos anos.

A reforma conservadora do ensino médio retrocede em décadas os avanços conquistados nos últimos períodos na Educação: a retirada do estudo de gênero e diversidade dos currículos, o veto ao debate político em sala de aula, são medidas que mostram que a quadrilha de Temer não quer somente assaltar a economia nacional e vendê-la aos países “amigos-da-onça”, mas também aprofundar a cultura conservadora, machista, racista e patriarcal da sociedade brasileira, transformando as escolas em equipamentos genuínos de alienação e despolitização dos sujeitos desde a infância.

As últimas novidades do governo golpista são as reformas previdenciária e trabalhista, ambas letais para a sobrevivência do povo brasileiro. Na prática, Temer quer que a população mais pobre pague a conta da crise, acabando com o mínimo de seguridade social que ainda garante alguma qualidade de vida na terceira idade para trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo do campo, precarizando ainda mais o trabalho, atacando direitos básicos como carga horária mínima de trabalho, décimo terceiro e férias. Sabemos quem são as pessoas mais precarizadas no atual modelo trabalhista que temos, agora imaginemos como ficará a vida das mulheres, da população negra e camponesa, com a retirada desdes direitos. É o assassinato explícito do futuro. Por isso precisamos lutar, enfrentar,  barrar os retrocessos e derrubar Michel Temer, antes que ele nos derrube.

Neste cenário, as violências sobre os territórios se aprofundam e destroem a vida das mulheres. Toda a misoginia que sustentou a narrativa pelo impeachment (GOLPE!) da presidenta Dilma Rousseff, também recrudesceu as violências físicas e simbólicas contra todas as mulheres brasileiras. Não à toa que o primeiro ano de “governo Temer”, já começou com as trágicas chacinas feminicidas em Campinas e em Feira de Santana. Quem ler a carta do atirador de Campinas não terá dúvidas de que ele era do mesmo time daqueles que compravam adesivos depreciativos e sexualizadores da presidenta Dilma na época do golpe; quem fala de “Lei Vadia da Penha”, certamente não acreditava que uma mulher seria capaz de governar o país.

A violência não para por aí. A guerra as drogas e a política militarizada de segurança do Estado brasileiro, todo dia derrama sangue nas periferias, deixando mães em luto permanente e orfãs de justiça. São estas mulheres contudo, que, mesmo devastadas pela dor de perder seus filhos para a violência, vêm sendo protagonistas do enfrentamento ao genocídio e ao encarceramento, da formulando alternativas ao sistema penal e à política de segurança. (Conheça a história das Mães de Maio – https://www.brasildefato.com.br/2016/05/13/surgido-da-dor-maes-de-maio-se-tornam-referencia-no-combate-a-violencia-do-estado/). Foram as mulheres também que foram para as portas dos quartéis lutar contra a precarização dos servidores da Polícia do Espírito Santo, cujas consequências irreparáveis (mais de 200 mortes e diversos saqueamentos durante duas semanas de paralisação – https://www.cartacapital.com.br/politica/o-que-nos-ensina-o-caos-na-seguranca-do-espirito-santo), deixaram pistas sobre o quão frágil é o sistema coercitivo do Estado policial e o quanto as políticas de segurança precisam ser construídas com a colaboração de vários agentes da sociedade e não através de uma instituição anacrônica, autoritária e repressiva, que além de tudo age através uma das categorias mais precarizadas e maltratadas da classe trabalhadora.

O crescimento do agronegócio e do extrativismo também têm provocado estragos no Brasil, sobretudo no interior, e mais uma vez, são as mulheres que estão na linha de frente de resistência: lutando contra o latifúndio, na zona sangrenta dos conflitos armados pela terra, construindo modelos alternativos de economia e produção, a exemplo da agricultura familiar e da luta pela soberania alimentar, contra o agrotóxico e a destruição da natureza. Compreendendo que a violação da natureza, sempre vem acompanhada pela violação do corpo das mulheres, diariamente tomamos conhecimento de casos de prostituição, leilão de meninas, estupros coletivos, feminicídios, exploração sexual e tráfico de mulheres, em regiões marcadas por atividades como mineração e extrativismo.

A universidade fica! Michel Temer Sai!

 A já citada reforma do ensino médio foi a primeira sinalização do quão conservador e fascista é o projeto de educação de Temer e o fantasma da PEC 55 já ameaça a estabilidade das instituições federais, estaduais e particulares em todo o país. Nos primeiros meses de governo Temer, nós, estudantes, acompanhamos o terror das universidades ao não conseguir fechar suas contas devido à contenção dos repasses; vimos também que, na diminuição do orçamento, são as mulheres, os e as estudantes negras, indígenas, quilombolas, cotistas e beneficiárias do FIES, as que são mais atingidas com estes cortes. São as políticas de assistência estudantil e permanência as mais atacadas, na disputa de poder na academia, mas também o investimento em pesquisa e extensão serão profundamente prejudicados, correndo o risco de muitas instituições fecharem as portas ou abrirem as janelas para a praga da privatização, como é o caso alarmante da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

O ataque ao ensino superior é um ataque à construção de autonomia e desenvolvimento de qualquer país, pois é através da qualificação da mão de obra e do investimento em tecnologia, que se estrutura uma economia sustentável e soberana.

Neste caos institucional, seguem os casos de machismo, assédio sexual e moral, estupros e mortes nas universidades brasileiras. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (Violência contra a mulher no ambiente universitário – http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2015/12/Pesquisa-Instituto-Avon_V9_FINAL_Bx.pdf)) revelou que 67% das alunas sofreram algum tipo de violência na faculdade – 28% sofreram violência sexual, 56% sofreram assédio sexual por alunos, funcionários e professores, 52% sofreram agressões morais e psicológicas, e 10% sofreram violência física.

No final de 2016, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) foi instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo para investigar os casos de violência e estupros nas universidades paulistas, com destaque para os casos da Faculdade de Medicina na USP, que é um exemplo de misoginia em seu histórico de agressões, trotes machistas e estupros. Semana passada, a Justiça Paulista absolveu o estudante acusado de drogar e estuprar uma estudante no campus, na recepção de calouros de 2012, e já está em curso um movimento de resistência à esta decisão que marca o descaso com a vida das mulheres por parte das instituições do Poder Judiciário brasileiro (https://www.change.org/p/usp-estupro-%C3%A9-crime).

As mulheres vêm resistindo à violência nas universidades através do feminismo: coletivos e frentes feministas se formaram em instituições de todo o país para combater o sexismo e o machismo institucional dentro e fora das salas de aula. Na UFBA (Universidade Federal da Bahia), a frente feminista vem cumprindo um importante papel na resistência aos casos de violência. Em 2015, denunciou e acompanhou um caso histórico de assédio moral no Instituto de Química e, no ano passado, as mulheres da Faculdade de Comunicação conseguiram afastar um professor violento e assediador de uma disciplina, o que desencadeou uma corrente de solidariedade às vitimas. Por outro lado, a manifestação gerou uma verdadeira perseguição do professor, que abriu um processo na Polícia Federal contra as estudantes, além de iniciar uma campanha difamatória em suas redes sociais contra as alunas rebeladas.

A luta feminista segue num cabo de forças permanente com o patriarcado e estará na linha de frente da resistência aos retrocessos e ataque aos direitos promovidos pelos governos conservadores no Brasil e no mundo. Lutar pelas nossas vidas é também lutar por um outro mundo possível, anticapitalista, antirracista, sustentável. Até conquistarmos uma representação legitimada pelo voto do povo brasileiro, nossa palavra de ordem, nosso hit de carnaval, nosso grito de misericórdia continuará sendo #FORATEMER. Neste 8 de março, assim como na primavera feminista e em tantas outras encruzilhadas de nossa estrada de batalhas intermináveis, nossa aula será nas ruas, nosso assunto será a democracia e a lição de casa: RESISTIR!

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