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Novos rumos para o PT do Pará

407170Nota da Democracia Socialista do Pará

O PT precisa reencontrar seu eixo político e discursivo.  Ser a vanguarda das lutas por um novo desenvolvimento do Pará e voltar a disputar a opinião em uma sociedade cada vez mais urbana, informada e fragmentada em comunidades – reais ou virtuais.

Nossas principais derrotas nas eleições municipais de 2012 – inclusive Belém – guardam  pouca relação direta com uma suposta avaliação de nossa experiência frente ao governo do estado. Lembremos que Ana Júlia teve 44% dos votos em Belém no segundo turno de 2010, mesma votação de Edmilson em 2012.

O PT tem que defender o legado de seus governos, sob pena de amargar derrotas advindas de uma opinião pública formada pelas versões veiculadas pelos nossos adversários.

A candidatura própria do PT em Belém foi uma vitória da militância através de um vigoroso processo de prévias que fortaleceu nosso partido. Entretanto, ao encarar nossa candidatura como elemento auxiliar na estratégia do PMDB, setores importantes do partido a levaram a progressivo desmonte e à maior derrota de nossa história neste município.

Precisamos construir a chapa majoritária do PT em 2014 com base nos princípios petistas da democracia interna e afinado com os anseios dos setores progressistas da sociedade paraense. Discordamos do discurso despolitizado da “fila partidária” e defendemos a construção de  fortes palanques para nossa companheira Dilma a partir de sua base política no Pará.

2012: uma vitória do PT no Brasil

O resultado das eleições de 2012 demonstra uma vitória significativa do Partido dos Trabalhadores  e dos setores progressistas em  nível nacional. Aumentamos o número de  prefeituras: governaremos 635 municípios, com  cerca de 27,6 milhões de eleitores, equivalendo a 20% do eleitorado nacional.  Ampliamos em 25% o nosso número de vereadores, saltando de 4.164 em 2008 para 5.191 em 2012. O consórcio PSDB/DEM diminuiu significativamente em número de eleitores e cidades governadas.

A vitória em São Paulo, com um candidato nunca antes testado nas urnas e contra um dos símbolos máximos do PSDB é a melhor expressão da pujança de nossos resultados em 2012.
Considerando que esse resultado se deu em meio a uma das maiores e mais virulentas campanhas  midiáticas contra o PT, representada pelo uso político do julgamento do Mensalão, sem dúvida saímos vitoriosos mais uma vez.

O quadro que emerge das eleições é entretanto, complexo. Talvez estejamos vivenciando o início do fim da polarização eleitoral entre PT e PSDB, com o surgimento de novas forças políticas, particularmente o PSB, que, não poupou esforços para nos enfrentar  mesmo onde antes tínhamos bom relacionamento e acordos políticos estabelecidos.

Cabe uma nota também relativa ao desempenho de outros partidos de esquerda – o Psol e do PCdoB –  que também tiveram bons desempenhos eleitorais relativos.  O Psol conseguiu ter um consistente resultado eleitoral em quase todas capitais, inclusive elegendo vários vereadores com votações expressivas, como em Porto Alegre, São Paulo, Rio, Salvador, Fortaleza e Belém. Elegeram o prefeito de Macapá e foram ao segundo turno em Belém. A nosso ver, capitalizaram um voto de oposição ao governo federal, particularmente potencializado pelas greves do serviço público federal. O PCdoB cresceu significativamente nessas eleições, elegendo  56 prefeitos, 85 vice-prefeitos e 976 vereadores – um crescimento de 36% em prefeituras e 61% no número de vereadores.

Não podemos deixar de mencionar algumas derrotas significativas, que parecem mais ser fruto de problemas locais do que de influência da conjuntura nacional, como é o caso de Recife.

No geral, onde o PT estava unido, com estratégia definida antecipadamente e apresentando candidatos de alto perfil, vencemos –  talvez com a honrosa exceção de Salvador. Vencemos porque temos um governo nacional com elevado grau de avaliação positiva, fruto do  programa ambicioso de mudanças do país levado adiante pela Presidenta Dilma.

O PT no Pará: resistência em meio às dificuldades

O PT na Amazônia enfrenta desafios  importantes que nos levam a grandes impasses. A conjunção de elementos locais com as dificuldades associadas à forte intervenção do Estado Nacional na Amazônia e à  crise ambiental  que vivemos gera um cenário que os setores democrático-populares devem analisar com atenção.

O Pará talvez seja o caso mais emblemático das dificuldades que o PT enfrenta na Amazônia. Vivemos ainda o rescaldo  da derrota de 2010 e, nas eleições de 2012, vivenciamos uma diminuição no número de prefeituras, proporção da população a ser governada por gestores petistas e queda no voto da legenda 13.  Diminuímos em um país  onde o PT só faz crescer.

Entretanto, o resultado das eleições também mostrou a força do PT do Pará, de seu enraizamento social e do surgimento de novas lideranças em todo o estado que permitem vislumbrar um bom futuro para nosso partido através de vitórias e resultados significativos que fizeram que mantivéssemos 23 prefeituras e elegêssemos prefeituras aliadas importantes, como Marabá. As vitórias em Bragança e Augusto Corrêa levam o partido a regiões onde o voto conservador era a marca. A conquista de Cametá nos dá uma nova chance naquele município estratégico, e as expressivas vitórias no Marajó, fazem do PT o partido de maior número de prefeituras no Arquipélago. Mesmo onde não vencemos, projetamos novas lideranças para o futuro do PT com votações importantes, como é o caso dos companheiros Raydson em Paragominas, Lucineide em Santarém e Jones William em Tucuruí.

O bloco que governa o Pará sai fortalecido, mesmo com um governo que até o momento se caracteriza pela absoluta falta de realizações, sendo incapaz inclusive de inaugurar obras por nós iniciadas.  O PSDB/PSD conquistou os principais pólos regionais e avançou grandemente na Região Metropolitana de Belém.

O PMDB é o grande derrotado das eleições municipais no Pará. A estratégia expansionista do partido, com lançamento de mais de 90 candidaturas como base para a candidatura de Helder Barbalho, sofreu um grande abalo. Perderam mais de 10 prefeituras, dentre elas Ananindeua e amargaram um resultado inesperado nas eleições de Belém. Ressalte-se que os movimentos do governo do estado foram sempre no sentido de derrotar o PMDB onde fosse possível.

Elementos para entender as vitórias e as derrotas

Vamos direto ao ponto:  a derrota do governo em 2010 tem óbvios efeitos nas eleições de 2012, mas somos da opinião de que a nossas principais derrotas não tem a ver com uma suposta  avaliação negativa do governo Ana Julia. Ao contrário, vencemos, mesmo em municípios onde fomos derrotados em 2010 – como Bragança e  Augusto Corrêa –  com discurso de defesa do legado do governo.

Acreditamos que os elementos locais foram determinantes para nossas mais significativas derrotas, como em Santarém, Parauapebas e Belém. A ausência de uma estratégia antecipada de enfrentamento eleitoral parece ter sido definidora dos resultados.

Padecemos  também de uma grave falta de unidade partidária que diminui nosso potencial. O exemplo mais evidente é o fato de que  dentre os nossos 12 deputados, somente 1 foi candidato. O restante não foi sequer escalado para alguma tarefa partidária porque  isso ameaçava a lógica das tendências e das estratégias de reprodução individual de mandatos que hoje dominam nosso partido.

Ademais, onde  o PT se rendeu a tática individual dos prefeitos, a direita, no geral venceu. Várias de nossas figuras públicas foram derrotadas em seus municípios por candidatos escolhidos por prefeitos (do PT ou não) e  outros sequer foram considerados para alguma tarefa eleitoral.

Onde o PT estava unido,  vencemos ou tivemos resultados significativos.

Também não esqueçamos que nossos inimigos de classe operam fortemente. Vimos nestas eleições um fenômeno novo que talvez revele  a verdadeira  face  do governo do PSDB: a aliança dos setores mais retrógrados de nossa elite com a lumpemburguesia, particularmente  com o narcotráfico, que coordenou  um esquema de compra de votos jamais visto no Pará.

As instituições estatais, particularmente a PM foram fortemente utilizadas contra o PT. Os Ministérios Públicos, tão ativos na fiscalização de nosso partido, calaram diante de tanta arbitrariedade.

Finalmente, podemos dizer que vencemos onde tínhamos opinião política afinada com os anseios da sociedade local. Perdemos onde tentamos reproduzir lógicas despolitizadas de alianças sem discurso ou só do resgate do passado de realizações do PT.

Belém

Belém merece uma avaliação mais profunda. Salta aos olhos Edmilson Rodrigues, membro de um partido que fez oposição visceral, raivosa e sistemática ao nosso governo estadual,  ter tido, no segundo turno, uma votação quase idêntica a de Ana Júlia no segundo turno das eleições de 2010 em Belém.

Precisaríamos analisar cada seção eleitoral individualmente para averiguar o grau de correlação  entre as duas votações, mas o resultado final indica o potencial do votação da esquerda em Belém. Mesmo desunida e com discurso por vezes contraditório, o eleitorado identifica elementos comuns nos candidatos de nosso campo, o  que nos dá pistas para embates futuros.

A enorme derrota de nosso partido em Belém, amargando o pior resultado eleitoral de nossa história, com a perda de mandatos valiosos e com uma votação ínfima é o resultado de uma tática eleitoral defendida  por lideranças de nosso partido que priorizava uma aliança tácita  com o PMDB.

Esta posição impediu que unificássemos o partido em uma candidatura competitiva e nos levou para as prévias, onde a militância demonstrou, de maneira inequívoca a força do PT.
A candidatura própria do PT em Belém foi uma vitória da militância através de um vigoroso processo democracia interna que fortaleceu nosso partido. Entretanto, ao encarar nossa candidatura como elemento auxiliar na estratégia do PMDB, setores importantes do partido a levaram a progressivo desmonte e à maior derrota de nossa história.

Na prática a candidatura do PT em Belém foi abandonada.  Sem apoio financeiro, sem aliados e sem presença ou gravação de Lula ou Dilma (que, ironicamente, gravaram para o candidato do PSOL no segundo turno).

A campanha do PT em Belém  padeceu dos mesmos dilemas que o PT precisa superar se quiser se reconstruir no Pará.

Em primeiro lugar, uma indefinição acerca de quem é o verdadeiro inimigo a ser derrotado: para nós, o PSDB e o governo Jatene. Ficamos titubeando inicialmente em assumir uma clara linha de oposição a Jatene, preocupados em demasia  com a candidatura de Edmilson.

Em segundo lugar, achar que um candidato do PT possa esconder o legado do governo Ana Júlia.

Em diversas reuniões de coordenação,  alguns setores do partido,  com posição, ao nosso ver,  absolutamente sectária,  repetiam à exaustão a idéia absurda que a campanha deveria focar no PT e não no governo do PT, pois isso poderia transferir rejeição ao nosso candidato.  Essa tentativa de “esconder” alguém que teve 44% dos votos em Belém nas eleições de 2010 nos parece absolutamente em desacordo com os fatos estatísticos e com nossa tradição política, que é a de disputa de opinião publica.

A expressiva votação de Edmilson mostrou a força da sociedade civil petista em Belém e sua derrota mostrou os limites do PSOL.

O PSOL padeceu de diversas contradições políticas. A contradição entre o discurso do partido de oposição ao PT e a adoção de uma linha hiper-petista no segundo turno que também se calava quando perguntado acerca de nossa experiência frente ao governo do estado. A contradição entre um partido que se recusou por anos a fazer oposição ao PSDB, por acreditar, como muitos de nós, que quem iria para o segundo turno seria o deputado José Priante, do PMDB  (lembremos do silêncio do PSOL  no Senado ante nossas denúncias contra o Senador Mário Couto do PSDB/PA, conhecido contraventor envolvido em uma longa lista de crimes)   e a necessidade de repentinamente enfrentar o PSDB. Finalmente, a contradição entre a necessidade de ter aliados e seu isolamento político, local e nacional.

A vitória de Zenaldo, apesar da compra de votos e do uso do aparelho estatal,  foi fundamentalmente uma vitória política do PSDB e, exatamente por isso, só o PT poderia derrotá-los em Belém.

Novos rumos

O nosso PT precisa reencontrar seu eixo político e discursivo.  Ser a vanguarda das lutas pelo  desenvolvimento do Pará e voltar a disputar a opinião em sociedades cada vez mais urbana, informada e fragmentada em comunidades – reais ou virtuais.

Precisamos nos reencontrar com a juventude, não ter medo de debater nenhum tema: corrupção na política, Belo Monte, a crise da CELPA, o caos na segurança pública. Precisamos reencontrar a intelectualidade e os setores médios, precisamos continuar ao lado de trabalhadores e trabalhadoras na luta contra qualquer forma de opressão.

Chegamos à Presidência da República e mudamos o País com nada mais nada menos do que política – expressando  a  esperança do povo e construindo boas alianças com base em um programa para o  Brasil. Acreditamos que só seremos vitoriosos se retomarmos esse rumo.

O PT precisa organizar uma vigorosa, sistemática e incansável oposição aos governos do PSDB. Nossa bancada na Alepa deve liderar esse esforço, que é uma luta contra o que há de pior na política brasileira: a aliança entre elites rentistas de Belém, com a nova elite  predadora da fronteira agora com setores explicitamente envolvidos com a contravenção e o narcotráfico.

Precisamos debater já as eleições de 2014. Definir claramente nossa tática, que deve priorizar a construção de amplas alianças que garantam a reeleição de Dilma, mas que também observem nossa oposição ao PSDB.

O PT tem que chamar já os partidos da base aliada da Presidenta para articularmos um fórum de debates sobre 2014. Defendemos que o PT tenha candidato ao governo e que o método de escolha vá além do despolitizado e, portanto, estranho à nossa tradição política,  discurso da fila de candidatos. Entre a fila e a prévia, preferimos os métodos democráticos previstos em nosso estatuto.

Assina: Tendência Interna Democracia Socialista

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