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O Brasil do coronel Brilhante Ustra é o Brasil que o Jornal Nacional quer? | Juarez Guimarães e Eliara Santana

Mais vale a construção de uma narrativa do que um editorial: a narrativa fortalece o voto dos que já se decidiram, dá-lhes ou renova os argumentos e, mais importante, atrai voto dos indecisos. A ofensiva pró Bolsonaro e o relativo estancamento do crescimento sustentado da votação em Haddad nesta última semana das eleições teve a decisiva e central participação do Jornal Nacional em todas elas. Ao que tudo indica, a Rede Globo já é orgânica à direção da campanha de Bolsonaro.

A ofensiva pró- Bolsonaro sustentou-se em três ações estratégicas combinadas: a renovação do vetor corrupção- anti-petismo com o vazamento da delação de Palocci pelo juiz(?) Moro, a humanização de Bolsonaro visando reduzir a sua rejeição e a escalada de pesquisas Ibope e Data Folha, dia a dia, criando a expectativa e confirmando em seguida, em uma dinâmica ascensional , uma votação crescente em Bolsonaro. Em todos eles, o Jornal Nacional esteve no centro.

Uma visão de conjunto da ação massiva de fake news deflagrada pela máquina de guerra da campanha de Bolsonaro (foram cinco mil somente as detectadas pela direção da campanha de Haddad), certamente diretamente assessorada pelos estrategistas da campanha de Trump, encontraria a sua convergência com a ação do Jornal Nacional : anti-petismo e relativização dos defeitos de Bolsonaro. O argumento de que as falas de Bolsonaro são pessoais ou apenas idissioncrasias ou que são menores diante do problema maior da “corrupção do PT” grassou nos Whats Apps. A revista Fórum tornou público um documento do chefe da redação da Folha de S. Paulo que vai na mesma direção : é proibido escrever que Bolsonaro é de extrema-direita!

Pode-se documentar esta estratégia narrativa do Jornal Nacional em cinco episódios relevantes. O primeiro , e mais importante, foi o tratamento dado ao evento do dia 29 de setembro, o movimento de mulheres contra Bolsonaro # Elenão, certamente o mais massivo, internacional e importante movimento político das mulheres na história do país. Mas a mobilização recebeu um tratamento pífio do jornal, pouquíssimos minutos, no mesmo nível que as manifestações pró-Bolsonaro, de tamanho bastante circunscrito.

O mais importante, porém, foi a pequena entrevista com ele no Jornal Nacional deste dia, quando saiu do hospital, ainda no avião. Já havia ali, em curso, uma estratégia de reconstrução positiva de Bolsonaro: humanizá-lo, mostrá-lo palatável, aceitável. Bolsonaro falou da filha, das saudades de casa. Não havia ali mais o pregador público da violência contra as mulheres.

Um elemento importante que já vinha sendo trabalhado nesta construção é o dizer modalizado de Bolsonaro, projetado em mensagens de Facebook e mostradas em destaque nas edições do Jornal Nacional. Entrava sempre o tom ponderado do dizer, palavras suaves e a demonstração da preocupação com as pessoas, com o país, com o desemprego. Detalhe: não havia voz, a expressão, apenas o texto a significar. Compondo a construção da cena enunciativa. Imagens do ambiente hospitalar e do paciente na cama do hospital, com os tubos e drenos etc. A voz de Bolsonaro depois volta a aparecer, tendendo à mansidão, pausada, mostrada numa entrevista.

O segundo momento importante desta mesma estratégia foi o modo como o Jornal Nacional noticiou e repercutiu as matérias da Folha de S. Paulo e da revista Veja sobre as violências cometidas por Bolsonaro quando de sua separação do primeiro casamento (ameaças de morte, roubo de cofre, ocultação de bens patrimoniais). Havia testemunhas e comprovações: depoimentos de pessoas que conviveram com a ex-mulher no estrangeiro, documentos do Itamarati, um volumoso processo de 500 páginas na Justiça, confirmação do assalto ao cofre do Banco. Mas o Jornal Nacional focou apenas no atual e interessado desmentida da ex-esposa de Bolsonaro ( hoje candidata com o sobrenome do ex-marido). O ‘marido violento” ficou como o “pai exrtremado”, preocupado com o destino dos filhos.

As falas racistas de Bolsonaro (julgadas no STF, que lhe absolveu em voto disputado!) e a sua incitação à violência ( “metralhar petistas!” cuja denúncia não foi aceita pela Procuradora Geral da República não foram mostradas no Jornal Nacional : apenas as decisões protetivas de Bolsonaro proferidas pelos escalões do judiciário que também já protegem Bolsonaro.

O Jornal Nacional também não noticiou nenhuma das gravíssimas falas do vice de Bolsonaro, General Mourão, ou do seu coordenador de programa, Paulo Guedes, frontalmente hostis à democracia e aos interesses populares. O eleitor tem o direito de saber: mas a censura certamente é um dos modos de compor uma narrativa.

Um quinto momento importante: o Jornal Nacional emitiu um pequeno editorial criticando a fala de Bolsonaro sobre uma possível fraude nas eleições. Mas no dia seguinte, fez questão de noticiar uma fala do candidato, reparadora, no sentido de que reconheceria o resultado das eleições. Enfim, Bolsonaro é administrável , não um risco à democracia…

Reorganizando a agenda: o risco é o PT corrupto!

A partir do dia 29 de setembro, o Jornal Nacional trabalhou estratégica e sistematicamente dois sentidos de propaganda, formando o sentido do antagonismo entre Bolsonaro e Haddad. E assim o fez, estabelecendo campos de sentido a partir do quadro “O Brasil que eu quero”, o que ficou explícito na edição de 1º de outubro, quando o Jornal Nacional soltou trechos da delação de Palocci. Nesta edição, o Jornal Nacional anunciou feliz que ali tinha reunido os principais desejos e medos dos brasileiros, a partir dos vídeos, que ia mostrar que era possível um novo país, e que esses sonhos até já eram concretos em alguns lugares.

CAMPO 1: O BRASIL QUE NÃO QUEREMOS

É aquele da corrupção, uma corrupção ( como evento) temporalmente marcada, que gera sofrimentos para a população e impede que ela alcance seus sonhos. O grande mal do Brasil é a grande corrupção. Assim, deve ser combatida de várias maneiras, bem como todos aqueles que se ligam a este mal.

CAMPO 2: O BRASIL QUE QUEREMOS

Aqui voltam os desejos e sonhos e anseios do brasileiro. Tudo mostrado nos vídeos. É o lugar do país sem corrupção, de preferência sem política, apenas com “gestores”. É um lugar sem extremismos, onde todos pensam” no futuro da nação”. Portanto, com Bolsonaro repaginado, o único extremo que resta é o personificado por Haddad.

O desejo mostrado na edição de 1º de outubro era o da saúde – e o Jornal Nacional mostrou como ele estava sendo negado à população e como era humilhante o sofrimento das pessoas. Espaço grande, muitas pessoas falando. Fim do bloco. Entre, na imediata sequência, a delação de Palocci, o grande esquema de corrupção do PT, com campanhas que chegam á casa do bilhão. A conclusão está evidente: se não fosse esta corrupção vergonhosa, as pessoas teriam seu direito à saúde garantido.

De volta à tortura?

No dia 24 de abril de 2016, o Fantástico da Rede Globo dedicou seis minutos para uma reportagem fortemente crítica à declaração do deputado Jair Bolsonaro quando da votação do impeachment de Dilma Roussef: “ Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef”. Bolsonaro protestou vivamente. Será que agora, então, auto-crítica da auto-crítica, a Rede Globo pretende voltar à apologia de quem faz apologia da tortura?

Brilhante Ustra, o “Dr. Tibiriçá”, foi o primeiro militar condenado pela Justiça brasileira pela prática de tortura durante a ditadura. Ele chefiou o DOI-CODI do II Exército, de 1970-1974, quando, comprovadamente, 50 presos ou presas políticas foram ali assassinados. Não era um quadro qualquer mas um dos idealizadores e principais organizadores da tortura. Dirigia, ordenava mortes, acompanhava pessoalmente os casos mais “difíceis”: eram famosos os “passeios”, quando levava torturados para ver cadáveres de torturados mortos, agredia mulheres grávidas e chegou a levar crianças de 4 e 5 anos para ver a mãe sendo torturada na cadeira de dragão! A comissão de Justiça e Paz, coordenada pelo Cardeal Paulo Evaristo Arns, documentou 502 denúncias de torturas no período.

Certamente Bolsonaro não é o candidato dos sonhos daqueles que dirigiram o golpe contra a democracia brasileira em 2016. Mas foram vãs todas as tentativas de tirar o PT do segundo turno das eleições. Assim como escorregaram pelas mãos todas as tentativas de construir um candidato mais palatável para continuar o programa neoliberal do golpe. Restou Bolsonaro: o que fazer?

Ao que tudo indica, a Rede Globo já está colocando em prática a decisão que tomou: se for preciso para derrotar a esquerda , de volta ao coronel Ustra!

Eliara Santana é doutoranda em análise do discurso PUC Minas /CAPES
Juarez Guimarães é professor de Ciência Política da UFMG.
Artigo publicado originalmente no portal Carta Maior

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