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O Cristo encapuzado

Tortura. Um anônimo iraquiano desferiu um golpe mais duro aos EUA do que as incipientes insurgências xiita e sunita.

Jorge A Bañales

As fotografias que circularam por todo o planeta poderiam ter sido feitas em muitos outros lugares e diferentes épocas, como por exemplo na América Latina de décadas passadas. As técnicas básicas são as mesmas: capuz, nudez, fios, obrigar o preso permanecer de pé, abuso sexual. Como se os torturadores do planeta houvessem aprendido na ultima metade do século todos na mesma escola, a das guerras sujas.

As fotos foram difundidas porque houve um soldado estadunidense que não tolerou os vexames e as entregou ao Serviço de Investigação Criminal do Exército. E a mancha, irreparável para o prestigio já avariado dos Estados Unidos no Oriente Médio, se transformou em escândalo global porque houve uma jornalista estadunidense – Seymour Hersh –, uma revista estadunidense – The New Yorker – e um programa de TV estadunidense – 60 Minutes – que divulgaram as imagens e publicaram o informe interno do Exército. Isso é parte de outra escola, a da liberdade de expressão e da proteção aos direitos humanos.

Em janeiro, o Pentágono informou, de maneira breve, que se investigavam alguns abusos. A primeira reação dos militares foi de buscar diminuir os danos, de manter a investigação nos limites do processo e dizer à imprensa que se houve vexames foram isolados e de responsabilidade quase exclusiva de soldados e oficiais de baixa patente, fora de controle. Em março, o general Antonio Taguba, encarregado da investigação interna, entregou seu relatório, agora tornado público. Nele, se descrevem “numerosos incidentes criminais de abusos sádicos, descarados e licenciosos”. Ex-presos de Abu Gjraib explicaram que as humilhações sexuais foram para eles ainda piores que os maltratos físicos.

Regra ou exceção

Tanto Bush como Rumsfeld se vangloriaram inúmeras vezes que Washington “colocou fora de circulação uns três mil terroristas”. Os Estados Unidos não se incomodaram em explicar onde esses indivíduos se encontram, se continuam vivos, de que foram acusados, quais as provas contra essas pessoas, os métodos empregados para sua identificação e captura, nem quanto tempo ficarão detidas.

O governo de Bush chegou a um ponto crucial em sua aventura iraquiana: a indignação caudada entre os muçulmanos pelas fotos de prisioneiros vexados se soma à crescente rebelião que vai criando um sentimento nacionalista ali onde antes havia inimizade entre sunitas e xiitas.

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Esse homem encapuzado – do qual ninguém sabe se continua vivo ou se esta entre os que os Estados Unidos colocou fora de circulação – trouxe em sua vulnerabilidade absoluta a revanche do torturado, de todos os torturados: mostrou o equivoco histórico do torturador.


Este texto é um recorte resumido do original, publicado na revista uruguaia Brecha– www.brecha.com.uy

 

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