Home / Conteúdos / Notícias / O PT e o monstro

O PT e o monstro

978686
Fotos: Leonardo Wetzel

Por Rafael Chagas *

Na última quinta-feira (29/08) alguns militantes petistas, em sua maioria jovens, estiveram na sede do PT carioca para protestar contra a posição de três vereadores do partido em relação a CPI dos ônibus. Os manifestantes exigiam que o diretório municipal tomasse uma posição nítida e contundente de questionamento da CPI, montada para não dar em nada. Esse tipo de manifestação mostra algum nível de vitalidade partidária que vem desde baixo.

Essa vitalidade tem muito a ver com a história do próprio PT. Diferente de outros partidos da esquerda mundial, principalmente os da Europa fundados no final do século XIX e início do XX, o PT não nasceu de uma ideia ou de um programa socialista estabelecido previamente. O PT surgiu primeiro na luta. Seus futuros militantes, pelo menos a maioria, já estavam em luta nas ruas sem ter um programa estratégico socialista que desse sentido a essa luta. Quando o PT foi criado, seu programa foi a expressão das lutas travadas contra os milicos, latifundiários e patrões e não o contrário. Podemos dizer que a consciência de classe se deu em luta.

Essa característica marcante fez do PT um monstro. A multiplicidade que se organizava em torno da estrela causava horror exatamente porque era impossível prever aonde esse movimento chegaria. O monstro PT, por um lado, causava estranheza a diversos setores esquerda tradicional brasileira que se apressava em dizer que o PT estava fazendo o jogo da ditadura, ou que era um partido sem nitidez programática e, portanto, jamais faria a revolução, como se fosse possível eles fazerem. Um monstro liderado por um sapo barbudo, alcunha dada por Brizola ao Lula nas eleições de 89. Por outro lado, o PT causava horror aos donos do poder. A imprevisibilidade como marca e a falta de uma direção verticalizada impedia o sucesso de acordos de gabinetes que pudessem dar contornos concretos ao monstro. A ideia da social-democracia europeia do pós-guerra, em que se estabelecia acordos com o capital para conquistar avanços para os trabalhadores até que eles tivessem condições objetivas para travar a luta final contra a burguesia, era impossível de se realizar com o PT.

Isso assustava os setores conservadores e a esquerda tradicional que, naquele momento, desejavam uma transição segura para a democracia. O PT rompe com esse acordo tácito e coloca em cena novos sujeitos. Um bom exemplo dessa característica do PT é a bandeira de luta “Fora FHC” nos anos 90. O PT aprovou que não aderiria essa bandeira, mas foi impossível controlar sua militância que não hesitou em nenhum momento em gritar pelas ruas “Fora FHC e o FMI”.

Muitos, atualmente, são os setores e as linhas de força que tentam capturar a multiplicidade petista em favor da construção de um uno partidário pragmático, com uma direção verticalizada e com formas pré-definidas para se realizar a transformação. A construção de um partido, que se viabilizou enquanto uma grande máquina eleitoral, que não permite o diferente. Esse uno faz com que muitos setores do PT olhem com horror as manifestações de junho, que digam, assim como disseram no fim dos anos 70 sobre o PT, que são de direita e que não tem pauta. Agora é o PT que olha para esses movimentos como um monstro por não entender o que ele pode significar e suas possibilidades.

Alguns dizem que o problema atual do PT é porque ele nunca teve um programa estratégico para a sociedade brasileira. Ao contrário, acredito que é exatamente essa a maior virtude do PT. O PT ainda é um partido em que a conjuntura tem impacto na sua disputa interna e isso o torna uma ferramenta importante de transformação. Aqueles militantes que tiveram na sede do partido no Rio de Janeiro, causando tanta indignação nos que se acham donos do partido, mostra que há vida no PT e esperança para a mudança de rumos. O PED será um importante momento para verificar se a forma monstro, que tanto medo causa aos poderes estabelecidos em nossa sociedade, continuará viva no PT.

* Rafael Chagas é ex-diretor da UNE e membro da Coordenação Estadual da DS-RJ. 

Veja também

Mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver | Geyse Silva, Ana Carolina Dartora, Moara Saboia, Márcia Fernandes e e Dandara Tonantzin

Militantes da Democracia Socialista relatam participação no Encontro Nacional de Mulheres Negras (ENMN) 30 anos, que aconteceu no último final de semana (6 a 9/12), em Goiânia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Comente com o Facebook