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Os falcões e Honduras, o colibri

É impossível escrever sobre Honduras sem comentar a cobertura (anti)jornalística feita por parte das empresas de comunicação no Brasil. A ditadura liderada por Micheletti desafia os acordos internacionais e a própria diplomacia, ao não acatar as resoluções da OEA e da ONU. Há três exemplos nas últimas semanas.

Dr. Rosinha *

É impossível escrever sobre Honduras sem comentar a cobertura (anti)jornalística feita por parte das empresas de comunicação no Brasil.

Três exemplos das últimas semanas: um comentarista classifica em rede de rádio o que aconteceu como “golpe democrático”; uma colunista de jornal mostra-se preocupada com o odor da embaixada brasileira; o entrevistado de um programa de TV nega o golpe e o chama de mero “excesso militar”.

As empresas de mídia não economizam críticas a Hugo Chávez. Estou cansado de ouvir críticas ao presidente da Venezuela pela sua reeleição e pelo fato de seu governo não renovar —sem entrar aqui neste mérito— algumas concessões públicas de rádios e TVs.

Curioso perceber que não se encontra em todo o noticiário crítica alguma à segunda reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia. Nem tampouco ao fato de emissoras de rádio hondurenhas terem sido fechadas pelo ditador golpista Roberto Micheletti. Trata-se do exercício da indignação seletiva.

Os críticos aos avanços de governos progressistas na América Latina tentam buscar culpados pela volta da Manuel Zelaya a seu país. Não condenam o golpe. Alegam que as eleições organizadas pelos golpistas significariam a volta da democracia.

Mas como classificar como “democrática” uma eleição realizada sob um regime autoritário?

Aos fatos. Há em Honduras um presidente autoritário e ilegítimo no cargo, que não foi reconhecido por nenhum país do mundo; um presidente legítimo dentro da embaixada brasileira; e a sede da embaixada sob cerco policial, o que fere as normas internacionais.

Zelaya foi preso pelo exército e expulso do país por propor, de forma simultânea às eleições do próximo mês de novembro, uma consulta popular para que os hondurenhos decidissem se queriam ou não uma assembleia que reformasse a Constituição.

O governo golpista —e não “de fato” ou “interino”, como erroneamente classificam alguns—, expõe todo o seu caráter autoritário ao reprimir manifestantes com violência e ao decretar, entre outras medidas, o toque de recolher, a censura, o fechamento dos meios de comunicação e a restrição às liberdades de circulação e de reunião.

A ditadura liderada por Micheletti desafia os acordos internacionais, como o Acordo de Viena, e a própria diplomacia, ao não acatar as resoluções da Organização dos Estados Americanos e do Conselho de Segurança da ONU.

Para sorte do continente, hoje há presidentes que se opõem aos golpes de Estado e defendem ativamente a democracia, como Lula. Do contrário, o caso de Honduras poderia dar início a mais uma sucessão de golpes. Afinal, países como Nicarágua, El Salvador e Paraguai, entre outros, vivem, em maior ou menor grau, um risco similar.

Vale observar ainda que, no início da década de 1980, foi instalada em Honduras a base militar norte-americana de Palmerola, uma das razões para a deposição de Zelaya. Após o prazo de “validade” do acordo que a construiu, o presidente deposto queria transformá-la em um aeroporto civil internacional.

Segundo Juan Almendares, em texto publicado pelo “Le Monde Diplomatique” (agosto de 2009), a base serviu de apoio aos ataques a Nicarágua (apoio aos Contras), El Salvador e Guatemala.

Dias antes do golpe, desembarcou em Honduras John Dimitri Negroponte, ex-assessor de Inteligência na Guerra do Vietnã e ex-embaixador dos EUA em Honduras na década de 1980. Negroponte se reuniu, entre outros, com magnatas da imprensa hondurenha; com o general Romeo Vásquez, que atuou em favor do golpe; com a cúpula das igrejas, católica e evangélica; e com Billy Joya Amendola, que nos anos 1980 foi fundador dos esquadrões da morte em Honduras. Atualmente, Billy Joya é assessor de Micheletti.

Ex-reitor da Universidade Autônoma de Honduras, Almendares escreve que o país “é um pequeno colibri cercado por falcões e vigiado pelo maior caçador do planeta”.

Mais uma vez o colibri se vê ameaçado, e terá que voar mais rápido que os falcões. Mas agora há quem o defenda.

* Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR). Conheça o site: www.drrosinha.com.br | twitter.com/DrRosinha

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