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“Os jovens entram no mercado de trabalho desempregados”, aponta sociólogo Anderson Campos em seminário da CUT-RS

A difícil realidade dos jovens no mercado de trabalho foi o assunto do seminário “Juventude e Trabalho no Brasil”, promovido pelo Coletivo de Juventude da CUT-RS e realizado na noite desta quinta-feira (19), no auditório do Sindipetro-RS, em Porto Alegre. A atividade teve como painelista o sociólogo, especialista em economia do trabalho e sindicalismo, do CESIT-Unicamp, Anderson Campos. “Os jovens entram no mercado de trabalho desempregados”, afirmou ao apresentar o contexto histórico estrutural e o padrão de inserção ocupacional e destacar as principais questões sindicais hoje.

O sociólogo explicou que devido à melhora da economia no período pré-crise, que apontava uma elevação na renda das famílias até 2013, aumentou a taxa de participação dos jovens no mercado de trabalho. A realidade de quem está inserido no mercado é caracterizada pelo desemprego, instabilidade por causa da alta rotatividade por ser uma mão de obra mais barata e há um índice muito grande de informalidade entre os jovens. “Não se permite construir trajetória. Os contratos de trabalho são mais frágeis. O salário fica entre um terço e metade da remuneração dos trabalhadores. E na maioria dos casos, as jornadas são inconciliáveis com educação”, enumerou Anderson.

Outro aspecto abordado pelo painelista foi que a origem econômica determina boa parte da trajetória do jovem no mercado de trabalho. “Quanto menor a renda familiar, mais cedo se começa a trabalhar, pois se trata de uma questão de sobrevivência coletiva”, ressaltou.

Jovens trabalhadoras

“Um recorte que precisamos ter é sobre a divisão sexual do trabalho, pois as mulheres jovens mais pobres se inserem mais no trabalho doméstico”, continuou.

Segundo ele, embora as mulheres apresentem uma escolaridade maior, elas recebem salários menores. “As jovens também são a maioria entre aqueles chamados nem-nem, que nem estudam e nem trabalham. Muitas delas terminam o ensino médio e ficam cuidando da casa para a família”, explicou.

Referente à juventude rural, Anderson contou que hoje temos no país 8 milhões de jovens no campo. Ou seja, em cada dois trabalhadores, um é jovem. “Neste cenário, são as mulheres jovens rurais que estão migrando com mais intensidade para os centros urbanos”, disse.

Movimento sindical

Anderson também é autor do livro “Juventude e Ação Sindical: crítica ao trabalho indecente”, publicado pela Editora Letra e Imagem, em 2010. Além disso, colaborou para a criação da política de juventude da CUT.

“O debate sobre juventude dentro dos sindicatos era muito superficial. Havia sindicatos que faziam festas “raves”; outros, campeonatos de vídeo game. Algumas categorias tinham pontos em suas convenções, como licença para provas e auxílio para estudantes. Mas não tinha noção do recorte da juventude no mercado de trabalho e havia dados alarmantes que justificavam a ausência dos jovens no movimento sindical”, lembrou.

De acordo com Anderson, o tema da juventude e o trabalho passa a ser debatido nos sindicatos e nos estados a partir do boom demográfico. “Até então, não se discutia capacitação para jovens, desocupação, fiscalização do estágio, nem a própria questão da juventude rural. Essa ausência de perspectiva sobre isso veio acompanhada de mobilização juvenil em diversos países”. O sociólogo citou como exemplo as manifestações sobre o passe livre e as atividades de sindicatos no campo que chegaram a reunir mais de 5 mil jovens.

“Apenas nos anos 2000, a CUT e os ramos passaram a ter coletivos e pastas específicas sobre o tema. Mas percebíamos que não poderia ser um setor, um sindicatinho dentro do sindicato. A juventude tinha que estar, de fato, dentro desses espaços e ter relações para fora, com os movimentos sociais e demais setores para pensar uma agenda mais ampla, que contemplasse a criação de uma política pública para a juventude”, disse.

Desafios

Anderson apontou quatros itens que ele considera desafios para o movimento sindical pensar a juventude e o mercado de trabalho: conciliação entre trabalho e estudo, igualdade de tratamento, participação e direito ao tempo livre.

“Precisamos discutir uma carga horária menor para os jovens, assim como defender contratos de trabalhos iguais, uma maior inserção da juventude nos espaços de representação e lutar para que tenhamos direito ao tempo livre. Porque hoje os jovens brasileiros não têm esse direito”, finalizou ele.

Próximo seminário será no dia 20 de novembro

A secretária de Juventude da CUT-RS, Letícia Raddatz, garantiu que ”foi um ótimo momento de formação sobre juventude, aberto a todas as faixas etárias, aonde pudemos aprender e debater sobre temas como a forma como os jovens se inserem no mercado de trabalho, suas motivações, anseios, dificuldades, tudo inserido na conjuntura atual”.

Para Letícia, é preciso parar de encarar esse debate na linha do conflito geracional. “O movimento sindical precisa compreender e incorporar essa diversidade que compõe a classe trabalhadora, da qual a juventude é parte importantíssima”, afirmou. Ela disse também que é fundamental a juventude e o movimento sindical continuarem debatendo esse assunto.

“Foi durante a conversa que foi provocado que a atividade tivesse uma continuidade. Diante disso, no dia 20 de novembro, será realizado um novo seminário com a presença do Anderson”, contou. Em breve, serão divulgadas mais informações.

O seminário contou com a participação da secretária de Formação da CUT-RS, Maria Helena Oliveira.

Fonte: CUT-RS

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