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Por que a refundação socialista do PT

Partido precisa reencontrar sua vocação socialista.

PAUL SINGER

O PT nasceu para ser completamente diferente dos partidos políticos, digamos, “comuns”, que preenchem nosso espectro político-eleitoral. Enquanto essas agremiações foram formadas somente para disputar e exercer o poder governamental, o PT surgiu como expressão política de um vasto conjunto de movimentos sociais, entidades de classe, correntes ideológicas para promover uma revolução social que encaminhasse a sociedade brasileira a um futuro socialista.

Obviamente, o PT não era e não é o único partido socialista entre nós, mas ele é o único que efetivamente representa a grande maioria das forças sociais cujas lutas constroem, a cada momento, os pressupostos políticos, sociais e econômicos de uma futura sociedade socialista.

Para compreender isso, é preciso recordar que, desde o fracasso indisfarçável de todas as tentativas de construir o socialismo a partir da conquista do poder de Estado e da concentração nele de todas as decisões sobre a economia e a sociedade, uma nova concepção de socialismo vem sendo forjada. É o que Chávez vem chamando de “socialismo do século XXI”. Ela enxerga a sociedade sem classes emergir de um sem-número de lutas, que inventam e instituem formas solidárias, cooperativas e igualitárias de organização econômica e social no meio de uma sociedade capitalista cada vez mais excludente.

Quando o PT foi fundado, a nova concepção de socialismo ainda não tinha vindo à luz, embora a crise dos socialismos “reais” já fosse patente. Mas o PT, de certa forma, a prenunciou, quando se recusou a aparelhar os movimentos sociais e entidades de classe para colocá-los a serviços de seus objetivos. Era o partido que se colocava a serviço das lutas dos trabalhadores, em suas diversas formas, e não o contrário. Agora, que o PT exerce, em aliança com outros partidos, o governo federal, está ficando claro que a contribuição deste à luta pelo socialismo não consiste em se apoderar do controle da economia, mas em apoiar as lutas das forças sociais contra a pobreza e a miséria, e viabilizar os empreendimentos comunitários, que resultam destas lutas e constituem as células de uma outra sociedade.

Resgatar a missão histórica
O relacionamento do PT com as lutas dos trabalhadores é que lhe confere originalidade, e esta está umbilicalmente ligada ao seu caráter socialista. A atuação do partido nos legislativos e executivos municipais, estaduais e federais deveria ter esse sentido e nenhum outro. Infelizmente, os fatos que vieram à tona, desde meados do ano passado, revelam um processo de degenerescência que vem desviando o PT de sua missão histórica. O uso e abuso de contribuições clandestinas às campanhas eleitorais, não só do próprio partido, mas também de partidos aliados, somado à extensa profissionalização da militância, revelam que a prática de muitos petistas visa apenas à conquista do poder governamental, do mesmo modo que os partidos que acima denominamos de “comuns”.

Refundar o PT significa restabelecer a ligação vital do partido com os sindicatos, as cooperativas e associações de trabalhadores, hoje comprometida pela insuficiente presença dos seus representantes nas instâncias de direção do partido e pela dependência cada vez maior, por parte do PT, do dinheiro fornecido por interesses estranhos, quando não opostos, às aspirações dos trabalhadores em luta.

Refundar o PT significa devolver o poder de decisão dentro do partido aos militantes de base, que, em sua maioria, representam essas lutas. E instituir no partido um regime financeiro controlado pelos petistas e dependente, predominantemente, de suas contribuições. Isso significa, inevitavelmente, restabelecer a vocação socialista do PT, sem a qual ele se tornará mais um partido eleitoreiro.

Paul Singer é membro do Diretório Nacional do PT, Secretário Nacional da Economia Solidária do Governo Federal e Professor Titular da FEA-USP.


 

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