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PT: A construção permanente da utopia

ARMINDO TREVISAN

Depois de tudo o que aconteceu, nos últimos meses, em nosso país: o caso Waldomiro Diniz, a CPI do Mensalão,.e demais fatos, acompanhados por novos escândalos, com destaque para os de tráfico de influências e Caixa Dois -.o que é possível dizer, caros amigos?

Prefiro, previamente, endossar duas declarações, uma atribuída ao Senador Aloizio Mercadante por Josias de Souza e inserida no seu blog da da Folha Online (12-12-2005): “erramos onde não podíamos, na ética”; outra, de um intelectual que sempre respeitei, Paul Singer: “Faço parte dos perplexos, dos frustrados e dos traídos”. (Zero Hora, 22-08-2005)

No entanto… eis-me aqui, nesta Plenária de porto Alegre!

Vim, basicamente, por duas razões.

A primeira: para atender a um convite de meu amigo de quase 40 anos, Tarso Genro, cuja trajetória pública nunca foi maculada por nenhuma atitude anti-ética. (Faço questão de estender esse elogio a outros amigos, como Olívio Dutra, Raul Pont, Miguel Rosseto, João Verle, Margarete Morais, Adão Villaverde, Marcelo Danéris).

A segunda razão: porque sou simpatizante do projeto político do PT. Em eleições recentes, cheguei a dar depoimentos na TV em favor de candidatos petistas do Rio Grande do Sul.

Haveria uma terceira razão: poder reflexionar com vocês sobre o que aconteceu (ou, pelo menos, parece ter acontecido).

Comecemos por um “dado”: nós, gaúchos, sempre estivemos convencidos de que nossos líderes locais e, por extensão, os do próprio Diretório Nacional, estavam blindados contra todo tipo de corrupção! Tínhamos certeza de que eles não se deixariam embriagar pelo poder! Mas, sinceramente, não imaginávamos (digo isso sem insolência) que o Sr. Presidente, provindo das classes mais humildes da população , que –ele próprio – amargou maus tratos nos cárceres da Ditadura, iria afastar-se de um comportamento humilde e consensual, prescindindo do aconselhamento e apoio de antigos companheiros de luta, por exemplo, dos líderes das Comunidades Eclesiais de Base. Pensávamos, principalmente, que a arrogância jamais rondaria o Palácio da Alvorada.

É certo que não devemos transformar nosso Presidente num bode expiatório! Afinal, quem, nas esferas do poder, em qualquer parte do mundo, seria capaz, hoje, de meditar sobre aquelas palavras: “Quem quer ser o maior, seja o menor. Eu vim para servir, e não para ser servido”? Os ungidos do poder, neste momento, preferem equiparar-se ao rei Luís XIV de França: “O Estado sou eu”.

Sabemos, por outro lado, que a Ética não é somente um aprendizado mental.  Ela pressupõe uma adesão íntima, pessoal, a algo que ultrapassa o indivíduo, que o situa frente a uma responsabilidade maior do que ele próprio. Digamos mais explicitamente: existem duas responsabilidades maiores do que a do indivíduo (em relação a si mesmo): a responsabilidade diante da sociedade e a responsabilidade diante do Criador.

Se vocês me objetam que existem pessoas agnósticas ou atéias, replico-lhes que, nesse caso, sobra  – para quem quer ser ético -a chance de assumir a questão de Albert Camus: “Como ser santo sem Deus?” Se, também, isso não serve, resta ao indivíduo outra solução, assumir a atitude  do filósofo Immanuel Kant, com os seus “imperativos categóricos”: “Devo fazer tal coisa como se meu modo de agir devesse tornar-se regra para todos os homens.” Sem tal adesão a algo maior do que o homem, o indivíduo – e, naturalmente, o grupo – não conseguem resistir ao egoísmo, à tendência, já denunciada por Marx, de converter os demais homens em instrumentos do próprio arbítrio e da própria cobiça. O indivíduo deixa-se fascinar pelos atrativos da ostentação e do status – ou dito mais rudemente–pelo charme indiscreto da burguesia, dinheiro grosso e vida licenciosa.

Isto posto, pergunto: não poderá esta Plenária acenar com uma esperança nova para o PT?

Penso que tal esperança deva consistir na retomada de um caminho iniciado 20 anos atrás. Ou seja: a nossa nova esperança é a possibilidade de o PT ser grande quando experimenta sua primeira derrota moral.

Como poderá ele superar tal trauma? É muito clara a tarefa que o aguarda: reassumir seu DNA. Dito diversamente: tornar a levantar a bandeira da Utopia!

Na minha opinião, foi o filósofo Martin Buber quem melhor definiu a Utopia ( Cf. O Socialismo Utópico. São Paulo, Editora Perspectiva, 1971):

a) as utopias, diz ele, “são quadros ou imagens, e indubitavelmente quadros de algo que não existe, que é apenas imaginário. Geralmente, costuma-se considerá-las (as utopias) quadros-fantasia, mas isso não basta para defini-las” (Ibid. p.17).

b)”É uma fantasia que não divaga, que não oscila de um lado para o outro (…) mas que se centraliza com firmeza tectônica em um elemento primordial e originário, o qual deverá ser elaborado por essa fantasia”.(p.17)

c) “E esse elemento primordial é um desejo. A imagem utópica é um quadro do que “deve ser”, e o que seu autor desejaria que viesse a ser.”

d) Tal desejo “se acha ligado a algo de super-pessoal que se comunica com a alma, mas que não se acha condicionado por ela. O que aqui predomina é o anseio pelo que é justo, anseio que se experimenta na visão religiosa ou filosófica como revelação ou idéia e que, por sua essência, não pode se realizar no indivíduo mas somente na comunidade humana”.(Ibid. p. 18)

e) “A visão daquilo que deve ser, muito embora às vezes pareça ser independente da vontade pessoal, não pode ser separada da atitude crítica em face da atual maneira de ser do mundo humano”. (Ibid. p. 18)

f) Em última análise: “O socialismo utópico luta pelo máximo de autonomia comunitária possível dentro de uma reestruturação da sociedade”. (Ibid. p.26).

Imagino que, a partir de tais pressupostos, o Partido dos Trabalhadores poderia  realizar um programa emergencial:

I. Antes de mais nada, salvaguardar a imagem de um outro Brasil, de um Brasil possível, não realizado mas realizável, com suficiente inteligência para não se excluir da Globalização, mas com suficiente sentido social para não se submeter às suas imposições desumanas de competição econômica, à revelia de quaisquer restrições de ordem social ou ética.

II. Desejar algo super-pessoal (como propõe Buber)  algo que não se confunda com um projeto de poder de um líder, nem com um projeto de poder de um grupo, acionando, além disso, um projeto de solidariedade e cidadania, de distribuição de renda, de ensino e cultura generalizados, de saúde bem administrada, de atenção prioritária em relação ao desemprego.

III. Manter, simultaneamente, uma atitude de permanente crítica, de crítica rigorosa, não feita de traições e vilanias a companheiros, nem de dilaceramentos espasmódicos entre correntes do mesmo Partido.
IV. Por fim, jamais deixar de consultar as bases! Voltar a elas, saber de seus anseios, não se fiando em mapas-de-viagem importados, ou em soluções de gurus que desconhecem  nossa verdadeira identidade, e  até debocham de nossas reais carências de nação, que se esforça por atingir a qualidade de vida desejável para uma nação decente.
Para concluir:

(…)“uma maior participação da sociedade economicamente produtiva e cultural na plasmação da vida pública não pode efetivar-se pela via que (…) leva os administradores a tomarem conta do poder (…) mas  pela via que leva o poder a tornar-se administração, na medida em que as condições gerais  e especiais o permitam”. ( BUBER, Martin. Ibid. p.200).

Se o Partido dos Trabalhadores não se interessar em defender tal posição (ou outra análoga, de igual preocupações sociais) declaro-me não simpatizante dele. Excluo-me de qualquer parceria. Desisto de apoiar, não só o PT, mas qualquer partido… Desisto, inclusive, de votar.

Espero que isso não venha a contecer. Nunca! Caso aconteça, direi, melancolicamente, com Machado de Assis¨“Não se come vento”! Frase que interpreto como uma advertência para não nos perdermos no mundo do verbalismo inconsequente e demagógico, no mundo do faz-de-conta das ideologias baratas, no mundo do verdadeiro “Golpismo”, que é  arruinar o que de melhor existe no povo brasileiro, sua boa-vontade e sua paciência (que beira a inércia), sua vontade de ser pacífico e trabalhador dentro da ordem e da solidariedade.

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