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“PT deve ser um meio para a transformação e não um fim em si mesmo”

refundam_sitepor Marco Weissheimer

Um dos idealizadores do Ato pela Refundação do PT, que será realizado dia 12 de setembro, em São Paulo, o economista Paul Singer defende que o partido deve ser um meio para a transformação social e não um fim em si mesmo. “Se uma vitória eleitoral não servir para transformar a sociedade, não adianta nada”, diz.

A TV Carta Maior transmitirá o ato ao vivo

O ato pela refundação do PT, que será realizado na segunda-feira (12), às 19h, na sede do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, deve reunir militantes históricos do partido, dispostos a superar a crise política atual e a reatar laços que foram perdidos neste processo. Laços com princípios programáticos, com pessoas que se afastaram e com práticas que foram atropeladas pelo pragmatismo que acompanhou o crescimento eleitoral do partido. Um dos idealizadores do ato,  juntamente com Paulo Skromov e Zilah Abramo, o economista Paul Singer conversou por telefone com a Carta Maior sobre os objetivos e significados do mesmo. Ele tem ligado para amigos e companheiros do partido, convidando para o ato, encontrando uma receptividade muito boa. Segundo Singer, um dos aspectos positivos da crise é que muita gente que estava afastada do PT está disposta a voltar e ajudar no trabalho de reconstrução do partido.

Ao falar sobre o significado do ato pela refundação, Singer observou que o PT sofreu uma série de transformações que caminham em um duplo sentido. Por um lado, tornou-se um partido eleitoralmente muito forte que acabou por eleger o presidente da República. Por outro, tornou-se um partido altamente profissionalizado, uma máquina eleitoral que passou a consumir muito dinheiro. “Agora descobrimos que esse dinheiro, muito provavelmente, veio de fontes suspeitas”, observou. A combinação desses fatores e outros decorrentes deles, segundo Singer, mergulho o PT em uma crise existencial. “Para superar essa crise, não se trata apenas de punir. O partido sofreu um processo de degeneração, de ruptura com seus objetivos e compromissos históricos. Por isso, a expressão ‘refundação’ me parece adequada para tentar superar esse quadro de crise. E o PED (Processo de Eleições Diretas) é um momento muito oportuno para isso”, defendeu.

O sentido da retomada
Para o economista, um encontro para discutir a proposta de refundação do partido pode servir também como um estímulo para que mais petistas participem do PED. “Os petistas mais sinceros estão chocados e o choque imobiliza. O PED, a campanha eleitoral e seus debates servem para que as pessoas superem esse estado de choque e comecem a se mobilizar outra vez”, assinalou. A idéia de refundação, segundo ele, significa mais do que simplesmente retomar os princípios históricos do partido (que, na sua avaliação, podem ser resumidos na idéia de socialismo). “Não dá para voltar no tempo. Tenho 73 anos e sei que não posso voltar aos 10. A idéia de retomada, agora, significa fazer a crítica necessária e reatualizar nossos objetivos tendo em vista o futuro. Uma das idéias que vou defender no ato de segunda é que precisamos refletir sobre como chegar ao socialismo, um debate que sempre foi muito vago e difuso no partido”.

Singer não tem uma fórmula pronta sobre esse caminho, mas adianta algumas idéias básicas. “Os protagonistas para a construção desse caminho não são nem o partido, nem o governo, mas sim o conjunto de movimentos sociais, organizações não-governamentais, igrejas e outras entidades da sociedade civil. Isso coloca, de imediato, a questão de qual deve ser relação entre essas organizações e o partido. Na minha avaliação, o partido deve ser o braço político desses movimentos que devem, inclusive, participar das instâncias de decisão do partido. Isso não precisa ocorrer formalmente, mas eles precisam ter representação na direção. O partido não pode ser comandado exclusivamente por seus dirigentes e parlamentares. Já vimos no que isso dá”. Para ele, o PT deve ser visto como um meio para a transformação social e não como um fim em si mesmo. “Se uma vitória eleitoral não servir para transformar a sociedade, não adianta nada”, resumiu.

Elaborar programas de luta
Essa concepção de partido, destacou ainda Singer, não é inédita. “No início, nós fomos isso. Eu fui membro do Diretório Nacional do PT, entre 1981 e 1985, e discutíamos exatamente essa questão. Foi para isso que construímos o PT. Nossas propostas eleitorais não eram propriamente programas de governo, mas sim programas de luta”. O tema do financiamento do partido também era tratado de outra forma, recordou. “No PT que aprendi a conhecer, somente com o dinheiro do Fundo Partidário, que hoje anda em torno de 48 milhões de reais, já se fazia muita coisa. A transformação do partido em uma poderosa máquina eleitoral veio junto com uma crescente fome por dinheiro. Essa é a prática dos partidos tradicionais no país e nascemos, entre outras coisas, para combatê-la. Não foi para alimentar essa fome que fundamos o PT”, concluiu, apontando o altíssimo custo que essa prática trouxe para a imagem do partido.

Sobre o processo eleitoral interno, Singer declarou-se “moderadamente otimista”. “Pelo menos aqui em São Paulo”, observou, “muitas pessoas que estavam afastadas do partido estão voltando”. “A crise está despertando esperança de que é possível construir algo diferente. Precisamos recuperar esses quadros importantes que se afastaram do partido”. O economista acredita que o PED vai resultar em um Diretório Nacional diferente. “No momento, o Campo Majoritário tem uma maioria absoluta e usa essa maioria quando precisa. Acredito que podemos mudar esse quadro. O ideal é que nenhuma força possa ter um predomínio tão grande sobre as outras. Isso acaba com a pluralidade e com a democracia interna”, assinalou. A situação vivida pelo PT hoje não é nova na história da esquerda, lembrou ainda Singer, recomendando a leitura do livro “Mapeando a esquerda européia”, de Perry Anderson e Patrick Camillier, que deve ser publicado em breve no Brasil.

Uma lembrança: o triste fim de Bettino Craxi
Neste livro publicado em 1994, os autores analisam várias experiências de partidos europeus, onde os erros e crises também não foram poucos. Singer lembrou o caso do líder do Partido Socialista italiano, Bettito Craxi, que, após chegar a direção do partido construiu uma maioria hegemônica e transformou a legenda socialista em uma poderosa máquina eleitoral. Craxi chegou à posição de primeiro-ministro até que, em 1993, foi obrigado a renunciar sob uma avalanche de denúncias de corrupção. O escândalo teve um preço trágico para os socialistas que não elegeram nenhum deputado após o caso da Operação Mãos Limpas. Para fugir da prisão, Craxi refugiou-se na Tunísia, onde morreu em janeiro de 2000. A lembrança justifica-se como um alerta para os custos da repetição dessa prática de transformar partidos de esquerda em máquinas eleitorais que passam a viver tendo em vista apenas a próxima disputa nas urnas.

É contra isso que a proposta de refundação quer se levantar e o ato do dia 12, em São Paulo, pretende reunir quem esteja disposto a fazer essa tentativa. “Só espero”, finalizou Singer, “que não seja uma reunião de retaliações”. “A hora não é de procurar culpados, mas sim de plasmar um futuro para o PT”.

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