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Suécia: quando uma estrela morta deixa de brilhar

765205Por Lucio Salas Oroño e Amílcar Salas Oroño, na Carta Maior

Os astrofísicos vulgarizam um conceito curioso: mesmo que uma estrela esteja “tecnicamente” morta, ela segue brilhando por um tempo ou, o que dá no mesmo para efeito da analogia que nos interessa, os observadores terrenos seguem percebendo seu brilho como se a estrela em questão estivesse vida. Até que um dia seu espaço fica escuro. Algo parecido com isso está ocorrendo com a Suécia. Os gravíssimos incidentes sociais iniciados há três semanas, e que se prolongam neste início de junho, terminaram por evidenciar o fim de uma ilusão: a de que o Estado de Bem-Estar e o ideal de uma sociedade igualitária e harmônica podia se sustentar no contexto da crescente introdução de políticas neoliberais.

Há comoção e espanto na Suécia e, mais ainda, no resto do mundo. O subproletariado residente nos subúrbios das cidades maiores – Boras, Malmoe, Lund, Linköping, Gotemburgo – e especialmente na capital, Estocolmo, expressa seu rechaço à marginalização na qual transcorre sua existência, a impotência que os afeta vivendo no Paraíso Perdido. Há anos estes jovens vinham expressando de maneira anárquica, individualmente ou em pequenos grupos, seu protesto ao constatar na própria carne os efeitos dos contínuos ajustes econômicos, que se manifestam em escolas de segunda classe, atenção médica deficiente, fechamento dos centros tradicionais onde se reuniram e desenvolviam sua sociabilidade.

A novidade é que agora se juntam nas ruas às centenas, durante as noites e, para se tornarem visíveis, colocam fogo nessas escolas que não educam, em restaurantes aos quais não têm acesso, em delegacias para onde são levados sob qualquer pretexto, em automóveis que não podem comprar. “O país está em chamas”, destaca o jornal sueco de maior tiragem. Um exagero: o incêndio se estende pelas periferias, mas não alcança os centros das cidades. Por enquanto.

Os incidentes começaram em Husby, um subúrbio com 12 mil habitantes, ao norte de Estocolmo. Husby é hoje um distrito operário sem operários, com uma população até 50 % desocupada, majoritariamente imigrante ou refugiada – na prática dá no mesmo – proveniente da Somália e Eritreia, do Magreb e da África Subsaariana, da Turquia, da Síria e do Afeganistão. Em Husby, os “cabecinhas negras” – como são chamados – chegam a ser até 80% dos vizinhos, dos alunos das escolas. E ocorreu que, em uma casa de Husby, um imigrante de 68 anos, com problemas mentais, pegou uma faca e ameaçou não se sabe quem, de dentro de sua casa. A polícia chegou e o “controlou”, com seis balaços de 9 milímetros. Pouco depois havia centenas de vizinhos protestando; a polícia os tratou como “macacos”, “ratos” e “cabecinhas negras” – algo habitual, e bateu com seus bastões naqueles que chegaram mais perto, incluindo mulheres e crianças. Logo começou a resposta dos “vândalos” sob a forma de pedras e do fogo que ainda não se apagou.

“Vândalos foi a classificação empregada pelo primeiro ministro Fredrik Reinfeldt, do Partido dos Moderados (que até algum tempo se denominava, mais honestamente, Partido da Direita). Reinfeldt já está há sete anos no governo, reduzindo subsídios ao bem-estar popular e baixando os impostos para os mais ricos. Ele conseguiu que a Suécia seja o país da OCDE onde ocorreu o maior crescimento da desigualdade. Como a polícia, apesar da brutalidade empregada, não podia controlar a rebelião, Reinfeldt chamou a formação de “guardas cívicas”. O lenço foi imediatamente recolhido pelos membros do ultradireitista Partido dos Democratas da Suécia, que com 5,3% dos votos ingressou pela primeira vez no parlamento em 2010.

Estes “democratas”, que se baseiam quase exclusivamente em um programa xenófobo e cresceram – segundo as últimas pesquisas – até 11% do eleitorado, proclamam a necessidade e “acabar com a imigração, o multiculturalismo e “demonstrar a eles (os “cabecinhas pretas”) quem manda aqui”. O presidente do partido, com seu traje elegante e seus óculos de marco, declarou que “a cidade é nossa. Vamos fazer o que a polícia não faz”. A polícia os deixou agir, emboscando “inimigos”, surrando-os, semeando o terror. Somente nos últimos dias, prendeu alguns destes neonazistas, aos quais até então vinha amparando.

É preciso esclarecer que nem toda a culpa é da direita. O giro neoliberal na Suécia começou no início dos anos 90 quando governavam os socialdemocratas, o partido que a partir dos anos 30 começou a construção do Estado de Bem-Estar, um modelo que na década de 70 chegou a ser o mais avançado do mundo; sim, do mundo. Por ocasião da morte – assassinato – de Olof Palme, começou um giro “realista” da socialdemocracia, que chegou a criar o lema de que “se é preciso fazer ajustes, é melhor que nós os façamos”. Neste momento, já tinham perdido a luta pelas ideias dominantes na sociedade e sucumbido ante a propaganda das organizações patronais e dos partidos burgueses – que assim se autodenominam na Suécia -, que apontavam o exemplo de como os quatro jovens do grupo ABBA ou o tenista Björn Borg tinham triunfado sem subsídios estatais, com seu próprio esforço individual.

Ainda sob governos socialdemocratas, se iniciou a retirada das regulações estatais, o corte de subsídios para a habitação, as creches infantis e o transporte. O sistema de impostos que incidia pesadamente sobre os ricos foi abrandado e começou a onda privatizadora. Arquivou-se a utopia igualitarista segundo a qual quem ganhasse mais só podia ter um salário quatro vezes maior do que quem ganhava menos, e o princípio de que a sociedade estava obrigada a garantir a todos os habitantes do país – nativos ou imigrantes – o acesso à habitação, à educação e à saúde. Pouco a pouco, quase todo o setor público foi sendo privatizado, tudo foi sendo transformado em negócio, o que valia a pena era consumir e a única lei verdadeiramente vigente passou a ser a lei do mercado. Razoavelmente, o eleitorado sueco decidiu há alguns anos que, pensando bem, para implementar semelhantes políticas os mais indicados não eram os socialdemocratas – que o faziam de modo envergonhado -, mas sim aqueles que defendiam isso desde sempre. Assim, chegou ao poder o Partido da Direita, hoje chamado de Moderado.

A Suécia, que desde a criação do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas – que combina PIB com expectativa de vida, nível de educação e outros indicadores sociais – havia encabeçado o ranking, começou a cair. Em 2012, passou a ocupar o 7º lugar, atrás de sociedades reconhecidamente desiguais, como Estados Unidos e Alemanha. Isso graças à permanência de alguns vestígios do velho Estado de Bem-Estar, como as longas licenças de maternidade – de mais de um ano – ou as aposentadorias gerais por idade. Mas se antes esses subsídios e as aposentadorias eram de valores parecidos, agora as diferenças entre eles reforçam a segmentação social.

Algo similar ocorre com a política para os refugiados, que formalmente se mantém – em 2012, entraram na Suécia nessa condição cerca de 40 mil pessoas -, mas que na prática é um aspecto onde se concentra e aparece a nova orientação governamental: os refugiados políticos, por exemplo, que eram verdadeiramente incorporados na sociedade por parte do estado (podemos dar testemunho disso), hoje são uma carga que se abandona em algo muito parecido com a palavra gueto, e constituem o objeto predileto de um racismo que ainda é minoritários, mas que a cada dia se mostra com mais desenvoltura.

A imagem da Suécia industrial, do aço, dos estaleiros, dos melhores e mais seguros veículos do mundo, é uma figura do passado. No ano passado, sem maiores protestos, deixaram de ser fabricados os veículos Saab, um símbolo sueco comparável aos Volvo. Hoje, a Suécia se distingue por seus desenvolvimentos na tecnologia eletrônica e comunicacional – que geram muito dinheiro, mas pouco emprego -, e tem a duvidosa honra de ser o primeiro exportador mundial per capita de armamento. É verdade que nunca foi um país socialista – como às vezes se diz sem fundamento na Argentina -, mas provavelmente os suecos tampouco desejavam sê-lo: o modelo do socialismo real, que tinham do outro lado do Báltico, não despertava desejos de emulação. Era um país capitalista, mas com um alto grau de regulação, onde os três setores da economia – estatal, privado e o social ou cooperativo – mantinham um equilíbrio que lhes permitiu constituir, na década de 1970, a sociedade mais justa e igualitária que os homens já construíram.

Tudo isso está perdido para sempre? É desejável que não, mas se não mudarem as receitas – e os cozinheiros -, o destino sueco pode seguir o rumo do primeiro Estado de Bem-Estar, o inglês, onde organizações de caridade devem dar de comer diariamente a meio milhão de pessoas para que não passem fome. Nos últimos dias a imprensa sueca recolheu depoimentos de diversos representantes de organizações de base que surgem nos subúrbios, entre elas a muito meritória Megafon. Daí provém a proposta de uma aliança entre o subproletariado dos subúrbios e o que restou das organizações dos trabalhadores, que devem se livrar das burocracias que funcionam como amarra para suas aspirações.

Talvez o fogo destes dias cumpra uma das tarefas que o fogo sempre teve: a de iluminar. E os suecos talvez possam reconhecer nessa luz o que tem de melhor: são trabalhadores, educados, pacíficos, em sua maioria não são xenófobos, têm a possibilidade de apelar a sua memória histórica para entender que as imposições do capitalismo (selvagem, neoliberal, financeiro ou seja lá como se queira chamá-lo) não são leis da natureza. Nós que somos moralmente devedores de sua generosidade de outrora, desejamos isso de todo o coração.

Enquanto isso, desse esse longínquo rincão do planeta, seria bom que prestássemos atenção ao que acontece a nossa volta: quando voltam a se escutar em nossa América os cantos de sereia do neoliberalismo, observemos a que situação de decadência essas doutrinas levaram países que, como a Suécia, foram modelos de sociedades igualitárias e estados benfeitores. Hoje já não é possível falar de modelos europeus, e os países de nosso continente que nos últimos anos escolheram um curso alternativo ao mundialmente hegemônico – Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil, Uruguai, Argentina -, mesmo com todas as suas diferenças, representam uma unidade conceitual importante: são governos e povos que querem acreditar em si mesmo, por que não, e crescer e distribuir o crescimento. A verdade é que nossos países estão meio sozinhos no mundo, mas a autoestima recuperada – sem isso não há nada – permitiu que ganhassem a última década para seus próprios interesses, para seus ideais – difusos e heterodoxos, se se quiser – de criar critérios de convivência com mais igualdade e com mais justiça.

(*) Lucio Salas Oroño (escritor) e Amílcar Salas Oroño (cientista político) (pai e filho, respectivamente, viveram na Suécia durante e por causa da última ditadura militar argentina).

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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