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Sul21 entrevista Raul Pont: ‘Os problemas que emergiram com o movimento de 68 não foram resolvidos até agora’

Há dois anos, em uma das caminhadas contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), pelo Centro Histórico de Porto Alegre, Raul Pont foi abordado por um homem que gritou: “comunista!”. Calmamente, ele olhou e respondeu: “E tu é capitalista. Ficamos no um a um? Qual o problema?”. Um dos fundadores do Partido Operário Comunista (POC), dissidência do Partido Comunista do Brasil (PCB), que serviria de semente para o Partidos dos Trabalhadores (PT), Raul acredita que o pensamento que ainda liga o que sua geração tentou construir no Brasil há 50 anos com o comunismo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) é disputa ideológica.

O ex-prefeito de Porto Alegre, ex-deputado constituinte e estadual é organizador de um livro de artigos recontando a história dos 50 anos do POC e seu lugar no contexto de 1968 – os doze meses que contiveram décadas de acontecimento no mundo todo. O livro foi lançado entre amigos, em maio, na capital gaúcha.

Raul é uma das testemunhas do que 1968 significou no Brasil. Líder estudantil dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), proibido de assumir um cargo público dentro da Petrobras, preso junto a outros 900 estudantes num Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, um dos fundadores de um movimento que representava a frustração de jovens militantes com a forma de organização dos partidos tradicionais. Ele recebeu o Sul21 em sua casa, no bairro Rio Branco, para falar o que ficou daquela época, cinco décadas depois:

Sul21: O ano de 1968 foi de muitas manifestações, movimentos se formando, em vários países do mundo simultaneamente. Ele foi diferente dos demais ou apenas ápice de um momento?

Raul Pont: Eu acho que, especificamente os acontecimentos do “maio francês”, tiveram pela dimensão, pela capacidade de mobilização, pelo envolvimento dos trabalhadores e depois dos sindicatos organizados, algo muito simbólico. É difícil de identificar qual foi a razão, o objeto que com tal força, tal simbolismo, se expandiu por outros lugares. Aí tem que se levar em conta a realidade e situação de cada país. Por exemplo, nós, no Brasil, estávamos numa ditadura. Qualquer movimento, qualquer mobilização de juventude, de rebeldia, de outra maneira de vida, já era um elemento que tinha um efeito de demonstração para que se reproduzisse. Em outro país, talvez isso não fosse tão forte. Tem que se levar em conta a situação. Agora, existiram alguns elementos [que tiveram] muita força. No caso europeu, era a situação vivida com a Guerra do Vietnã. Já há alguns anos as movimentações e mobilizações vinham ocorrendo denunciando a guerra. Na França, havia uma situação particular, porque o país ainda estava remoendo as suas culpas com a Argélia. O país das luzes, do iluminismo, da modernidade, mantinha uma relação colonial que constrangia a própria esquerda. A esquerda não teve um posicionamento, no início da década e criou mal-estar. Com o estado de bem-estar pós-Segunda Guerra Mundial, até início do século passado as universidades eram para formar uma elite, um número pequeno de pessoas que tocavam a administração pública, que eram os doutores, no Direito, na Medicina, nas Engenharias. Mas houve um salto. Não foi só lá, aqui no Brasil também tivemos isso. Houve um processo de massificação e a universidade deixou de ser instrumento elitista, ainda que comparado ao conjunto da população era uma minoria.

Sul21: Falando especificamente do Brasil, 1968 foi o ano que começou com a guerrilha do Araguaia se organizando, em janeiro, e terminou com o decreto do Ato Institucional n° 5, em dezembro.

Raul: No caso brasileiro, a questão do movimento estudantil ter absorvido muito a experiência da França, é que aqui a gente vivia uma situação particular. O golpe até teve apoio popular, não de maneira consciente e organizada, mas mobilizada pela Igreja e pela imprensa, na base do anticomunismo. Um dos grupos de resistência mais fortes vem da esquerda cristã, que era a Ação Popular, maioria na União Nacional dos Estudantes (UNE). Se por um momento teve apoio popular, esse apoio se desgastou, já em 1967. No Congresso da UNE de 1966, teve o MCD – Movimento Contra a Ditadura. A ditadura dizia que não era ditadura, que era só para impedir o comunismo e, em seguida, teria eleições. Ora, os partidos são fechados, a UNE é colocada junto com as Uniões Estaduais de Estudantes na ilegalidade, os sindicatos invadidos e silenciados. Começou a ficar escancarado que o país não estava caminhando para a democracia. Ao contrário, estávamos saindo dela. O governo de João Goulart, foi um governo democrático, que foi contestado ao assumir, porque o Jânio Quadros renunciou. O golpe não foi só dos militares, foi de uma direita que acabou também sendo vítima, em parte. O Carlos Lacerda, o Magalhães Pinto, que ajudaram o golpe serão barrados na sua tentativa, na expectativa de que em 1966 teria eleições de novo. A juventude começou a ter um apoio, o movimento estudantil foi o único organizado. Com o AI-2, a imposição da Arena e do MDB, o Congresso estava aberto, mas daquele jeito. Foram feitas cassações suficientes, para que o governo tivesse maioria nos estados. Esse processo é contestado pelos trabalhadores e pela juventude estudantil, até que em 1967, os Diretórios Centrais de Estudantes também foram proibidos de eleições.

Sul21: O senhor foi eleito nesta época, no DCE da UFRGS.

Raul: Eu entrei em 1964, no ano do golpe. Eu fiz dois anos de História, depois fui para Economia. Quando estava no segundo ano de curso é que teve esse problema do fechamento dos DCEs e proibição de que eles tivessem eleição direta. Eles poderiam existir, eleitos indiretamente pelo voto dos centros acadêmicos, que a reitoria tentava controlar. Em 1967, começamos a fazer eleições diretas para o DCE Livre. Eu fui eleito em 1968, pouco antes do AI-5, que foi o ano também da prisão de Ibiúna, onde 900 lideranças estudantis de todo o país foram presas no 30º Congresso da UNE.

Raul falou também sobre a importância da criação do POC. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21: Isso mostra a importância estudantil neste momento. Ela cresceu depois da instauração da ditadura? Como o senhor analisa?

Raul: A passeata dos Cem Mil, depois da morte do Edson Luís, estudante, no Rio de Janeiro, meio que significa uma virada de um setor amplo da classe média que começa a dizer ‘opa, isso aqui não é democracia, é ditadura’. É nesse contexto que nasce o Partido Operário Comunista (POC), em abril. Daí tu diz, ‘ah, mas então não foi consequência do maio francês’. Acho que um enfoque importante que tem que se ter, é que aqui já fazia dois ou três anos que tínhamos iniciado uma disputa dentro do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Da mesma forma, o PCdoB também teve uma dissidência, que questionava uma série de interpretações sobre História do Brasil, sobre o golpe de 1964 e a democracia interna dos partidos. Nós não tínhamos combinado nada com os franceses, nem eles sabiam o que estava acontecendo aqui. Agora, o movimento que vai para as ruas lá, tem um forte componente de crítica à esquerda tradicional francesa. De certa forma, a mobilização de 1968, é uma mobilização que vai arrastar a União dos Estudantes da França, mas não foram eles que iniciaram. O movimento teve início espontâneo, um caráter um pouco anárquico, como se via no movimento 22 de março, que era contra organização e partido. Se formaram centenas de comitês do dia para a noite, em Paris, que vai se esfumaçar logo. Mais ou menos como aconteceu com o Podemos da Espanha, o povo vai para a rua, acampa, toma conta da praça, e depois, no caso deles, virou partido, perdeu um pouco do seu charme, da sua espontaneidade, mas criou algo novo. Na França, e é isso que a gente quer colocar nessa questão do livro, é que neste momento, há um questionamento da juventude em relação aos partidos da esquerda tradicional. No nosso caso, o que questionávamos do Partido Comunista daqui? A burocracia, a falta de democracia interna, a ausência de uma visão que desse conta do conjunto de enfrentamentos que se vivia já na sociedade. Por exemplo, preocupações de racismo, feminismo, igualdade de gênero, não faziam parte da política. Eram coisas de foro íntimo.

Sul21: Na introdução do livro, diz que “o Brasil tinha pouca experiência na formação de consciência de classe”. Esse é o ano que isso muda?

Raul: É uma espécie de explosão, de rebeldia, mais do que de revolução. Por exemplo, na França, uma parte considerável da juventude do Partido Comunista sai e organiza outro partido. Isso não ocorre só no Partido Comunista mas também em outras correntes. Os socialistas também perdem gente. Aqui, no Brasil, esse fenômeno vai acontecer. No PCdoB, tem um grupo que sai e organiza a Ala Vermelha, nós organizamos o POC, no Rio de Janeiro surge o MR-8, em São Paulo a ALN (Aliança Libertadora Nacional). Eram alternativas diferenciadas, mas todas críticas a uma causa comum. Essa crítica é que eu digo que estava presente em vários países. Os partidos da Argentina sofrem rachas porque há um componente forte que é a Revolução Cubana. Para a América Latina ainda era a Revolução de 1959; a morte do Che Guevara, em 1967, também estava presente como algo mítico; a ideia de que era possível criar um, dois, quatro Vietnãs, desde que tivesse disposição, militância. Agora, tem figuras que se destacaram em 68, como Daniel Cohn-Benedict, que hoje diz que aquilo não serviu para nada. Ele hoje é um deputado do Partido Verde, nesta última eleição apoiou Emmanuel Macron, é um sujeito que mudou de linha. Ele dizer que 1968 não significa mais nada? Ele mudou, não o movimento, seu simbolismo, seu papel. Claro que dali não brotou algo unívoco, tranquilo, arrumadinho, ‘olha, aqui temos um novo caminho’.

Sul21: E a importância da criação do POC, neste contexto, no Brasil?

Raul: Nós éramos um grupo de estudantes, aqui em Porto Alegre, militávamos no Partido Comunista, vivemos o golpe e as explicações que a direção partidária nos dava sobre o golpe, de certa forma, responsabilizava um certo radicalismo do Leonel Brizola, o imperialismo. O que estava certo, os americanos montaram o golpe. Tu ia num centro acadêmico aqui, estava abarrotado de propaganda do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), do IPES (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais), tudo financiado pelas federações empresariais com dinheiro americano, fazendo propaganda. A nossa crítica era de que o partido não fazia nenhuma autocrítica de ter estado junto, ter sofrido junto o golpe e achar que estava tudo bem, que foi mais um percalço, que a culpa é dos outros, da direita, que não cometemos nenhum erro político. Então, segue o baile. A gente dizia que queria discutir, que tinha problema na linha política. Caricaturando um pouco, os teóricos do partido diziam que o governo Goulart era apoiado pela grande maioria da população, pelos militares nacionalistas, pela burguesia progressista, pela classe média universitária. Ia somando isso, era uma larga maioria. Só que, na hora do golpe, essa maioria estava do outro lado. Nós queríamos discutir isso e não encontrávamos democracia interna. Como era possível que um partido que luta pelo socialismo, que quer mudar as coisas, não ter nem democracia interna? Nós tínhamos que repetir o que dizia o secretário geral, o comitê central, sem debate?

Sul21: Num contexto de cerceamento, do AI-2 proibindo partidos, como vocês conseguiram se organizar?

Raul: Essa era a dificuldade (Risos). Fazer esse debate clandestinamente era muito difícil. Se organizar clandestinamente era mais difícil ainda. Por isso que essa experiência foi muito curta. Aí que eu faço um paralelo com 68, também muita coisa que não apareceu, não teve destaque na imprensa. A cobertura era a cara do Cohn-Benedict debochando da polícia, a espontaneidade das centenas de comitês do 22 de março, o Charles De Gaulle manda preparar as tropas francesas que estavam na Alemanha, para voltarem para França, e acabou a festa. Pouco tempo depois, tem eleições e De Gaulle sai vitorioso. A direita. Como aquela explosão [não se traduz]? Primeiro, ela não era uma explosão de todo o país, mas no seu interior, muita coisa que não apareceu, ficou como uma semente plantada. Que vai germinar, mas nem sempre esse germinar significa sucesso. No nosso caso, nós fizemos uma avaliação autocrítica, perguntando qual o caminho. O que nos restava era continuar organizados, procurando uma saída. Fizemos essa disputa interna por dois anos, como não participamos do 6º Congresso do partido, fomos expulsos e formamos um grupo, cuja base era a corrente universitária, secundarista, que o partido tinha em Porto Alegre. 90% na UFRGS, um pouco na PUCRS, alguns colégios secundaristas e contatos de pessoas que estavam fora da universidade e concordavam com a gente. Mas tudo clandestino, a gente não podia nem se conhecer, por questão de segurança. Cada um conhecia as pessoas que militavam naquela área, o resto era por um processo vertical de organização que ia diminuindo os contatos para proteção de todos. No Congresso de 1966 da UNE, que foi em Minas, que já foi duramente reprimido, se começou a ter contatos e ficar sabendo que tinham descontentes [em outros lugares do país].

“Fazer esse debate clandestinamente era muito difícil”, lembra o ex-prefeito. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21: O senhor esteve no Congresso? Já havia essa vigilância da polícia?

Raul: Eu estive em Valinhos, em 1967, lá ninguém foi preso, depois em Ibiúna, um ano depois, onde fui preso. Em Valinhos, como o número era menor, ele foi bem melhor organizado, a entrada para o mosteiro, em que saiu a reunião, foi mais tranquila, mais discreta, sem chamar a atenção, ao contrário do que foi 1968, que era no meio do mato, no interior do Ibiúna. Como vai colocar 900 delegados sem chamar a atenção? Como tu chega num lugar desses, com pequenas propriedades ao redor, com aqueles mochileiros, barbudos, cabeludos? Foi uma burrice. Para chegar lá, a gente tinha que passar por três ou quatro pontos, ninguém saía do seu lugar sabendo para onde ia. A gente saia de São Paulo, só no terceiro contato é que tu pegava uma condução que te levava para o lugar definitivo. Mas ao chegar lá, todo mundo se dava conta que aquilo era uma ratoeira. Se tivéssemos feito o Congresso na USP, na pior das hipóteses, não iam prender 900, iam ter que prender 10 mil, toda a universidade.

Sul21: Essa foi a primeira vez que foste preso?

Raul: Eu já tinha sido preso aqui, em Porto Alegre, em algumas manifestações, quando estava no DCE. Mas era sempre coisa de meia hora, três horas, um dia ou a noite na Brigada, na Praia de Belas, fazia um cartório frio e largava no dia seguinte. Com Ibiúna, já ficamos uma semana, dez dias, no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Fazia poucos meses que a gente tinha organizado o POC.

Sul21: Queria voltar a 1968 um pouco e a Ibiúna. Nesta época, o senhor ainda era do DCE da UFRGS. Como era ser líder estudantil no Brasil de 1968?

Raul: Era difícil. Eu tinha que trabalhar, quando voltei de Ibiúna, perdi o emprego. Eu era funcionário do IPE (Instituto de Previdência do RS), concursado, tinha entrado em 1967, fui bancário até 1966. Antes, fiz concurso para a Petrobras, fui aprovado, não me deixaram trabalhar, lá já tinha um cadastro de pessoas fichadas, “subversivas”. No primeiro dia de trabalho, fui dispensado para um cadastro de reserva. Eu fui para assumir, tinha feito todos os exames, me mostraram a sala que eu ia trabalhar, mandaram passar no departamento pessoal e lá disseram que eu ia ficar mais um mês ou dois num cadastro de reserva, porque houve um engano. Uma história pra inglês ver. Tinha um colega meu que passou no concurso nessa época também, ele foi trabalhar do departamento pessoal e me disse que pela minha ficha eles não iriam me chamar, que a barra lá era pesada, tinha um milico lá dentro que era o censor. O sindicato disse que poderia entrar na Justiça, mas que eu não iria ganhar, que iam me enquadrar na Lei de Segurança Nacional. Eu, com 20 e poucos anos, fui para outra. Em 1967 comecei a trabalhar no IPE, estudava de manhã, trabalhava à tarde e tinha que distribuir o tempo livre à noite para militância e para o basquete.

Sul21: Dentro da universidade também existia vigilância?

Raul: Era muito duro, né. A nossa ideia era que era impossível militar numa organização clandestina ou optar pela ação armada e, ao mesmo tempo, ser líder estudantil, presidente de entidade. Queríamos ampliar, chamar mais gente. Organizamos um movimento estudantil de fachada, que chamava Movimento Universidade Crítica, para não aparecer o nome de partido, porque era proibido. Esse, inclusive, era o processo que eu tive quando fui preso [pela Operação Bandeirantes]: tentativa de organização de partido proibido. Mas, na Constituição dizia que o Brasil era pluripartidário. Nossa ação era ir para os sindicatos, tentar de novo ter espaço.

Sul21: Conseguiram expandir para outros estados também?

Raul: Fomos 1968, 1969, quando começa uma discussão dura, de novo sobre a questão da luta armada. Quem estava fazendo sucesso, não éramos nós, era o MR-8, o sequestro do embaixador, o Carlos Lamarca com a VPR. Sabíamos da guerrilha no Araguaia, mas não tínhamos informação. Sabíamos que o PCdoB estava indo, que era outra linha, tinha um projeto de “guerra prolongada”, como os maoístas diziam na época. Era transferir gente, implantar pessoas socialmente na Amazônia, criar uma rede de apoio, era outro negócio de longo prazo. Nós éramos urbanos. Começou um debate no final de 1968, que era muito difícil fazer isso clandestinamente. Houve um racha na direção e um grupo menor voltou a se chamar política operária. O POC continuou com o nome e, na metade de 1970, começaram as prisões, o exílio.Por isso, muitos tiveram que sair daqui, como eu, o Flávio Koutzii, Marco Aurélio Garcia, um grupo grande de pessoas. Os quadros mais antigos, mais experientes, começaram a ter que sair. Eu fui para São Paulo, comecei a ter que trabalhar, continuava militando, mas trabalhando, tudo na clandestinidade. Dava aula num cursinho em São Bernardo do Campo, em outro na Praça da Sé, no Centro Histórico de São Paulo, morava no Ipiranga. E sobrevivendo. Fui preso em 1971. Houve uma nova leva de prisões no Rio Grande do Sul, em São Paulo, quem conseguia escapar ia para o exílio. Foram processadas aqui 24 ou 25 pessoas.

Sul21: Nessa prisão que lhe acusaram por tentar criar um partido proibido?

Raul: O crime era esse, mas eles queriam arrancar que iríamos fazer um assalto a banco, formar uma guerrilha, mas não existia nada disso. Não tinha prova, nenhum elemento, mas não adiantava. Não tinha habeas corpus, era prisão preventiva, como essa que o Sérgio Moro gosta bastante hoje em dia. Eu fiquei um ano e meio esperando julgamento. A gente chegou a denunciar que aquilo era uma farsa, que não tinha prova nenhuma, que as acusações foram tiradas sob tortura, portanto, não podiam valer. O juiz era um juiz togado da Segundo Auditoria Militar. A turma que saiu para o Chile, teve que sair de lá porque logo deu o golpe de 1973, que derrubou o Salvador Allende, na França, se encontra com quem? Com os de 1968. Se encontraram com quem tinha saído de um partido. Por isso que eu digo, não havia uma combinação, mas…O 1968 propriamente dito, ele é uma rebelião de juventude, que envolve questões de costumes, questões que a política não absorvia, como homossexualidade, racismo, liberdade sexual, liberdade das mulheres, igualdade de gênero. Mas, aparece também a maior greve que o país viveu depois de 30, 40 anos. Como uma coisa casa com a outra? Espontaneamente, as fábricas se tapam de vermelho, os trabalhadores param as fábricas, o país para, só que não tem ninguém preparado para ser governo. Não tem uma organização, uma identidade. O que mostra que existem problemas que não estão resolvidos, contradições que são muito fortes, que não serão resolvidas rapidamente. Eu sempre gosto de colocar essas grandes mobilizações, na Espanha em especial, onde mais aflorou esses movimentos de rua, a Primavera Árabe, elas não garantia de que vai sair dali um rumo certo, tranquilo. O Brasil em 2013, parecia que ia acabar o mundo, milhões nas ruas, um contra isso, outro contra aquilo, tinha de tudo, até o dedo da direita manipuladora. Mas esses movimentos não conseguem se manter por muito tempo. O maio de 68, um pouco foi isto.

Sul21: Que ecos o senhor vê dessa época hoje?

Raul: Os problemas que emergiram com o movimento de 68 não foram resolvidos até agora. Por isso que tem tanta força a atualidade de 68. Os problemas que essa juventude que estava insatisfeita com a Guerra da Argélia, com a Guerra do Vietnã, com a sua perspectiva profissional, com uma universidade ocupada por uma sociedade que aparentemente lhe dava tudo, mas às custas de um mundo colonial, de um silêncio sem liberdade para tratar sobre LGBT, racismo. Esses temas, passou meio século e a humanidade está vivendo de uma forma mais dura.

‘Quando tu te reconhece, essa cena, é a descoberta da política’. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21: Edgar Morin disse que levaríamos anos e anos para entender o que foi 68. Depois de 50 anos, é possível entender?

Raul: A leitura que eu faço, não foi só Cohn- Benedict. Ele foi uma expressão, mas não é a única. Essa experiência, como todos os outros movimentos anteriores, cria símbolos. Nem sempre os símbolos são capazes de traduzir todos os elementos e toda a complexidade de um período histórico. Eu reputo que o de mais importante aconteceu ali, mais até do que esses aspectos dos costumes, foi a contestação de um sistema partidário de representação que era furado. A URSS, ainda que tenha sobrevivido mais 20 anos, já não tinha mais o que oferecer como alternativa ao capitalismo para a Europa. Essa juventude quer liberdade, democracia, ação direta das pessoas. O que é isso se não uma crítica ao sistema representativo, que estava calcificado, burocratizado, que tinha deixado de representar as pessoas? Entre a denúncia e como colocar outra coisa melhor no lugar não é um passe de mágica. Nenhum movimento, por mais espontâneo e radical, é garantia de que isso vá acontecer. Não vale só para aquele momento, mas pra Espanha recente, etc. O Antônio Gramsci tem uma frase que dói, que ele diz: “nos momentos de crise, em que há um sistema social que vive uma crise profunda, e quem está contestando-o não está preparado ou não tem uma alternativa suficientemente enraizada para substituí-lo, este momento é o mais perigoso. Porque é aí que se soltam os monstros”. Aí que aparece o Michel Temer (MDB), o Berlusconi, o Trump, o Macri, as figuras travestidas de uma falsa saída. As pessoas, na ânsia de uma alternativa, acreditam. Foi aí que nasceu o fascismo, o nazismo. Ao contrário da Primavera de Praga, vamos ver que a Europa vai entrar num processo de profunda repressão, dez anos depois começando a política neoliberal. O problema permaneceu, os conflitos continuam presentes, em outra dimensão, outra forma. Mas, por enquanto, não tem alternativa. ‘Ah, mas 50 anos!’. É, 50 anos. As coisas não são lineares.

Sul21: Quando o senhor pensa em 1968, qual o momento que vem à memória?

Raul: (Suspira). Acho que foi… O que a gente estava enfrentando naquele momento era a luta da UNE. Ibiúna é o que sempre me vem à mente, num primeiro momento, porque, por um lado a gente se dava conta que tinha sido um equívoco, um erro, mas ao mesmo tempo tínhamos ali 900 pessoas. Dirigentes de centro acadêmicos, de DCEs, isso tem um significado. É aquela sensação de que o cara não está sozinho. Eu tinha uma colega da História, eu tinha voltado para Porto Alegre e estavam começando as grandes assembleias do CPERS (sindicato dos professores estaduais), por 1974, e fomos em uma delas, no Auditório Araújo Vianna. Ele ainda era aberto, estava chovendo uma chuvinha fina, tu entrava e dava com um colorido impressionante de sombrinhas e guarda-chuvas. Ela teve um impacto assim, quando olhou aquilo e disse: ‘mas todo esse povo aqui? Eu nunca pensei que o meu problema era igual a toda essa gente’. Quando tu te reconhece, essa cena, é a descoberta da política. Hoje é essa fragmentação, as pessoas não conseguem se achar, se identificar, os partidos em crise, cada vez que um cara diz na TV que os partidos políticos são culpados, mais um que diz que não vai se meter, que está fora. Só que daí não está dentro de nada.

Originalmente publicada em Sul21

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