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Um jornal para o socialismo democrático do século XXI

Por Juarez Guimarães

Introdução

Este pequeno texto é um contribuíção para a reflexão coletiva que estamos fazendo sobre a reconstrução de um jornal mensal da DS.Ele se compõe de seis partes:

1-            O jornal como organizador coletivo

2-            O jornal como elaborador coletivo

3-            O jornal e a identidade de mediação da DS ( Mensagem e PT)

4-            Um jornal socialista no tempo da internet

5-            Uma proposta editorial para o jornal da DS

6-            Um plano de metas, disciplina e rotina para a elaboração mensal do jornal

 

1-            O jornal como organizador coletivo

Em um pequeno livro recém editado, “Diálogos da perplexidade- Reflexões críticas sobre a mídia”, de Bernardo Kucinsky e Venício Lima, a teoria clássica de Lênin aparece para explicar a função política da mídia liberal. Isto é, ela agenda, hierarquiza, informa-forma e opina sobre os acontecimentos nacionais e internacionais, nas mais diferentes esferas da vida social, a partir de um ponto de vista liberal ou neoliberal.O fato é que não há nenhuma – rigorosamente falando- publicação que faça este trabalho do ponto de vista do socialismo democrático. A revista Teoria & Debate, de periodicidade bi-mensal, estaria mais próxima disso mas ela reflete o pluralismo petista atual, como deve ser, o que a leva a diluir uma perspectiva socialista democrática, além de não ter uma característica editorial de organizador coletivo, como foi definido.

O jornal da DS, feito em colaboração estreita com os companheiros da Mensagem, pode e deve cumprir este papel. Mas esta capacidade – a de criar uma capacidade de edição política e um círculo amplo de leitores – não é dada de partida : ela deve ser fruto de uma construção ao longo do tempo, que se alimenta da tradição da DS, inclusive do seu papel na história da imprensa alternativa, atingindo metas e acumulando possibilidades ao longo do tempo. Se conseguirmos elaborar um entendimento correto e um plano realista em dois ou três anos teremos um poderoso instrumento do socialismo democrático agindo, de forma permanente, no PT e junto às vanguardas amplas dos movimentos sociais, com ampla repercussão na esquerda latino-americana e internacional.

Não há aqui nenhum desenho irrealista: há hoje no Brasil um contexto muito favorável aos avanços em uma práxis da revolução democrática, em particular, se for confirmado, como parece provável, uma vitória possível nas eleições de 2010. Um jornal que reflita ideologicamente a práxis de uma ala esquerda deste amplo movimento histórico certamente será acolhido e se tornará referência.

Mas o sucesso de um tal projeto editorial depende de forma crucial de um diagnóstico: a cultura do socialismo democrático encontra-se aquém da experiência vivida, vem de um período depressivo dominado pelo neoliberalismo, está diluída no pragmatismo petista e é cotidianamente combatida pela mídia liberal. Assim, um jornal que pretenda representar esta tradição não deve pressupor que ela está formada, presentificada, valorizada, com seus circuitos organizados. Pelo contrário: ele próprio deve se candidatar a ser um dos meios centrais de reorganização desta cultura e deve, pois, da primeira à última página, declarar, discorrer, explicar, informar, valorizar as dimensões desta cultura na práxis.

Fala-se em práxis socialista democrática exatamente para evitar os riscos do doutrinarismo (uma teoria descolada da prática) e do pragmatismo (mais freqüente hoje, de uma prática descolada ou até em contradição com a teoria). Este é o maior desafio deste jornal: sempre o socialismo democrático – seus valores, suas tradições, seus personagens, seus horizontes e imaginações, seus programas, suas experiências exemplares,  até a reflexão sobre seus erros e limites- mas sempre de uma perspectiva da luta de classes. Isto é, atualizar para todos nós militantes uma totalidade de sentido entre a tradição e a utopia.

Esta identidade socialista democrática do jornal pode ser pensada  em função das temporalidades: o longo prazo, o médio prazo e a conjuntura. No longo prazo, pensamos nos séculos da nossa tradição, no médio prazo nas décadas de nossa atividade e na conjuntura no período da luta de classes em que estamos inseridos. A nossa identidade alcançou uma primeira grande sistematização na práxis de Marx e Engels, portanto, mais de 160 anos atrás; a própria DS tem hoje mais de trinta anos e o período da conjuntura é aquele iniciado com a vitória de Lula em 2002. Já se disse que quem não conhece o seu passado, perde o futuro: é preciso dizer também que quem não disputa o futuro, perde o seu passado. A crise da tradição do socialismo significa exatamente esta clivagem entre passado e futuro. Somos, portanto, clássicos e moderníssimos e o jornal tem que espelhar essa classicidade e este século XXI.

Duas séries permanentes poderiam dar conta desta identidade centenária: a formação, atualidade e perspectivas do socialismo democrático em uma narrativa internacional e uma brasileira.

As séries de médio prazo deveriam ser pautadas pela atualidade da revolução, que hoje conceituamos de democrática e das questões relativas à transição ao socialismo. De novo, ela pode se desdobrar em duas : uma narrativa internacional e outra brasileira/latino-americana.

O trabalho editorial de conjuntura deveria eleger, por exemplo, dez campanhas centrais a cada ano e tratá-las sistematicamente, influindo diretamente na formação da opinião do PT e das vanguardas dos movimentos sociais. Por exemplo: a reforma organizativa do PT, a luta pelo avanço participativo no plano federal e pela reforma política, a formação do eco-socialismo, a adoção de novos índices de produtividade agrária, o aprofundamento da unidade latino-americana, uma política pública de creches que apóiem publicamente as famílias trabalhadoras e contribua para evitar a dupla jornada das mulheres, a adoção do princípio da  soberania popular no comando do BC, a adoção da jornada de 40 horas, a adoção das cotas para negros, a reconstrução do SUS e uma meta central para a juventude. Estes temas não seriam necessariamente tratados todo mês mas sempre  de forma sistemática, lendo a conjuntura a partir deles.

Um editorial, produzido coletivamente, poderia a cada mês atualizar a conjuntura. Uma página de “arte e emancipação” poderia discorrer sobre cultura e formação de novas horizontes da emancipação.

2-            O jornal como elaborador coletivo

Uma tal concepção de jornal se relacionará criativamente com o esforço coletivo de formação de uma nova direção ampla da DS, através dos seminários.

Devemos ser radicais, no sentido gramsciano, neste campo. Para o marxista italiano, todos e todas são intelectuais no sentido que elaboram para a sua práxis, mesmo que restrita a um determinado território ou movimento social ou função de governo ou parlamentar. Seria um erro crasso pensar o jornal da DS como o lugar dos que escrevem ou elaboram, apartado dos que militam na prática. Quanto mais embebido, refletido, participado pela práxis dos militantes da DS, mais rico será o jornal. Aqui, o trabalho de edição é mais um trabalho de coordenação de edição, seguindo alguns padrões técnicos, do que propriamente uma especialização. A dimensão técnica do jornalismo deve estar firmemente ancorada na práxis política coletiva da tendência. Assim, a equipe que centraliza a edição do jornal, deve ter o seu enraizamento militante: a princípio, todo militante da DS é um redator potencial do jornal.

A edição do jornal deve ser compreendida como o exercício democrático de direção da tendência, colada à sua direção nacional. As prioridades da edição do jornal são as prioridades definidas pela coordenação nacional da tendência.

Entendida assim , a realização da edição do mês é um exercício mensal de elaboração da tendência DS, em sua identidade e pluralismo. Por ser uma atividade intelectual orgânica, ela deve dinamizar a inteligência coletiva da DS. Isto é, a passagem permanente da elaboração no centro para as fronteiras da militância da DS e vice-versa. Este trânsito permanente de idéias e práticas é certamente um ideal de aproximação de uma inteligência coletiva.

Esta inteligência coletiva, muito mais capaz do que a soma das diferentes partes, é pluralista (deve refletir vivamente as diferenças no interior da tendência), é internacionalista ( conta com apoios de colaboradores permanentes internacionais), é crítica ( reelabora de forma permanente a teoria através da prática e vice-versa, nada de prato feito, como dizia o velho Isaac Akcelrud).

A Coordenação Nacional da tendência é um centro permanente de elaboração, assim como os setoriais, os órgãos regionais e de base, os mandatos parlamentares e as lideranças de movimentos sociais. O jornal deve ser capaz de sintetizar estes processos de elaboração. Para temas e desafios identificados como se ressentindo de elaboração, podem ser formados grupos de trabalho ou ativos especialmente convocados para dinamizar a produção de dignósticos e propostas.

O ideal seria compor uma lista inicial de cem colaboradores potenciais, cobrindo as várias áreas de elaboração da tendência que podem ser acionados , mais ou menos sistematicamente. A edição pode comportar a opinião editada ( de 40 linhas, por exemplo) de cinco lideranças nacionais, regionais ou setoriais, respondendo a questões e articuladas com as edições.

3-            O jornal como identidade de mediação ( PT e Mensagem)

A identidade da DS é uma identidade de mediação com o PT em relação com a Mensagem. Isto tem duas conseqüências para o jornal.

A primeira delas é que a práxis do PT é sempre a referência (positiva ou crítica) das elaborações da DS. Nas áreas ou temas que o PT não tiver posição ou elaboração, e a tendência julgar essencial ter, a DS propõe para que o PT tenha. Nos temas polêmicos com posicionamentos oficiais do PT, a polêmica pode ser mesmo reproduzida no jornal. Além disso, a tendência não é um partido: a sua práxis não agenda ou hierarquiza na mesma abrangência, medida ou ordem do partido. Por exemplo: a luta pela reforma agrária está mais no centro da vida da tendência – a partir de sua responsabilidade no governo Lula- do que na vida do PT. As questões relativas a certos encaminhamentos parlamentares  estão mais na vida do PT do que na DS.

A DS faz parte da Mensagem e é um apoiador da sua construção. Seu jornal, portanto, não é concorrente ou alternativo ao esforço de construção da Mensagem. Por isto, o jornal deve se abrir, procurar , manifestar , elaborar junto o máximo possível com os companheiros da Mensagem, reproduzindo na edição a mesma relação de lealdade , confiança e companheirismo que estamos procurando criar.  Isto significa um enorme enriquecimento para o jornal da DS: de capacidades de elaboração e de círculos de leitores. Haverá situações em que podem haver defasagens ou até discrepâncias, em situações excepcionais, entre o posicionamento da Mensagem e o posicionamento da DS. Nestes casos, de forma construtiva, o jornal pode manifestar ou reproduzir estas defasagens ou até discrepâncias.

Também deveria haver uma lista inicial de, pelo menos, cinqüenta colaboradores potenciais da Mensagem.

 

4-            Um jornal socialista no tempo da Internet

Já há um consenso entre os estudiosos da mudança estrutural no plano da informação e da leitura após o surgimento da Internet. Este impacto será sempre e sempre cada vez maior.

 

Há aí dois erros a serem evitados. O primeiro é dar por extinta a forma impressa em função da mobilidade e da facilidade de acesso da Internet. O segundo é planejar a forma impressa como alternativa ou “em disputa” com a Internet. A posição mais justa é combinar as duas dimensões, sabendo que a leitura eletrônica ou virtual tenderá sempre a ser, e cada vez mais, majoritária.

 

Um jornal eletrônico ou impresso de oito ou doze páginas, como está se propondo, será lido se contiver conteúdo único ou singular e, ao mesmo tempo, necessário ou até imprescindível. Joga aqui um papel central, mais decisivo do que antigamente, a edição: a pauta, a escolha dos colaboradores, a titulação, o lead, a intertitulação, os olhos do artigo devem editorializar , do ponto de vista da cultura do socialismo democrático, fortemente o material. Porque há muita informação, muitos sites de leitura em tempo real, o leitor não criará uma disciplina de leitura se não sentir o conteúdo do jornal como absolutamente necessário à sua práxis. Organizar a informação, a partir do socialismo democrático, é essencial.

 

A periodicidade mensal do jornal é um outro desafio: por isto ele não pode ser um jornal colado ao evento mas de largas temporalidades e larga respiração editorial. O seu modo de colar na conjuntura é através da capa, editorializando a análise de conjuntura, através da incidência de suas “campanhas” de intervenção. Terá de saber compor o “quente frio” e o “frio quente”, na linguagem jornalística, na medida mesma desta cultura socialista democrática.

 

Um segredo da ampliação da leitura do jornal é sua relação ativa de simpatia, acompanhamento, associativa, com outros sites, além de DVDs, CDs, livros, jornais de esquerda, nacionais ou internacionais. Um jornal que dá dicas de leitura, que organiza as leituras de outros materiais será mais lido.

 

5-            Uma proposta editorial para o jornal da DS

 

Propomos que o jornal passe a ser, a partir de maio, de 12 páginas. Um jornal mensal, de tamanho tablóide, menor do que isso é certamente muito comprimido, muito pequeno, mais do que essencializado, restringido e reprimido em sua vocação editorial. Pode ser feito em 12 páginas virtual e , se for necessário, podendo ser impresso regionalmente apenas em oito apenas se o custo assim o exigir.

Uma proposta editorial poderia ser assim formulada:

 

Editorial(capa) e página 3- Análise mensal e atualizada de conjuntura pela coordenação nacional

 

Página 2: Temas da construção da DS e da Mensagem ( conquistas organizativas, adesões, principais fatos da luta de classe etc)

 

Página 4 : “Tema de campanha” número 1

 

Páginas 5,6,7 e 8 : As quatro séries de formação

 

Páginas 9 e 10 : Opiniões pautadas  “em campanhas” ou em polêmicas com liberais (4 ou 5 opiniões)

 

Página 11:  Tema “de campanha” número 2

 

Página 12: Arte e emancipação e dicas de leitura, sites , CDs ou DVDs

 

Daí viriam sete razões para ler o jornal:

 

1-            Porque traz sempre a melhor análise de conjuntura da luta de classes do país;

2-            Porque  é a publicação que traz sempre um importante material de formação do socialismo democrático ( no mundo e no Brasil, no longo e no médio prazo, como foi definido, incorporando sistematicamente o ecosocialismo e o feminismo)

3-            Porque é a publicação onde se pode ler sobre a vida e crescimento da DS e da Mensagem como ala esquerda do PT, da CUT e dos movimentos sociais

4-            Porque é a publicação que se pode ler, a cada mês, opiniões de lideranças importantes da DS e da Mensagem sobre temas, experiências polêmicas importantes

5-            Porque é a publicação que atualiza a práxis dos militantes sobre os eixos centrais de intervenção definidos

6-            Porque é a publicação que estabelece a identidade da esquerda do PT ao refletir sobre a sua prática a partir da cultura do socialismo democrático

7-            Porque é a publicação que incentiva a formação de uma cultura libertária

 

6-Um plano de metas, disciplina e rotina para a elaboração do jornal

 

O jornal da DS é uma construção no tempo , em que cada conquista, permite dar um passo adiante. Daí pensarmos três fases:

 

– Uma primeira fase de implantação do projeto, em torno de um ano, cujo objetivo deveria ser o de torná-lo visível para o público que almeja atingir, estabelecer uma qualidade e uma periodicidade que comecem a criar o hábito regular de sua leitura. O ideal seria fazer uma escala de lançamentos, a cada mês em um estado, combinando com a sua impressão e um debate público. Meta de público alvo: virtual e impresso de 10 mil leitores.

 

– Uma segunda fase de consolidação do projeto , de duração também de um ano, na qual o jornal procuraria passar para 16 páginas e atingir um público de 20 mil leitores.

 

– Uma terceira  fase de expansão, mantendo as 16 páginas mas combinando com outros formatos ( libretos , brochuras, ou quem, sabe, uma revista teórica) na qual procuraria atingir um público virtual e impresso de 30 mil leitores.

É fundamental, a partir da consolidação de um projeto editorial, escrever um documento, consolidando cada linha editorial, formando o arquivo de colaboradores, formando a rotina do jornal (uma discussão forte e com preparação de pauta) e seus prazos.

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