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Uma Era Perdida para o Futebol

O Brasil se despede mais uma vez de uma Copa do Mundo sem chegar as finais da competição. Até aí, sem problemas, já experimentamos esta situação anteriormente. A diferença é que das outras vezes vimos o futebol brasileiro entrar em campo, com elencos excelentes e outros nem tanto, mas ao menos com disposição e time formado. Na copa de 1990 fomos eliminados pela Argentina com o pior time da História do futebol brasileiro, mas nessa partida jogamos melhor, podíamos ter ganhado. Fomos eliminados, mas não demos vexame. Como se diz, caímos de pé.

Agora não. Não tivemos time, alma, preparo físico, técnico, liderança e não jogamos o futebol brasileiro. E isso tudo com um dos melhores elencos já disponíveis, numa copa composta por times medianos, inclusive os quatro times das semifinais: França, Itália, Alemanha e Portugal. Os três primeiros chegam na reta final por força da tradição aliada a muita disposição e Portugal em função de um time bem montado e preparado para este tipo de competição, destaque para o técnico Felipão, mais técnico e menos botinudo que no passado.

A atual geração da seleção brasileira tem origem como concepção, no time campeão de 1994, comandada por Parreira. Cafu e Ronaldo eram reservas naquela Copa, cujo símbolo foi o capitão Dunga. Junto com esses se juntaram Rivaldo, Roberto Carlos e Emerson. Essa foi a base da seleção de 1998 (Emerson no banco), 2002 (acrescida de Ronaldinho e sem Dunga e Emerson,esse por contusão ) e 2006 ( acrescida de Kaká e Robinho no banco ). A referência a 1994 se deve ao fato de termos sido campeões “jogando feio“ depois de 24 anos sem um título mundial. Começou ali a discussão distorcida acerca do Futebol de Resultados, começava a era Dunga. Porém, o time de 1994, mesmo com as suas limitações no meio de campo, tinha um poderoso ataque no auge da forma física, Romário e Bebeto, uma dupla de área das melhores da História do nosso futebol, Aldair e Marcio Santos, e principalmente dois excelentes laterais, Jorginho e Leonardo, e depois Branco que entrou no lugar de Leonardo em função de sua expulsão contra os EUA. Fomos campeões nesta Copa, mas passamos um sufoco contra a Holanda (3×2), por sinal um partidaço. Na semifinal contra a Suécia (1×0), outro jogo duro, e ganhamos a final da Itália nos pênaltis.

Três Copas sem Charme

Nesse período, das Copas de 1998 a 2006, não apareceu nenhuma novidade tática apresentada por qualquer seleção. A exceção do francês Zidane, nenhum outro craque de fato surgiu. A expressão craque são para jogadores do porte de Pelé, Zico, Platini, Cruyff, Beckenbauer e Maradona como exemplos. Portanto seria razoável que nas últimas três copas do mundo, o Brasil apresentasse um jogo que recuperasse a mística do nosso futebol, enterrada desde 1982 com aquele timaço das estrelas do Telê: Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Eder, Júnior e Leandro. Por que isso era possível? A principal debilidade das antigas seleções brasileiras fora superada desde 1994: a dupla de zaga nas bolas aéreas.A maioria dos jogadores brasileiros passou a atuar no futebol Europeu, logo já acostumados com o futebol viril e de “chuveirinho”. Pela mediocridade dos adversários (exceção ao time Francês de 1998) e pelo talento dos nossos jogadores. Mas não foi o que aconteceu. Prevaleceu uma mentalidade européia na forma de jogar das nossas seleções, como se jogar bonito fosse sinônimo de fracasso. A imensa maioria dos treinadores, inclusive Felipão, compraram essa idéia: time competitivo não tem que ter futebol vistoso.

Esquece que fomos campeões mundiais em 1958, 1962 e em 1970, dando show, encantando a platéia e entrando para a História como as melhores seleções de todos os tempos. Em 1958 empatamos apenas uma partida em 0x0 com a Inglaterra, aí entrou Pelé e Garrincha e ganhamos os demais jogos. Em 1962 também só empatamos uma, com a Thecoslováquia, onde Pelé teve uma distensão na coxa e foi substituído por Amarildo (Botafogo), até o final da Copa. Em 1970 ganhamos tudo. Antes dessas seleções outros times encantaram o mundo com o futebol apresentado. A Hungria de 1954 e o Brasil de 1950, cuja base era o Expressinho do Vasco da Gama. Foram aclamados pela crítica, mas não foram campeões. Tudo bem, não se esqueçam que a Zebra faz parte deste esporte.

Mas os adeptos do futebol de resultados dizem: mas a partir de 1974 quando começou a era do Futebol total, tudo mudou. Balela! O que mudou foi à movimentação em campo, um futebol mais rápido envolvendo o conjunto da equipe, o tipo de preparação física para essa movimentação. Mas não a importância da qualidade dos jogadores. Nem mesmo a idéia de que eficiência seja necessariamente um jogo feio. Tanto é verdade que o time que introduziu esse conceito, o Carrossel Holandês, era formado por excelentes jogadores: Cruyff, Rensenbrink, Neeskens, Van Hanegem. Mesmo esse grande time que inovou, perdeu o título. Mas entrou para a História. E perdeu porque? Porque na final enfrentou o melhor time da Alemanha em copas do mundo, com: Beckenbauer, Breitner, Overath, Muller, Vogts. Para derrubar de vez essa esquizofrenia que domina nossos técnicos e estrategistas, vamos pegar o exemplo de times brasileiros que fizeram escola nessa fase do futebol total. Não vamos usar o exemplo do Santos da década de 60, pois irão argumentar que aquilo era a velha escola. Mas o time do Flamengo da década de 80 e o São Paulo da década de 90 ganharam tudo. E não foi só no Brasil. Foram campeões mundiais de clube e faturaram vários torneios internacionais em cima das grandes equipes européias, jogando um futebol de primeira qualidade, com a nossa cara. Demonstraram em seus tempos que é da qualidade que se origina a competitividade de uma grande equipe.

Mas o que prevaleceu foi uma outra idéia, e qual o resultado?

Em 1998 passamos na semifinal pela Holanda nos pênaltis, e na final com a França o Brasil tremeu, e seu melhor jogador, considerado o melhor do mundo, teve “dor de barriga”, não agüentou o tranco e protagonizou um episódio que até hoje não foi explicado. Em 2002 fomos campeões, tá bom, mas ali também não apresentamos um futebol com a nossa cara. Mas era um time.Um time treinado e preparado para aquela copa. Com o dedo do técnico, mais uma vez destaque para o Felipão. Mas se recuperarmos os jogos do Brasil, veremos que passamos raspando pela Bélgica (que teve um gol anulado que até hoje não sabemos o motivo), fizemos uma semifinal duríssima com a Turquia, isso mesmo… a Turquia, e ganhamos na final daquele time decadente alemão. E deu. Não nos esqueçamos que a Coréia do Sul ficou em quarto lugar nessa Copa.

Na copa atual foi um total desastre. Chegamos como franco favorito e com perspectiva de apresentar ao mundo o nosso futebol, elegante e competitivo. Não fomos campeões, não chegamos a final, o time titular não fez nenhuma apresentação decente, nossos craques foram um fiasco: Ronaldinho, Ronaldo e Kaká. Não se apresentaram, deixaram de trazer o jogo para si, não tiveram atitude à altura do potencial do futebol que tem e dos salários milionários que recebem. Se junta a esses os veteranos Cafu, Roberto Carlos e Emerson. Um total desastre. Esses três e mais Ronaldo se despedem da seleção, mas o fazem pela porta dos fundos. A despeito de o Fenômeno ter quebrado a marca de maior goleador em Copas, será lembrado também pela fraqueza emocional de 1998 e pela gordura de 2006.

Principais Problemas da Atual Seleção

1- O Poder do Capital e os Nossos Laterais:

Não somos ingênuos a ponto de imaginar que os grandes empresários e patrocinadores desse esporte não interferem numa Copa do Mundo. É nesse espaço que se realizam os grandes negócios, contratações e renovações de jogadores além de contratos milionários com os grandes times e seleções. Até aí tudo bem. Mas quando esse poder interfere na escalação de um time, começa a bagunça. É nessa hora que tem de aparecer o comando da equipe. Mas quando o comando está comprometido com a indústria do futebol, fica muito difícil. Não me parece que o Sr Ricardo Teixeira, Presidente da CBF, seja uma pessoa imune a este tipo de influência, tão pouco o técnico Parreira. Como não convocar, ou ao menos substituir, dois laterais vinculados a empresários amigos e garotos de propaganda das maiores empresas financiadoras da Copa. Mesmo quando o mundo inteiro viu as atuações pífias desses em seus clubes europeus na última temporada. Cafu virou reserva no Milan e veio de recente contusão. Roberto Carlos é um poste no Real Madri, vaiado a cada jogo pela torcida. É papo furado essa história da experiência acumulada por esses jogadores. É o velho e maldito capital.

A grande diferença do futebol brasileiro em relação ao europeu, além do talento de grandes jogadores nossos de meia e ataque, foi o nosso poder de jogo pelas laterais.Esse poder dos laterais é o que garante uma boa saída de bola e a presença do homem surpresa no ataque pelas pontas, nossa maior debilidade nos jogos contra Gana e França. Jogamos assim desde a Copa de 1950. O segredo para tanto foi à qualidade desses jogadores. Pela direita: Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Nelinho, Leandro e Jorginho. Pela esquerda: Newton Santos, Marinho Chagas, Junior, Branco e Leonardo. Só tem fera. Foram os melhores em suas épocas. Mesmo outros laterais menos talentosos do que esses (Zé Maria ,Toninho, Everaldo e Rodrigues Neto), foram muito superiores em relação a atual dupla da seleção. Roberto Carlos e Cafu são o que de pior já tivemos. O primeiro nunca foi jogador de chegar a linha de fundo,o segundo chegava, mas não acertava nenhum cruzamento. Pior que jogaram juntos, ao mesmo tempo.Se ao menos um jogasse com o Capitão do Tri (Carlos Roberto Torres) pela direita e o outro com a Enciclopédia (Newton Santos, de quem o marxista italiano Lívio Maitan era fã confesso) pela esquerda, a História pudesse ser outra. A cena do gol da França onde Roberto Carlos aparece agachado enquanto o atacante francês se apresenta na área para marcar o gol, é digna de despedida da seleção, como já dito, pela porta dos fundos.

2- A Soberba:

Tínhamos um grande elenco, onde o principal problema eram os laterais titulares. Apostou-se muito na categoria de alguns jogadores, em particular nos Ronaldos e Kaká. Mas a idéia de intocáveis, matou a possibilidade de enquadrá-los num ambiente de equipe. O que se viu foi a turma dos “craques” unida aos “experientes”, achando que uma apresentação a meio-pau bastaria para faturar a Copa. Todos tremeriam diante do nosso time de medalhões. Faltou combinar com os franceses.

A maior parte desses não jogaram a Copa das Confederações, onde o Brasil deu show ( os laterais é claro que eram outros). Não fizeram amistosos com nenhum time de primeira linha. Qual a concentração para essa copa de jogadores como os Ronaldos e o Kaká que não pararam de fazer comerciais? Os números de Ronaldinho Gaúcho são impressionantes: mais de 20 comerciais no último período, envolvendo viagens em vários continentes. Junte-se a isso a imagem de melhor do mundo de Ronaldinho Gaúcho, a aposta em Kaká de ser o nome da Copa, o recorde de gols a ser quebrado por Ronaldo, além deste se igualar a Pelé, junto com Cafu, a serem os únicos jogadores com três títulos mundiais, mesmo que Ronaldo não tenha entrado em campo em 1994. Tem que dá errado. E já começavam a comparar o Ronaldinho com Pelé…calma lá. Se este resolver levar o futebol a sério, sem perder a alegria, poderá ainda no futuro vir a ser comparado com Rivelino, Zico, Falcão ou Sócrates. Esses sim, craques, que jogavam de forma elegante, porém objetiva, sem papagaiada. Dedicaram-se ao extremo ao futebol, eram razão e muita paixão. Características não só dos nossos verdadeiros craques. Uma das imagens mais belas de se entregar com tudo para conquistar uma vitória, foi a do alemão Beckenbauer na semifinal com a Itália na Copa de 1970, que deslocou a clavícula, mas não saiu da batalha, jogou até o final com o braço enfaixado. Perdeu o jogo, mas saiu consagrado.

3- O Técnico:

Parreira como técnico foi um bom preparador físico no passado. Não mais do que isso. Da época que apareceu para o futebol, em pleno regime militar, guardou algumas características: a submissão e o medo. Sempre foi conhecido como um técnico sem voz de comando, aquele que quando o time precisa de incentivo no intervalo do jogo, não sabe o que falar para os jogadores. Na preparação da seleção e durante a Copa, demonstrou toda a sua incapacidade para ocupar a posição, em particular na falta de iniciativa para mexer no time.

Montou por acaso um time para a Copa das Federações, já que os titulares Ronaldo, Cafu e Roberto Carlos, pediram dispensa da seleção neste torneio. O time, com dois laterais em forma ( Cicinho e Gilberto ), um atacante de área ( Adriano ) com outro jogando solto pelas pontas ( Robinho ) e dois meias avançados ( Ronaldinho e Kaká ), cresceu na competição e fez dois partidaços contra a Alemanha e Argentina. O Brasil ganhou dessas duas seleções e foi campeão do torneio. Foi campeão dando show de bola. Pois é, esse time nunca mais treinou junto, e só jogou contra o Japão, com Ronaldo no lugar de Adriano.

No início da Copa não teve força para barrar os laterais, mas teve dois jogos sofríveis, contra a Austrália e Croácia. A única mudança era o aproveitamento do Robinho no final das partidas, e mesmo assim o endiabrado atacante fazia a diferença, provando nesses dois jogos, que o ataque pesadão do Brasil precisava de mobilidade. Já estava claro ali que mudanças teriam de ser feitas.Várias seleções campeãs do mundo fizeram ajustes ao longo da competição.Um caso simbólico foi à seleção de 1958, onde Pelé e Garrincha acabaram barrando outros craques, Dida e Joel, na terceira partida do Brasil contra a URSS.
Mas surge uma esperança.Eis que de repente, surge a mudança.No jogo contra o Japão onde nós já estávamos classificados, Parreira surpreende escalando o time vitorioso na Copa das Confederações da Alemanha.Foi o único jogo que mostramos futebol.Ganhamos fácil e jogamos bonito.Ali se provou que os laterais deviam ser mudados e um dos dois atacantes, Ronaldo ou Adriano, deveria sair.Pois bem, contra Gana, já nas eliminatórias, Parreira volta com o time original.Ali acabou.Acabou por ter rachado o elenco.Os jovens que comprovaram em campo que deviam ser escalados foram preteridos sem nenhuma explicação convincente.Estava firmadas a força dos medalhões e a fraqueza do treinador. A continuidade do drama já sabe.Passamos por Gana no sufoco.Contra a França, Parreira escala Juninho Pernambucano, sem ter feito sequer um treino com a nova formação.Resultado: não entramos em campo contra a França.Disso essa geração entende.Tremer ao ouvir o Hino Francês e deixar o espírito fugir de campo.Fizeram isso em 1998.Não deu para torcer nas duas ocasiões.Viramos fregueses.

Estamos fora e não faço a menor idéia de quem será campeão, só que mais um time Europeu levantará a taça jogando um futebol de meia tigela.Deixamos de levar mais uma. Volto ao que me interessa, torcer pelo Mengão na final da Copa do Brasil.O futebol deste time do Flamengo não é lá essas coisas, mas tem raça.

Rio de Janeiro, 4 de julho de 2006 ( antes do jogo entre Alemanha e Itália )

Leia a segunda parte deste artigo: Seleção Brasileira dos Injustiçados [Link Indisponível]

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