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Zeca, nós ganhamos | Guilherme Cassel

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José Carlos Moraes (Zeca Moraes), Secretário de Desenvolvimento Econômico e Assuntos Internacionais no Governo Olívio Dutra (1999-2002), falecido em 2009.

Zeca, meu amigo e camarada,

já noto teu sorriso atravessado, carregado de ironia, perguntando o que faz um ateu escrever para um amigo que já foi embora há algum tempo. Sei lá, é minha resposta; e sei que ela é um tanto condescendente. Volta e meia os rigores da minha razão acabam perdendo a queda de braço para a melancolia da alma, então me dou o direito de cruzar tempos e espaços. Faz bem, te garanto.

O motivo maior dessa conversa é te contar que ganhamos. Ganhamos a batalha da Ford, aquele duríssimo confronto em que tu foste o nosso comandante e o maior dos atingidos. Depois de dezesseis anos, a poderosa Ford fez um acordo na justiça com o governo gaúcho e foi obrigada a desembolsar R$ 216 milhões, como forma de indenizar o Estado pelos prejuízos que causou quando decidiu não se instalar mais no RS. E foi muito pouco, poderia ser bem mais se o atual governo do PMDB não estivesse tão desesperado para colocar algum dinheiro no caixa. Sim, Zeca, podes acreditar e nada de espanto porque os tempos são outros: o governo atual que propôs o acordo na justiça é do PMDB, o mesmo PMDB que à época era contra a ação judicial proposta pelo Governo Olívio. Eles continuam firmes e operativos, querendo privatizar tudo o que encontram pela frente e seguem acenando com benefícios fiscais para deus e o diabo, mas essa é outra conversa.

Mais sobre a Ford: com o passar dos anos ficou claro que a saída deles para a Bahia não teve nada a ver com as exigências do nosso governo para que se instalassem aqui. Tudo foi um jogo de cena, orquestrado pela turma do Britto e do FHC, para inviabilizar o governo do PT no RS. Lembra dos executivos da Ford, arrogantes e poderosos, que sentavam à mesa e se mostravam irredutíveis? Pois é, foram todos demitidos pela empresa por terem causado prejuízos financeiros relevantes ao se envolverem num jogo político indecente. Nada como um dia depois do outro.

É claro, meu amigo, que a notícia da nossa vitória não ganhou o destaque merecido, nem sequer a história toda foi recontada como merecia. A grande imprensa gaudéria só cumpriu a tabela, como de costume. Aqueles jornalistas que te massacraram durante anos, produzindo as feridas que talvez tenham te roubado a vida, agora se portaram como sóbrios e discretos profissionais. Deram a notícia, lembraram que a ação era de iniciativa do nosso governo, saudaram a entrada do recurso no caixa do Estado e viraram a página. Nenhuma autocrítica e nenhum pedido de desculpas. O Olívio deu uma bela entrevista no Correio do Povo e lamentou a tua ausência para comemorar o resultado da ação. Aliás, a gente nem comemorou como devia, com muito chope, pois não tínhamos como conviver com a tua ausência na cabeceira da mesa.

O tempo vai passando, Zeca, e o distanciamento aos poucos vai mostrando com maior clareza as virtudes do que fizemos e os erros que cometemos. Lembras que o Governo Olívio era atacado, inclusive dentro do PT, por ser conflitivo demais, incapaz de propor alianças estáveis com outras forças políticas e sociais? Pois é, hoje parece claro que a grande maioria das nossas batalhas eram mais do que justas; eram necessárias, pelo menos para que a história as registrasse e elas ficassem como lições para o futuro. E quanto às tais alianças para a governabilidade, os fatos recentes têm demonstrado que elas não possuem serventia alguma, nem para o PT, nem para os trabalhadores e, menos ainda, para a democracia brasileira.

No mais, tudo está fora do lugar por aqui. O Brasil virou uma esculhambação , o RS afundou, a Dilma caiu, o PT se perdeu. Vivemos um tempo de recessão, desemprego, perda de renda e de direitos. Barra pesada. Mas tem coisas boas que seguem dando sentido à luta da gente. O Olívio, por exemplo, segue andando de ônibus pela cidade, defendendo o Orçamento Participativo em tudo quanto é canto e sendo tratado como um “político ultrapassado” pelos analistas políticos de plantão. Isso mesmo: como sempre, eles consideram ultrapassado ter uma conduta ética irrepreensível e travar a luta política com coerência e radicalidade. Azar o deles. A gente sabe que são exemplos assim que semeiam o futuro.

Voltando ao início, tudo isso era só para te dizer que GANHAMOS. Demorou, mas ganhamos. Ainda vai levar um bom tempo para que a população gaúcha possa conhecer toda a trama e os detalhes sórdidos da operação política que tirou a Ford do Rio Grande do Sul e a levou para Bahia, mas, agora, é questão de tempo apenas. Um a um, os fatos vão começar a aparecer e a farsa será completamente desmontada. Então, recontar toda essa história, fazendo com que a verdade finalmente apareça, será uma tarefa nossa por aqui, uma tarefa que cumpriremos com alegria e responsabilidade militante. Podes anotar: isto é uma promessa e um compromisso. Saudades. E um brinde.

Guilherme Cassel, 60, é Auditor Fiscal da Receita do Estado do RS, aposentado. Foi Vice-Presidente e Diretor de Crédito do Banrisul e Ministro do Desenvolvimento Agrário do Brasil.

Publicado originalmente no Sul21, leia aqui

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