Notícias
Home / Conteúdos / Artigos / 19 de abril: Agonia | Pedro Tierra

19 de abril: Agonia | Pedro Tierra

Gustavo Caboco. “As tramas do jereré e o retorno do manto”

Agonia

 

Morro a morte
mais longa,
a espantosa morte
de um continente.

Morro há séculos
no corpo dos povos
exterminados.

O coração lavrado
pelo fogo
dos bandeirantes,
bugreiros,
caçadores de escravos.

Sou a boca aberta de milhões,
ferida sangrando
na carne da História.

Dentes cerrados,
afio a flecha
a fogo e fúria.

Retorno à Terra
– alma de meu povo –,
sem paz.

Com as armas do meu uso
defendo sua memória
enterrada.

Retorno à Terra
e convoco os ossos
dos guerreiros degolados
EMANCIPADOS
pelo fogo do Arcabuz!

Retorno ao coração da terra
e dele retiro minhas armas:
o braço,
a borduna,
o canto dos mortos.

Levanto-me,
a corda dos arcos
retesada,
o corpo das lanças
refundido,
sem descanso avançam
os portadores do fogo.

“Este poema não foi escrito hoje. Foi dedicado aos povos indígenas do Continente durante a campanha contra a falsa ‘Emancipação dos Povos indígenas do Brasil’, promovida pela Ditadura Militar, sob a coordenação do Ministro Rangel Reis, em 1978.” Pedro Tierra


Gustavo Caboco é um artista-pesquisador indígena, sediado no Paraná. “Kanau’Kyba e os caminhos da borduna Wapichana” e “As tramas do jereré e o retorno do manto” são obras do artista que escolhemos para ilustrar o poema de Pedro Tierra. Ambas estão publicadas no perfil do instagram do artista.

Veja também

“Os recursos previstos para Assistência Social em 2023 seriam suficientes para 10 dias apenas”, diz ex-ministra Tereza Campello

Em entrevista, coordenadoras do GT de Desenvolvimento Social revelam cenário de abandono de políticas na …

Comente com o Facebook