Utopia Socialista em Star Trek

Erick Kayser

E se a ficção científica mais popular da televisão tivesse ousado imaginar não apenas novos mundos, mas o fim do capitalismo e, com isso, os contornos concretos de uma utopia socialista?

Em raras ocasiões, nas cada vez mais estreitas brechas que lhe restam, a indústria cultural consegue produzir obras que escapam à lógica imediata da reprodução ideológica do capital. Um desses casos é Star Trek, a série de ficção científica criada por Gene Roddenberry e lançada em 1966. Mais do que apenas extrapolar os limites reificantes do entretenimento televisivo, a série ousou um exercício imaginativo de uma utopia socialista. Em um meio frequentemente capturado pela naturalização das relações sociais existentes, Star Trek destacou-se por ensaiar, ainda que de forma contraditória, uma visão de mundo que desloca o horizonte do possível.

A hipótese que sustenta esse experimento ficcional é ao mesmo tempo simples e radical: o que aconteceria se a humanidade resolvesse seus problemas econômicos fundamentais? Como seria uma sociedade sem guerras, sem racismo institucionalizado, sem sexismo, sem propriedade privada dos meios de produção e sem dinheiro? Em outras palavras, como seria um mundo pós-capitalista? Libertados da compulsão do trabalho como condição de sobrevivência, os indivíduos passam a buscar o autoaperfeiçoamento, a arte e o serviço ao bem comum. A célebre missão de explorar o espaço, indo “onde nenhum homem jamais esteve” deixa de ser uma metáfora imperial para se tornar a expressão de uma humanidade reconciliada consigo mesma.

É precisamente essa reconciliação que torna a série um gesto político, e não apenas estético. Imaginar um futuro otimista para a humanidade em um contexto histórico marcado pelo avanço do neoliberalismo não é um gesto ingênuo, mas profundamente subversivo. Star Trek mobiliza, nesse sentido, uma ideia de igualitarismo radical. A Federação dos Planetas Unidos é apresentada como uma sociedade que aboliu hierarquias baseadas em raça, gênero e classe. Sua organização política e social é sustentada por instituições como a Frota Estelar, que opera menos como aparato militar e mais como uma comunidade científica e exploratória. Mesmo a série original, com suas limitações históricas, antecipava transformações ao apresentar uma tripulação multinacional, multiétnica e relativamente diversa em termos de gênero, algo que tensionava diretamente os padrões culturais de sua época.

Esse horizonte utópico não emerge no vazio, mas está profundamente enraizado no contexto histórico de sua produção. Lançada em plena Guerra Fria, em meio às lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos e à corrida espacial, Star Trek expressa um otimismo característico de um momento em que a razão científica e o progresso tecnológico ainda podiam ser imaginados como instrumentos de emancipação humana. Trata-se de um período em que, apesar das tensões geopolíticas extremas, ainda havia espaço para conceber a ciência não como mera força produtiva subordinada ao capital ou à guerra, mas como vetor de uma universalidade concreta.

Curiosamente, quando a franquia retorna com The Next Generation, no final dos anos 1980 – às vésperas da queda do Muro de Berlim e em um cenário de ofensiva neoliberal – seu conteúdo se torna, sob certos aspectos, ainda mais explicitamente marxista. A introdução do “replicador”, uma tecnologia capaz de produzir bens a partir da reorganização da matéria, resolve o problema da escassez material de maneira quase definitiva. No entanto, a série insiste em um ponto crucial: a tecnologia, por si só, não gera a utopia. A introdução dos Ferengi, uma espécie cuja cultura gira em torno da acumulação e da ganância, explicita essa dimensão política. Enquanto na Federação os replicadores são socializados, entre os Ferengi eles são privatizados. A diferença entre emancipação e exploração, portanto, não reside na técnica, mas nas relações sociais que a organizam.

É nesse ponto que a provocação de Yanis Varoufakis ganha sua força crítica: “A esquerda moribunda de hoje faria bem em se inspirar no abraço corajoso de Star Trek a um comunismo humanista e anti-autoritário”. A lição que se pode extrair não é a adesão acrítica a um otimismo tecnológico, nem a recusa reativa da técnica em nome de uma tecnofobia nostálgica. O desafio é dialético: reconhecer que as forças produtivas contemporâneas abrem possibilidades reais de superação da escassez, mas apenas sob condições sociais radicalmente transformadas. Entre o solucionismo tecnológico ingênuo e o pessimismo paralisante, Star Trek sugere um caminho intermediário: a tecnologia como campo de disputa política. Não há utopia sem mediação social, mas tampouco há emancipação possível sem enfrentar as potencialidades inscritas no desenvolvimento técnico.

Erick Kayser é historiador.

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