O burguês, a elite, o intelectual (e Lula)

Luiz Marques

“Signos, sonhos, sombras, imagens, /
quantas mensagens nos trazem”.
– Paulo Leminski, poema Sigilo de fonte.

1.

Originalmente por “burguês” se entende o habitante do burgo, o sítio fortificado do medievo. Em nota à edição inglesa do Manifesto de 1848, de Karl Marx e Friedrich Engels, posteriormente, o conceito ganha contorno científico para representar “a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios da produção social e empregadores do trabalho assalariado”. Não obstante, na linguagem coloquial, incorpora a conotação jocosa e corrosiva da aristocracia – “rico metido à besta”.

Refere-se aos esnobes que mensuram o bom gosto pelo preço das mercadorias, restaurante gourmet, clube de golfe, lancha importada e viagens internacionais. O GPS identifica o perímetro e a posição na hierarquia da sociedade. Indiretamente o status quo sinaliza o topo da pirâmide social, dividida em partes: “alta, média e baixa”. Troca as diferenças de natureza estrutural pelos degraus na escada vertical do sucesso. Cai no esquecimento o conflito entre a burguesia e o proletariado.

As classes dirigentes suprem uma “revolução dos gerentes”; os responsáveis pela estratégia e os rumos das corporações. A formação de sociedades anônimas, com os acionistas em assentos na mesa de direção de holdings, celebra o CEO (Chief Executive Officer / Diretor Executivo); contudo, refratário ao crachá de burguês.

O exportador rural de commodities, idem, rejeita o figurino do personagem urbano que se estende do fabricante até a distribuição dos produtos no varejo. Já o emoji do comerciante, que se jacta de atacadões espalhados por cidades, aumenta o preconceito de quem vive só de renda (rentista) contra o alpinismo da burguesia.

(Lula investido na função de sindicalista manifesta respeito pelos proprietários das empresas, no ABC paulista. Negocia e recua, levanta as reivindicações e daí avança pari passu com os peões. Garante os direitos nas refregas dos dissídios e dignidade àqueles que dependem, exclusivamente, do trabalho. Não despreza adversários.)

2.

“Elite”, na acepção de grupo especial, é um derivativo de “eleito” cujo significado teológico vem a ser “escolhido por Deus”. O significado político aponta para uma escolha do “melhor”. Em ambas as hipóteses, expõe a discriminação dos não-escolhidos e as injustiças nascidas das desigualdades sociais, escancarando as chagas de um progresso restrito aos pequenos e seletos núcleos de privilegiados.

Os vocábulos elitismo e elitista têm viés na soberba. A sugestão alternativa para amenizar o cacoete antidemocrático dos membros da elite é “liderança”. Mas não apaga o essencial, isto é, o fato de existir uma forte linha de separação entre os governantes e os governados. A marca subsiste por detrás da palavra de veludo, o que é inconveniente para o sistema pelo descrédito à ideia de mobilidade social.

Estudado por Robert Michels, na obra Sociologia dos partidos políticos (1915), o divórcio entre os líderes de uma comunidade política e suas bases obedece a uma “lei férrea da oligarquia”. Ao se debruçar sobre a estruturação interna da social-democracia alemã, o autor percebe a constituição do destacamento de notáveis e suas supostas luzes para compensar uma atávica “incompetência das massas”.

Se pesquisasse os ciclos de sovietes na Rússia em conjunturas revolucionárias (1905, 1917); ou o Orçamento Participativo (OP) de Porto Alegre no período não-revolucionário de fins do século XX, em um contexto de conquistas na América Latina, o sociólogo germânico nuançaria a tese peremptória. Condições políticas, econômicas e técnicas influem na formatação do Zeitgeist / espírito do tempo.

(Lula forma-se no bojo de mobilizações dos trabalhadores. John D. French, em Lula e a política da astúcia, vincula organicamente a biografia do metalúrgico lutador às transformações sociais e políticas ocorridas em São Paulo. É o que, além da dona Lindu, traça o caminho de sua improvável e vitoriosa ascensão.)

3.

O “intelectual” integra um segmento particular de “trabalhadores não manuais” (cadres / quadros), os quais se distinguem pela educação livresca para aplicar na análise dos fenômenos históricos seus conhecimentos e valores. Abrange artistas e autodidatas com inserção na cultura e no debate público. Têm independência e ética ao questionar a precarização do labor, o neocolonialismo, as finanças, as inovações tecnológicas, a escala 6 por 1. Não suportam a hipocrisia dos patrões.

A intelligentsia é uma força auxiliar das classes oprimidas e exploradas. “Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária”, diz um famoso bolchevique. A intelecto-militância progressista incide na práxis contra a ascensão da extrema direita no mundo e o genocídio israelense na Faixa de Gaza; em paralelo, defende a democracia representativa / participativa e um enfrentamento à crise climática.

Os intelectuais de vanguarda desfraldam as “visões de mundo” modernas, com as bandeiras da liberdade, da igualdade e da fraternidade – pessoal e institucional. Compartilham o desejo de emancipação para romper os grilhões que acorrentam a humanidade, no capitalismo neoliberal. Assim, constrói-se a ideologia socialista para recuperar a chama épica da cruzada dos escravizados com Spartacus para derrotar o Império Romano. A memória do acontecimento nutre a utopia hoje, a exemplo das ruínas de etnias originárias sobreviventes do “processo civilizatório”.

Modernamente o problema se agrava com o monopólio da mídia corporativa, a anfitriã dos regimes de exceção. As entrevistas de presidenciáveis na Rede Globo dão provas. Na TV aberta fala grosso sobre ilações com um fiador da democracia, mas esbarra no estadista. Com o golpista fala manso, receptiva às vis mentiras. Na GloboNews critica seus atores pela má performance como se não atuassem, sempre, com um papel no teatro. “Me engana que eu gosto”, sussurra o ditado.

(Luiz Inácio Lula da Silva é um dos libertadores, em nosso tempo: fundador do Partido dos Trabalhadores / PT, da Central Única dos Trabalhadores / CUT e atual presidente do Brasil. Luta pela soberania nacional e o empoderamento do povo. Trata-se de uma voz que ressoa na defrontação ao imperialismo estadunidense.)

Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul.

 

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