A bola de Flávio Dino mudou o jogo — e pouca gente está percebendo

Há decisões que não precisam produzir uma sentença para produzir um efeito político.

Foto: Gustavo Moreno – SCO – STF

O pedido de vista do ministro Flávio Dino no julgamento envolvendo Alexandre de Moraes fez exatamente isso: tirou, pelo menos temporariamente, o Supremo Tribunal Federal do centro do palco eleitoral.

E isso importa — e muito.

Se o julgamento continuasse por semanas, voto após voto, o debate político poderia permanecer girando em torno do STF, de Alexandre de Moraes, de Bolsonaro e da velha narrativa de confronto entre o bolsonarismo e a Suprema Corte.

Esse é um terreno conhecido.

O bolsonarismo transformou o conflito com o STF em uma das suas principais ferramentas de mobilização política. Cada novo capítulo judicial pode alimentar discursos, vídeos, cortes, manifestações e campanhas digitais.

Mas o pedido de vista muda a dinâmica.

O julgamento para. A narrativa muda. E o debate eleitoral pode voltar para onde as campanhas preferem estar: nos problemas concretos do país e na disputa entre projetos políticos.

Economia. Emprego. Saúde. Segurança. Educação. Programas sociais. Custo de vida. Desenvolvimento.

E, naturalmente, os próprios candidatos.

É aí que aparece a dimensão estratégica dessa decisão.

Não é correto afirmar, sem evidências, que Flávio Dino tenha pedido vista com o objetivo de beneficiar Lula ou prejudicar Bolsonaro. Isso seria transformar uma interpretação política em fato.

Mas é perfeitamente legítimo analisar o efeito político potencial da decisão.

E o efeito é claro: durante algumas semanas, o STF deixa de fornecer novos capítulos para uma narrativa eleitoral que vinha ocupando enorme espaço.

E existe uma ironia nessa história.

Aquilo que pode ser apresentado pela oposição como mais uma tentativa de “jogar o problema para debaixo do tapete” também pode acabar retirando oxigênio de uma narrativa que depende justamente da permanência do conflito com o Supremo no centro da agenda.

Na política, não basta escolher o que dizer.

É preciso entender sobre o que o eleitor está sendo levado a falar.

E essa talvez seja a parte mais importante dessa história.

O pedido de vista não resolveu a crise.

Não encerrou a disputa.

Não eliminou a controvérsia.

Mas mudou o relógio.

E, principalmente, mudou o palco.

Agora, a disputa política pode voltar a ser travada não apenas em torno do Supremo, mas sobre aquilo que realmente define uma eleição presidencial: quem apresenta respostas mais convincentes para os problemas do Brasil.

No fim das contas, talvez essa seja a verdadeira “bola dentro” do movimento de Dino:

ele não ganhou o jogo para ninguém — mas tirou, temporariamente, a bola das mãos de quem vinha jogando com o conflito institucional.

E, em política, às vezes mudar o campo de jogo é a jogada mais importante de todas.

Richard Widmarck Matheus Tinoco é Jornalista, Coordenador da Jornalistas Sem Fronteiras, Coordenador do Coletivo Paulo Faria e Diretor Executivo da Startup WidTech.

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