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A Esquerda bloqueou a terceira via | Luiz Marques

Diz-se que entre nós a escravidão é suave, e os senhores são bons. A verdade é que toda a escravidão é a mesma, e quanto à bondade dos senhores não passa de resignação dos escravos.”

Joaquim Nabuco

– Fake news

A mídia corporativa explora a existência de uma falsa bipolaridade entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva, para tentar cavar um espaço à criação da terceira via na política brasileira visando as próximas eleições. Demonizar o presidente genocida que prefere, mortos, os neoescravos em escala geométrica, é fácil. Razões para condená-lo há de sobejo.

O genocida comete frequentes crimes de responsabilidade, seja contra o Judiciário com destaque para o Supremo Tribunal Federal (STF); seja contra o princípio de colaboração na Federação, ao atacar e jogar nas costas de coadjuvantes o que deveria ser (mas não é) resultado de uma orientação centralizada para combater a pandemia, que já cruzou a barreira do inimaginável. Ao acusar os governadores e os prefeitos, sem provas de espécie alguma, por desviarem recursos pecuniários e esconderem vacinas da população, em um crime de lesa-humanidade, as fake news arremetidas por Bolsonaro falam per se.

Demonizar Lula é difícil. Em particular, depois da declaração de incompetência jurisdicional do juiz Sérgio Moro para julgar o paciente-mor da operação Lava Jato. E, ainda, da suspeição do citado magistrado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que anulou as sentenças condenatórias. Por extensão, toda processualidade e eventuais sentenças em outros julgamentos oriundos da atuação do “juiz ladrão”, o maior traidor da pátria na história do Brasil. Vide a reportagem (“J’accuse…!”) do jornal Le Monde que aponta a conexão entre Moro et caterva e os Estados Unidos na Lava Jato (11/04/2021). O embusteiro não quis comentar (sic). A máscara caiu.

Lula é o neoabolicionista que, ao final de dois mandatos consecutivos, deixou o cargo de representação no Palácio do Planalto com 87% de aprovação. O governante que:

a) Promoveu o crescimento econômico em combinação com a distribuição de renda através do Bolsa Família que, nas camadas pauperizadas respondiam pelo que Jessé Souza denominou “A Ralé Brasileira” (2018), onde milhões de pessoas situavam-se;

b) Elevou 40 milhões de pessoas ao patamar da classe “C”, pelos critérios da renda e do consumo, permitindo-lhes três refeições diárias sem penalizar as classes dominantes e acirrar a luta de classes em uma sociedade no pódium das desigualdades sociais;

c) Valorizou o salário mínimo e as aposentadorias, como nunca antes, elevando os salários em geral, o que movimentou a economia das pequenas e médias cidades e ajudou a ampliar o mercado interno de massas, tornando mais extenso o leque de consumidores;

d) Investiu em obras de infraestrutura como a hidrelétrica de Belo Monte e a transposição do rio São Francisco, e na indústria naval com vários polos na orla, a construção de navios, plataformas marinhas, sondas de grande profundidade para o Pré-Sal, etc (Exame, 22/11/2010). No ínterim, projetou empresas nacionais no mercado global;

Esses são fatos concretos, embora setores da esquerda considerem insuficientes na expectativa (que julgaram frustradas) de vitórias superlativas. São fatos reconhecidos, inclusive, pelas publicações destinadas aos donos do capital. Não é possível classificar os governos consecutivos do sindicalista do ABC paulista de bolivariano ou de carbonário. Os únicos fogos que se alastraram no tecido sociopolítico, à época, foram o da esperança de ascensão social para os descendentes redivivos do ciclo colonial-escravista, negros na maioria, e o entendimento cooperativo entre os poderes e os entes federativos.

– Polarização política

Lê-se na Wikipedia: “A polarização é tanto um estado como um processo. Como um estado, refere-se ao grau em que as opiniões sobre uma questão estão opostas em relação a um limite máximo teorético. Como processo, refere-se ao aumento de tal oposição ao longo do tempo… A polarização pode ser benigna, natural e democratizante ou pode ser perniciosa, tendo efeitos danosos à sociedade por congestionar funções democráticas.”

A definição não se encaixa na contenda pública entre Bolsonaro e Lula acerca da discussão sobre um projeto político econômico e geopolítico para o país. A equiparação não resiste a um cotejo das realizações das administrações sob encargo de Lula em 2003-2010 e as desrealizações da administração de Bolsonaro (2019-…). Não por conta do período de duração dos mandatos, senão pela absoluta falta de projetos por parte do capitão, como ele próprio admitiu em um jantar com representantes da extrema-direita trumpista nos EUA: “O Brasil não é um terreno aberto em que iremos fazer coisas para o nosso povo. Nós teremos que desconstruir muita coisa!”, disparou dois meses e meio após a posse. Se figurasse num filme de quinta categoria, Jair Bidu assumiria o papel de exterminador do futuro.

O que designou como projeto, aos patrões imperialistas, foi a demolição de conquistas sociais alcançadas nos governos populares, a destruição do patrimônio nacional e o aniquilamento democrático dos poderes e instituições de sustentação da República. Missão que “o mau militar”, na avaliação do Gal. Ernesto Geisel, desta feita, cumpre à risca desde que nomeou os inomináveis ministros(as) para a destruição de tudo que recenda a civilização (a ciência, as universidades públicas, a legislação trabalhista e previdenciária, o SUS), enquanto aumenta as iniquidades, retrocede na eliminação da pobreza extrema e da fome e ataca o Estado de Direito. Não é gratuita a antipatia do sinhô com Lula.

A contraditoriedade não rompe o limite teorético, de caráter prático, da fase status. Isto é, as contradições entre os horizontes políticos em questão não provocam conflitos interpoderes que inviabilizem atribuições. Tampouco a fase processus descompassaria as funções democráticas atinentes ao exercício da Presidência. A polarização é uma fantasmagoria política acenada por quem deseja forjar um polo para estigmatizá-lo (Lula), juntamente com aquele que já sofre a pecha de extremista (Bolsonaro), independente do conteúdo humano e programático que separa-os na vida real e conceitual. Alguns comunicadores ganham o leite das crianças explorando o dilema fictício, por convicção… no soldo.

Trata-se de uma invenção planejada pela “Elite do Atraso”, como no título do famoso best-seller acadêmico. A ideia é fabricar no lusco-fusco ideológico uma alternativa de “centro” (ele mesmo fake) para seguir o conselho de Tomasi di Lampedusa: “Algo deve mudar para que tudo continue como está.” Para isso são imperiosos cotovelaços na fila, empurra daqui empurra dali, para que o “candidatozinho”, na expressão do diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, sirva-se no buffet. Tarefa quiçá inútil, com a confirmação da candidatura Lula-lá corroborada na histórica votação do STF em 15 de abril de 2021.

– Lula, candidato da esquerda

Analistas entendem que o esforço por achar um postulante com chances de sucesso eleitoral, que se apresente na condição viável de um político centrista (o meio-termo reservado à virtude na ética aristotélica) vale a pena. O hipotético virtuoso seria capaz de captar os votos do bolsonarismo ou do lulopetismo em um especulativo segundo turno, nas projeções fundadas em uma bipolaridade que afugentasse o meio-termo (majoritário) do eleitorado. O erro estaria em acreditar que o centrismo tenha capacidade de magnetizar os extremos na disputa. Houve candidatos a bêbado equilibrista nas últimas eleições e, não obstante, foram varridos cedo da competição com parcos e minguados apoios. O problema é que os supostos liberais (escorpiões da piada) não resistem ao apelo do prefixo da neoescravidão.

Ademais, a leitura da conjuntura é falha. É o neoliberalismo (fascismo social) que estará sob os holofotes da crítica no pleito. Neoliberalismo predatório que esteve representado na nominata da Carta dos (dublês) de Economistas, no final de março. Modelo econômico que tem justo em Bolsonaro o ventríloquo de estimação que anunciou um ano atrás haver chegado “para desconstruir e não para construir”. Falou e fez, como demonstram os óbitos em desnecessária cascata hoje. Porque recusou-se adquirir vacinas em tempo hábil e porque, na ausência de vontade política, negou-se a alcançar recursos indispensáveis ao Butantan e à Fiocruz para que produzissem a vacina nacional. O genocídio tem lógica. As mentiras e a recusa autoritária e prepotente dos valores da modernidade, pelo bolsonarismo (fascismo político), só serão escrutinadas de forma subordinada na campanha.

Erra também quem pensa que au millieu esteja ocupado pelo virtuosismo de Lula. Da Silva é o expoente da esquerda na apuração de 2022, com potencial acima de outras possibilidades à gauche do espectro político. Interpô-lo no centro significaria acatar os parâmetros que norteiam a angústia do capitalismo em encontrar o narciso, que abdique do fascismo político e reafirme o fascismo social. A denúncia de ambos os aríetes de exclusão eugênica não põe o petista no centro. A esquerda bloqueou a aventura de uma terceira via. O duelo com a extrema-direita bolsonarista terá como protagonista a própria esquerda.

Como na canção de Coralie Clément, ao repassar a biografia de ilusões e ingratidões: “Un beau jour / Ou était-ce un nuit / On s’assoit sur un banc / On reprend le cours de sa vie / On oublie simplement / Q’on a vu un peu de paradis / Des mers, des eléments / Et tout nos différends” (Um belo dia / Ou teria sido uma noite / Alguém senta em um banco / Retoma o curso de sua vida / Simplesmente esquece / De ter visto um pouco do paraíso / Os mares, os elementos / E todas nossas diferenças”.

É hora de lembrar, éramos felizes. E dar um passo à frente. Com os olhos na estrela da manhã. Ela sinaliza uma sociedade com mais igualdade e liberdade. A sociedade que merecemos. A alforria tão esperada há séculos.

  • Luiz Marques é professor de Ciência Política , UFRGS

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