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A filosofia do neofascismo | Luiz Marques

O problema de nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser”

Paul Valéry

– O sentido do caos

No livro “Guerra pela Eternidade – O Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista”, 2020), do norte-americano Benjamin Teitelbaum, o autor afirma que os governos dos Estados Unidos (então Donald Trump), do Brasil (ainda Jair Bolsonaro) e da Rússia (Vladimir Putin) foram influenciados por Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin respectivamente. O guru, o professor e o estrategista compartilham uma filosofia: o Tradicionalismo. Para entender o desgoverno, as impolíticas, os antiministérios e a guerra cultural que carcterizam a gestão do presidente Bolsonaro, é preciso decodificar o anteparo filosófico de seus atos governamentais, na aparência, bizarros, que chocam a opinião pública com o “orgulho” por haver tornado o país um pária entre as nações.

Trata-se de “um conjunto quase caótico de ideias que oscilam entre a revolta contra o mundo moderno e a contemplação de ciclos de tempo”, conforme as professoras Adriane Sanctis (FGV) e Luciana Silva Reis (UFU) descreveram no artigo “A Destruição como uma Política do Espírito” (Quatro Cinco Um, março 2021), a primeira resenha escrita sobre a reveladora coxia do neofascismo. Este, apontado como uma seita composta por “homens arianos espirituais” (réplicas dos Supermen de quadrinhos), para os quais as religiões atuais são a forma superficial de espiritualidade, típica dos mortais comuns incapazes de acessar um conhecimento superior. Ser neofascista seria atestado de superioridade…

– A noção de tempo

A noção de tempo que os Tradicionalistas desenvolvem é não-linear. Incorpora do hinduísmo a crença de que a história é cíclica e se repete a cada quatro estágios, “sempre decaindo, da era do ouro à era sombria”. Os ciclos grandiosos teriam nas castas dominantes os “sacerdotes” (representados pelo supremacismo branco e hetero), depois os “guerreiros”. A seguir viriam as castas decadentes, os “comerciantes” e os “escravos” – leia-se: camadas médias urbanas e pobres. O último círculo seria a fonte de alimentação, tanto do projeto da democracia liberal quanto do socialismo, para os quais o progresso traria “somente” (sic) mais liberdade e igualdade. A estrutura social desenhada é, por definição, racista.

Olavo de Carvalho, em lugar da hierarquia dos sacerdotes de difícil apreensão, elaborou um ideal espiritual acessível a todos ao identificá-lo com a população cristã rural: “a reserva oculta da energia antimoderna”. Steve Bannon enalteceu o self-made man, ao destacar que a mobilidade individual não era resultado dos movimentos sociais ou da luta de classes, senão do esforço de cada um. Discurso convertido na plataforma programática da direita trumpista para conduzir o povo ao sonho de corroer a democracia por dentro. Ascendendo por via eleitoral segundo as regras do jogo para, com o apoio da maioria, descortinar o caminho à marcha triunfal do autoritarismo. O Tradicionalismo encampa uma visão apocalíptica, ao agir na esperança de implodir os alicerces da vida moderna.

– Metapolítica da eternidade

A utopia Tradicionalista aspira a chance de “revelar à humanidade a existência de um ‘núcleo espiritual’ que é deixado de lado pelas perniciosas visões materialistas”, alavancadas pelos regimes políticos que aspiram ao Estado de Bem-Estar Social. “A Modernidade, uma época por excelência materialista, é o contraponto perfeito da Tradição em que a espiritualidade é a força motriz da sociedade”. As abstrações relativas à suposta espiritualidade e à “metapolítica da eternidade” é que moveriam a Terra: não a práxis assentada no realismo político e nas negociações. Não a política propriamente.

É também através da metapolítica, a filosofia que está além da política, que o sentimento antissistema robustece a mistura do nacionalismo com o anti-globalismo. O fator decisivo residiria na deslegitimação dos sistemas modernos de compreensão do mundo – a ciência, por óbvio, e os pesquisadores e intelectuais nos espaços convencionais de produção do conhecimento, como as escolas e universidades. As descobertas “da tabela periódica, da física nuclear, da lâmpada, da penicilina, da vacina…” ameaçariam o teísmo da Idade Média e reforçariam o humanismo da Renascença. Logo, enfraqueceriam a crítica à Modernidade. A prioridade é a guerra cultural, e não os vetores de aprimoramento da efetividade e da eficiência das ações estatais. A metapolítica, por meio da cultura, visa imobilizar o impulso civilizacional e a consciência dos tempos modernos.

– Desmobilização do governo

Para os mentores do extremismo de direita, a finalidade é a destruição e a desmobilização do próprio governo. “Uma maneira de fazer isso é começar pelo topo, colocando pessoas em posições de poder que sejam hostis às instituições a que servem”. No Brasil, a sugestão foi acolhida. Vide a extravagante nominata do alto escalão do desgoverno bolsonarista. No Supremo Tribunal Federal (STF), idem, acham-se antiministros cujo único desígnio na instituição está em atirar-lhe pedras para agradar as hordas do lavajatismo.

A desconstrução do ato de governar acompanha a mordaça nas conquistas de um sujeito estratégico da transformação: as mulheres, pretendendo a volta do patriarcado, porque reconhecer a equanimidade de gênero esfarelaria o discurso conservador sobre a família e o papel da figura masculina. Daí a observação de Fernando Abrucio (USP): “O bolsonarismo tem um propósito anti-iluminista, de defesa da Tradição, tal qual interpretada pelos aliados políticos e religiosos do presidente Bolsonaro” (Valor Econômico, 14/05/2021).

– De cabeça no nonsense

O que soa (e é) um obscurantismo, compõe a negação dos tempos modernos no intuito de um mundo perene, sem se importar em contrariar a existência dos fatos e mergulhar de cabeça no nonsense. Para isso, os Tradicionalistas não hesitam em simplificar a complexidade do real, em um período de hegemonia da Pós-Verdade e suas fake news, como na cruel pandemia. O Kit Cloroquina, para o charlatanesco tratamento precoce à Covid-19, é uma forma de simplificação da percepção sobre a realidade. Funciona para quem enxerga o mundo em preto e branco, abstraindo as quinhentas e tantas tonalidades de cinza.

Que a Modernidade mantenha presos no porão da esfera pública o racismo, o patriarcado, o anticientificismo e a ignorância medieval da extrema-direita. Cabe, aqui, a parábola que abre o livro “Guerra pela Eternidade”. Parábola que fala do homem que, para conseguir a liberdade, deve derrotar um tigre, mas não o confronta. Monta o felino à espera que ele envelheça e enfraqueça, para acertar-lhe o golpe fatal. É o que o genocida brasileiro fez ao sentar a bunda na cadeira presidencial, até que o povo o destitua. Para recuperar a epígrafe desse texto, o futuro (que não é como costumava ser) pode vir a ser como os democratas e os socialistas queremos. Com respeito aos direitos humanos e aos saberes. – Vacina já!

  • Luiz Marques é professor universitário, UFRGS

O Pensador, Museu Rodin

Wikimedia Commons

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