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A ideologia do não dito | Arlete Sampaio

O termo “ideologia” nunca foi tão falado no Brasil como atualmente. Nos últimos anos fala-se em ideologia de gênero, ideologia de esquerda, ideologia marxista e até mesmo na sua derivação em ideólogo.

Historicamente, a classe burguesa propaga sua ideologia – ou suas ideias – a fim de dominar a classe trabalhadora, por meio da simulação de um interesse pretensamente coletivo. A dominação de uma classe sobre a outra, por meio da construção de uma ideologia, busca conquistar ou manter o poder pela hegemonia das ideias. Aqueles que se apresentam “contra as ideologias”, na verdade ideologizam tudo em nome de um objetivo não dito que visa implementar uma política econômica ultraliberal, na qual quem ganha – e muito – é o mercado financeiro.

Por trás do revisionismo e do negacionismo histórico está a ideologia do capital e todos os compromissos com o capital financeiro, que são perversos para a imensa maioria da população brasileira, como as reformas da Previdência e a trabalhista e o desmonte das políticas públicas de saúde e educação, para citar algumas. Só quem ganha com o desmonte das políticas públicas e com o fim dos direitos sociais é o capital financeiro, o mercado. A privatização dos serviços públicos e até mesmo dos direitos como a proposta de capitalização da Previdência Social visa encher as contas de 1% da parcela mais rica do país e do capital financeiro.

Essa é a face cruel da ideologia do capital, essa que não é dita porque não tem e não terá adesão e apoio popular. Na tentativa de angariar apoio, está em curso um verdadeiro vale-tudo na busca por hegemonia, ou seja, o amplo apoio da sociedade brasileira às políticas do Governo Federal.
Para esconder a sua real ideologia do capital, ideologizam tudo, até a nossa história, factual, vivida e estudada, como já tratei em outro artigo.

O revisionismo histórico ou negacionismo histórico virou política institucional e posição do atual governo perante a comunidade internacional. O Governo Bolsonaro nega a existência do golpe civil-militar de 1964 e os 21 anos de ditadura militar a ponto de anunciar mudanças nos livros didáticos para inserir o que chamou de “regime democrático de força”, sob o argumento de que a história do Brasil é contada a partir da “ideologia da esquerda”, como se restasse alguma dúvida, historicamente científica e plausível, a respeito desse lamentável período da vida nacional. O recém empossado Ministro da Educação, Abraham Weintraub, economista e representante do mercado sem nenhuma relação profissional ou acadêmica com a educação, tem um histórico de declarações contra o que chama de “marxismo cultural” o que aponta para mais uma gestão catastrófica no MEC.

A mesma lógica segue o Presidente da República que atribui a escravização de milhares de negros aos próprios negros, nega o tráfico criminoso praticado por brasileiros e portugueses, quando estes colonizaram países da África. Esta prática, condenada nas cortes internacionais e fartamente documentada em pesquisas históricas, também foi promovida por outros países europeus que traficavam negros e negras para escravizá-los.
Para completar a tragédia atual, temos o ministro de Relações Exteriores que nega o aquecimento global e atribui tal tese ao “marxismo cultural”, a ministra de Direitos Humanos que quer combater a “ideologia de gênero” e também os ideólogos convictos de que a terra é plana.

Por trás do apontamento de ideologias falsificadas, da tentativa de revisar e negar a nossa história, está a ideologia do capital que é antipovo, que atenta contra a soberania do Brasil e os interesses populares. A ideologia do capital é a não dita, porque não pode ser dita e sustentada para os fins que os ocupantes do poder querem, que é a hegemonia das ideias, o apoio popular. A moda da invencionice de ideologias esconde a verdadeira ideologia que pauta o governo Bolsonaro: a do capital que é cruel e danosa com o povo brasileiro.

Arlete Sampaio é deputada distrital pelo PT-DF e militante da Democracia Socialista.
Originalmente publicado aqui.

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