Democracia Socialista

A SAÍDA É PELA ESQUERDA

Bernardo Cotrim

 

Com o auditório do CREA-RJ lotado por centenas de militantes, realizou-se o debate “A Saída é pela Esquerda”, organizado em conjunto pela Articulação de Esquerda, a Democracia Socialista e os mandatos do senador Lindberg, do deputado federal Molon e do vereador Reimont.
Contando com a presença do ex-governador do RS Tarso Genro, o evento teve como marca os discursos duros contra a ofensiva reacionária, em especial no Congresso; a defesa do governo Dilma, pontuada com críticas severas à política econômica adotada pelo governo; e a disposição de organizar uma ampla frente democrática, reorganizando o PT e dialogando com outras organizações de esquerda para construir uma agenda política capaz de revigorar a esquerda do RJ. As críticas ao PMDB do RJ, que governa o estado e a capital, tiveram o seu destaque, uma vez que o presidente da Câmara e o líder da bancada do PMDB também foram eleitos pelo estado.

A atividade também marcou a apresentação do manifesto “A Saída é Pela Esquerda”, que apresenta as linhas gerais que o movimento propõe para o PT-RJ e a militância de esquerda fluminense.

A Saída é pela Esquerda!

1- A atual crise política que vivemos não é apenas fruto de impasses do governo. Ela é resultado de uma nova ofensiva do capital financeiro internacional e do imperialismo dos EUA em escala global, construindo um cenário de dificuldades e constrangimentos sistêmicos em todos os países de governos progressistas. O Brasil, pelo peso econômico e geopolítico, é peça chave nessa disputa, assim como a Grécia, que ousou eleger um governo de esquerda no interior da União Européia.

2- Para além da brutal ofensiva da direita, a crise desnuda também os limites do projeto impulsionado pelo PT ao longo de 12 anos no comando do governo central. O extraordinário processo de inclusão social não foi acompanhado de uma narrativa que politizasse as conquistas; a “paz” social gerada pelo crescimento onde todos os segmentos sociais “saíram ganhando” foi rompida ao primeiro sinal de crise econômica, e a eclosão da desordem neoliberal isolou politicamente o governo, expondo a intolerância conservadora. Soma-se a isso as escolhas equivocadas de montagem do governo, sinalizando essencialmente para setores conservadores e apresentando um ajuste fiscal punitivo para o “andar de baixo”, tudo isso em meio a mais um escândalo de corrupção, alardeado pelo aparato midiático empresarial com a parcialidade virulenta de sempre.

3- O arrefecimento da luta política por parte do PT e do governo logo após a vitória, sem sintonia com o movimento crescente de questionamento da legitimidade da vitória de Dilma e a disputa em alta temperatura impulsionada pela oposição, criou um caldo propício para tensões golpistas, acelerando o tempo da política. O partido, imobilizado pela burocratização e estrangulamento da democracia interna, reduziu seu horizonte à institucionalidade, participando apenas protocolarmente de um sem número de campanhas impulsionadas pelos movimentos sociais, desatando laços importantes com os movimentos de resistência e lutas por direitos. Atônito, por diversas vezes reagiu de maneira conservadora frente aos questionamentos que não conseguiu compreender, desperdiçando a chance de revigorar-se com o oxigênio das ruas e de ampliar as brechas para construir novos avanços e conquistas.

4- O Rio de Janeiro é um palco importante dessa disputa. A dinâmica contraditória da coalização nacional e o peso desempenhado pelo PMDB fortaleceram a participação do PT no governo local, engessando o debate político e a ação crítica do partido, tornado sócio-minoritário de um imenso laboratório de experiências do capitalismo na gestão pública. A lógica da cidade-negócio, a terceirização dos serviços públicos e apropriação privada da cidade como um todo – seu espaço urbano, o planejamento, a gestão de serviços estratégicos e a condução dos rumos do seu desenvolvimento, tendo o poder público como sócio, dissociou nossa construção política da cidadania ativa e da luta democrática, com reflexos nefastos para o partido. Vicejou a lógica da urbanização gentrificadora, grosseiramente subordinada aos interesses do mercado imobiliário e da especulação predatória, implementada em ritmo intenso e autoritário, negando quaisquer canais de diálogo com a população. Em paralelo, no plano estadual, segue o moto contínuo das violações de direitos humanos, da política de segurança destinada a garantir o silenciamento das periferias segregadas, a ausência de uma política de desenvolvimento para o interior, a dependência brutal dos royalties do petróleo, a crise em serviços públicos fundamentais como saúde e educação e o trato autoritário com movimentos e organizações da sociedade.

5- A tensão vivida, grosseiramente resumida na captura parcial do PT pelo liberalismo e na dispersão do petismo em torno de outras alternativas de esquerda, precisa ser enfrentada pelo partido. Frente à necessidade de reinventarmos nosso projeto e recuperarmos a capacidade de impulsionar as energias criativas para o aprofundamento da democracia e a ampliação de direitos, é preciso localizar o esgotamento do projeto impulsionado por nós na última década e pactuarmos um redirecionamento da nossa atuação, enfrentando as amarras da coalisão que, se por um lado, foi importante para a garantia de transformações expressivas em nosso país, hoje combate, na sua expressão majoritária, a possibilidade de novos avanços, liderando inclusive ofensivas de caráter reacionário. A recente articulação de movimentos sociais, entidades de peso da sociedade civil e partidos democráticos na constituição de uma frente ampla e democrática deve ser o motor do ajuste político do PT carioca.

6- Consideramos que o aniversário de 450 anos da fundação da nossa cidade, comemorado em 2015, deve ser aproveitado para a construção de um ciclo de debates sobre qual a cidade que queremos. A mobilidade urbana, a cultura, o direito ao espaço público, os serviços de qualidade e a participação popular constituem eixos programáticos importantes para a construção de uma plataforma mínima capaz de aglutinar camadas expressivas do pensamento crítico e dialogar com as demandas da população. Além disso, de forma combinada com o ciclo de debates, lutas políticas fundamentais terão esta frente como motor, aglutinando força social para incidir sobre a correlação de forças na sociedade, conjunturalmente muito desfavorável pra esquerda. As inúmeras campanhas e lutas em curso – Amanhecer Contra a Redução, Auditoria Cidadã da Dívida Interna, Campanha pela Democratização das Comunicações, Campanha pela Reforma Política com Participação Popular, as lutas do movimento sindical contra o PL 4330, das terceirizações, e as lutas de trabalhadores e estudantes em defesa da educação pública – precisam ganhar centralidade na agenda e uma dimensão articulada e solidária de intervenção, fortalecendo coletivamente suas dinâmicas.

7- Esta frente ampla deve ser capaz – e o PT tem papel fundamental no processo – de transformar uma plataforma de ação em um programa para a cidade, mobilizar amplos setores sociais e constituir redes colaborativas radicalmente democráticas, tornando-se um espaço aberto para uma imensa gama de militantes e ativistas do nosso estado, articulando as dimensões da luta nacional com as pautas e experiências locais. Conclamamos, pois, o conjunto do partido a dar um passo corajoso em direção ao fortalecimento dos nossos sonhos socialistas e democráticos, impulsionando a construção de uma alternativa popular, democrática e capaz de formular respostas para os impasses do tempo presente.
Assinam:
Articulação de Esquerda
Democracia Socialista
Alessandro Molon
Lindberg Farias
Reimont Otoni
Robson Leite