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Alienação nas ondas de rádio | Luiz Marques

O companheiro e amigo Flávio Koutzii (Pedaços de Morte no Coração, 1984) conta em seu belo relato da atroz prisão, ao tempo das ditaduras civis-militares na América Latina, que os prisioneiros políticos inventaram “periscópios” (pequenas varetas com um caco de vidro na ponta) para controlar a circulação da guarda nos corredores dos cárceres. Assim, vigiavam os passos dos vigilantes. Metaforicamente, é o que faço em noites de insônia ao sintonizar uma emissora de rádio, em um programa apresentado por um jornalista de extrema-direita, com credenciais contrárias à qualquer sociabilidade democrática. Há vários, sei.

O comunicador em alusão já foi denunciado por homofobia, ao repudiar a possibilidade legal de gays e lésbicas formarem uma família com a adoção de crianças, em situação de abandono. Em resposta, retrucou com um falso “argumento de autoridade”, na ausência da correta “autoridade de argumento”. Alegou que sabia ao que se referia, pois é pai de um homossexual (sic). Jean Wyllys solidarizou-se com o filho e lamentou que o mesmo tivesse, por genitor, um “homofóbico e ignorante”. Como a estupidez sempre anda acompanhada de uma grosseria, doutra feita não hesitou em interromper a ligação telefônica de um deputado (de direita, do Partido Novo) por aquele defender a liberação controlada da maconha, ao vivo. Tema que considerou talvez suficientemente explicado pela expertise de… Osmar Terra: a personagem dispensa comentários. Com a descoberta de que até conservadores podem se mostrar progressistas, em temas de moral e costumes, a triagem de convidados para a programação passou a ter critérios rígidos. Gato escaldado tem medo de água.

A essas credenciais anticivilizatórias, o referido radialista soma o negacionismo da pandemia e atribui a propagação do vírus ao isolamento social, por paradoxal que soe. Seria de rir, se não fosse para chorar da criminosa desinformação. Ainda, defende o “tratamento precoce”, embora o próprio Ministério da Saúde já não se atreva a recomendar a famosa Hidroxicloroquina. No caso, seria de chorar, se não fosse para rir da patética tentativa de parecer mais realista que o rei, o monarca momesco tão indigno que desmente fake news (“O relatório que divulguei do Tribunal de Contas da União / TCU, fui eu que escrevi”) com novas mentiras (“Eu me enganei”). Incapaz de assumir no posto que ocupa o decoro que o cargo exige. Sim, desde a viciada campanha eleitoral que ungiu pelo voto o genocida à Presidência, com o beneplácito do Judiciário, das Forças Armadas, das forças econômicas e da mídia. A ordem dos tratores, aqui, não altera a lavoura. Isto é, o agronegócio.

Não me irrito na audição. Escuto os rompantes radiofônicos contra o conhecimento e a ciência com estoicismo, mas sem resignação. Presto atenção nas falas soberbas, com o rádio a pilhas de improvisado periscópio. Antes de abrir os microfones aos “debatedores”, com o espírito verde e amarelo da incorruptível CBF – o apresentador lê um monótono editorial. Neste, cita de forma provocativa parlamentares federais do PT, sem direito à réplica, enquanto atualiza a agenda política desfraldada no cercadinho do Palácio do Planalto. O script se repete à exaustão, sem criatividade, sem bom senso, sem vergonha. Veja-se:

a) O número de vítimas da doença pandêmica é discutível. Muitos morrem de câncer e, no atestado de óbito, consta Covid-19. Isso, em tese, desacredita os informes dos meios de comunicação e a “narrativa” sobre o gerenciamento calamitoso da crise sanitária no Brasil, por conta da estratégia de imunidade de rebanho que protelou a compra das vacinas. Eis aí, en passant, o crime de responsabilidade, previsto na Constituição (obrigação do governante de zelar pela vida e pela saúde do povo) para endossar o necessário impeachment de Bolsonaro. Ademais, serve à suspeição sobre os escândalos que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) vem trazendo à tona. Não faltam médicos avulsos para referendar a pantomima do prestigitador, em troca de elogios egóicos pelo “brilho intelectual” (sic);

b) O Supremo Tribunal Federal (STF) não deixa o presidente governar. Isso explica o desgoverno que, com as facilidades para a aquisição de armamentos graças à edição de Medidas Provisórias (MPs), é aplaudido pelos Clubes de Tiro, os colecionadores de armas e as milícias. Fieis escudeiros dos horrores que parasitam o aparelho de Estado. O objetivo é fornecer uma satisfação à sociedade para a mediocridade que envolve os governantes e;

c) O Sistema, que engloba o Judiciário, as Universidades, a Rede Globo e apêndices como a Organização Mundial da Saúde (OMS), é cúmplice da esquerda (sic, deu soluço). Não deseja acabar com a roubalheira e a corrupção que quebrou o país. Isso funciona como cautelar à visível e crescente erosão de popularidade da administração central e sua liderança, que confunde nação com gado estressado. O curioso é que na conceituação de elite, oferecida à ruminação do bolsonarismo, omite-se os banqueiros, os rentistas e as empresas multinacionais. O poder é caricaturizado, abstrai a finança. Ou seja, o chão onde se assenta a concreta dominação de classe. A tergiversação contenta-se com flanar, quixotesca, contra moinhos imaginários para o gozo em motociatas. Artifício que oculta a subserviência aos verdadeiros donos do poder que, interna e externamente, nutrem-se de direitos retirados (previdenciários, trabalhistas, salariais) dos trabalhadores brasileiros.

Para encerrar o comentário, vale registrar que os programas de reprodução da alienação não deixam dúvidas pelas ondas transmissoras. Entre depoimentos ingênuos e/ou interessados, provocam o entorpecimento das consciências – e a transformação da despolitização em instrumento da política. Um jogo perverso, que em si condensa o projeto de destruição da democracia. Em momentos, com insinuações sobre a necessidade da violência. É como se todos(as), no estúdio e na escuta estivessem contaminados pelo “mal-branco” que propaga a cegueira. Qual acontece no celebrado romance de José Saramago, cuja epígrafe traduz um bom conselho a quem encontra dificuldades para conciliar-se com o sono, ao som dos despautérios protofascistas durante a noite: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

  • Luiz Marques é professor de Ciência Política da UFRGS, doutor pelo Institut D’Études Politiques de Paris (Sciences Po) e ex-secretário Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul (Governo Olívio Dutra).

Imagem de erge por Pixabay

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