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Alternativas feministas para os dilemas da humanidade: enfrentar o capitalismo no presente | Ana Priscila Alves

Leia discurso sobre estratégias internacionalistas de organização anticapitalista, ocorrido durante Conferência Dilemas da Humanidade.

Foto: Rafael Stédile
Foto: Rafael Stédile

A Marcha Mundial das Mulheres é carregada de uma tradição internacionalista. É também fruto da luta de toda uma vida da companheira Nalu Faria. Seguimos as tarefas que Nalu nos deixou — que são muitas, para todas e todos nós, lutadores e lutadoras do mundo que se encontraram com ela, cruzaram com sua dedicação, sua entrega e seus acúmulos.

Inicio, então, trazendo duas reflexões que Nalu sempre nos trazia. A primeira é a importância da construção do internacionalismo, entendendo que as lutas socialistas e feministas são antissistêmicas e precisam ser internacionais, entre companheiras e companheiros de todo mundo. A segunda reflexão é sobre a importância do processo; não só a importância desse espaço que construímos hoje, mas o processo que nos trouxe até aqui e também o que se desencadeia a partir desse espaço.

A organização contra a globalização

Em qual condição estamos nós, trabalhadores e trabalhadoras, hoje? Nossa organização é uma resposta e uma construção de alternativa para transformar as condições em que vivemos. Sob quais cenários surgem os movimentos sociais? Como a luta se organiza? No Brasil, por exemplo, entre 1964 e 1985, vivemos uma ditadura militar, em um processo que, paradoxalmente, fez com que vários movimentos sociais atuais surgissem, como o Movimento dos Trabalhadores Sem terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), entre vários outros.

Em seguida, na década de 1990, vivemos um momento em que o imperialismo nos impunha um projeto de globalização, internacionalizando ainda mais a economia neoliberal de precarização das nossas vidas. Na América Latina, em especial, tentaram nos impor a ALCA, um tratado de livre comércio. Naquele momento, na passagem dos anos 1990 para os 2000, a organização dos movimentos foi criando dois caminhos: alguns achavam que disputar aquela agenda da institucionalidade poderia trazer oportunidades; nós, por outro lado, acreditávamos que não. Entendíamos que aquilo era muito parecido com as condições em que já vivíamos, e que aquele projeto tentava aprofundar e nos prender em uma condição de subordinação.

A Organização das Nações Unidas (ONU) não nos representava, e entendíamos que a luta e as respostas necessárias só poderiam vir dos trabalhadores. Nesse contexto de neoliberalização, surgiu a Marcha Mundial das Mulheres, a Via Campesina e outros movimentos, com a compreensão de que, se a opressão é internacional, nossa resposta — nosso socialismo, nosso feminismo — também deve ser internacional.

A classe trabalhadora e seus dilemas atuais

Hoje, vivemos uma nova inflexão do sistema capitalista. Visualizamos que o sistema capitalista não apenas atenta contra o trabalho, mas contra a nossa vida. O capitalismo é incompatível com a vida. Vemos isso hoje no enfrentamento de nossas companheiras e companheiros da Palestina. Também vimos, nos últimos anos, no período da pandemia, pois enquanto nos países do Sul global as pessoas morriam, já havia uma vacina pronta e inacessível. Naquele momento, muitos de nós entendemos como as lutas pela quebra das patentes e contra as empresas transnacionais farmacêuticas faziam parte de uma luta de solidariedade internacional da classe trabalhadora.

O período pandêmico trouxe uma remodelação do trabalho, que foi ainda mais dura para as mulheres. Por um lado, vimos um aprofundamento da uberização, não só no trabalho de plataformas estritamente, mas na flexibilização de quaisquer direitos. Por outro lado, mesmo nessas condições precárias, as mulheres foram expulsas desse mercado de trabalho. No Brasil, no ano de 2020, 96% das pessoas que perderam seus empregos formais eram mulheres, segundo levantamento da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Essa tendência se colocou não só no Brasil, mas em todo o mundo. Hoje, temos muito mais homens na força de trabalho economicamente ativa do que mulheres.

As crises do capital são necessárias para recompor os lucros, mas também para recompor suas cadeias de exploração, das quais a divisão sexual do trabalho faz parte. As crises andam junto com políticas de austeridade, de redução do Estado e seus sistemas de saúde, educação pública e cuidados. Quando o mercado nos expulsa do mercado de trabalho e o Estado se retira dessas tarefas, o recado que nos dão é que essa responsabilidade é das mulheres. Que querem nos colocar de volta em casa para realizar o trabalho de cuidados dos doentes, das crianças, dos idosos e também dos homens, que estão nesse mercado de trabalho economicamente ativo cada vez mais adoecedor.

Para o sistema capitalista, todo esse trabalho de cuidados é das mulheres.Ana Priscila Alves

Essa condição traz à tona dois elementos: o primeiro é que o trabalho assalariado, que não é uma regra nem para o Sul global, nem para as mulheres. Há uma série de trabalhos não formais e não pagos. O segundo é a construção capitalista de falsas dicotomias, como produção e reprodução, público e privado, razão e emoção. Todas elas são feitas para invisibilizar o trabalho gratuito realizado pelas mulheres. O trabalho de reprodução da vida sustenta a economia. Pressupor que as mulheres se responsabilizarão pelo cuidado nos impõe uma precarização estrutural, marcada pelo sistema capitalista, patriarcal e racista e pela divisão internacional do trabalho.

Alternativas feministas para mudar o mundo

Não nos serve um feminismo que, na verdade, é o capitalismo pintado de lilás. O feminismo precisa ser popular, desmantelar as bases desse sistema capitalista que nos oprime em todo mundo. Trazemos como alternativa uma economia feminista, capaz de colocar a vida no centro. A economia é o conjunto de tarefas que garantem a vida e fazem com que a sociedade continue funcionando.

Entendendo que o conflito do capital contra a vida estrutura nossa sociedade, construímos essas alternativas nos nossos territórios. Na pandemia, entendemos a necessidade de nomear quem nos oprime e de enfrentar a ofensiva das empresas transnacionais — as farmacêuticas, a mineração, a privatização da água, entre outras. As mulheres dão respostas porque estão na linha de frente dessa resistência em seus territórios, com memória, mística, agricultura familiar e economia solidária.

Quando olhamos para as alternativas propostas em nossos países e territórios, percebemos que esse é o desafio do nosso tempo histórico. Nos anos 1980, uma série de movimentos sociais foi capaz de surgir para lutar por democracia. Nos anos 1990, lutamos contra a globalização capitalista. Agora é o momento de entender a reorganização do capital e lutar para construir socialismo hoje, em nosso tempo histórico.

Esse sistema que nos mata não pode continuar.Ana Priscila Alves

Nalu Faria dizia repetidamente que a resposta para os problemas e os dilemas da humanidade está na própria classe trabalhadora, no dia a dia, nos movimentos, nas alternativas que já construímos todos os dias, nos nossos locais de atuação e vida. A resposta para desmantelar as bases materiais do capitalismo está nos movimentos de resistência que fazemos em todo o mundo. Essa é a nossa tarefa: mudar o mundo para mudar a vida das mulheres e mudar a vida das mulheres para mudar o mundo. E é por isso que seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.

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Ana Priscila Alves é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro, Brasil. Este texto é uma edição de sua fala no painel “Organização da classe trabalhadora”, realizado no dia 15 de outubro, durante a 3ª Conferência Internacional Dilemas da Humanidade, em Joanesburgo, África do Sul.

Via Capire – Transcrição por Vivian Fernandes (AIP) e Edição por Helena Zelic

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