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Apontamentos – XIX | Dr. Rosinha

Paisagem

Passava das quatro da tarde, o sol escondido atrás das nuvens, suavizava a temperatura. Da janela vejo o aparente vazio, repleto de coisas a serem enxergadas.

Do outro lado da rua, os galhos de uma árvore se estendem, rumo às nuvens, buscam…, o infinito? Em um dos galhos, duas pombas rolas namoram.

Observo-as, e assim permaneço por cerca de 20 minutos. Se bicam em beijos, se acariciam, com carícias de pombas, entrelaçando os pescoços e em curto tempo, por três vezes – a mesma sobe na outra – fazem sexo. Terminavam o ato, não se separavam, e lado a lado continuavam com as carícias.

Não é a primeira vez que observo este comportamento amoroso entre pombas.

Foto: Pixabay

Outras vezes assisti, no telhado do prédio vizinho, casais de pombas, destas que evacuam, parece que propositadamente, nos vidros das janelas e das sacadas de nossas casas e apartamentos, cenas de amor e sexo explícito. Ousadas, não importam se estão ou não sendo acompanhadas. Fazem isso a qualquer hora do dia.

Conversa na roça

– Vamo pra sombra, é mió pra proseá.

Fomos para a sombra:

– Inté agora – era cerca de meio dia de um sábado – não conversei com ninguém e tou com tempo de sobra. Aqui na sombra, é mió.

Chapéu de palha, aba larga, camisa de algodão de manga comprida, e um pouco suja. Calça de brim, bota de cano curto, barba por fazer e na boca faltando, no mínimo, uma meia dúzia de dentes.

Seu Antônio, já passou do 50, vive na e da roça. Senti, pela conversa, que ultimamente vive mais só que acompanhado e é desconfiado.
Por ser a primeira vez que me vê, demora primeiro em abrir a porteira para que eu possa entrar e, segundo, em arrancar a conversa.

Depois de ganhar uma mínima confiança, com sua fala calma, pausada e sem pressa, me convida:

– Vamo pra sombra, é mió pra proseá.

Na sombra conversamos – mais ouvi que falei – sobre a qualidade da terra, produção agrícola, como tratar os animais e sobre a vida dele. Com tristeza lembra da namorada/mulher que perdeu para um câncer há poucos meses.

– Ela era uma muié valorosa, alegre e que só me deu alegria. De tardezinha, nóis encilhava os cavalo e saía por esse estradão, pra esse mundo, conversando e passeando. Não tinha pressa em vortá, era bão.

Conversamos pouco, mais ou menos 40 a 50 minutos. Sai de lá com vontade de vortá.

Curitiba

Cheguei no cartório, peguei a senha logo na entrada da sala, e procurei um lugar para sentar. Quatro homens, de várias idades, sentados.

– Bom dia. Falo em voz alta para todos ouvirem.

Dois tiram os olhos do celular, erguem a cabeça e me olham. Dois sequer fazem isso, mas nenhum responde.

Cada vez mais concluo que os cumprimentos de bom dia, boa tarde e boa noites estão se acabando.

No ônibus

Um senhor entrou.

O rapaz sentado no banco em frente ao que estava levantou-se e ofereceu o lugar. O senhor, sem cerimônia, aceitou e sentou-se, olhou para o rapaz já de pé e disse:

– 82 anos. Obrigado!

– Não parece, o senhor está forte.

Concordei com a opinião do moço.

O senhor imediatamente começa:

– Você é daqui?

– Não, sou de Cuiabá – responde.

– Eu nasci aqui e daqui nunca saí.

A conversa, que não acompanhei, foi mantida até o ponto final, Praça Rui Barbosa, onde descemos. Ao despedirem-se, ainda dentro do ônibus o senhor disse:

– Vou para a Boca Maldita, como faço todo sábado, para conversar.

– Vou para a Praça Osório jogar capoeira, disse o rapaz.

Observei que juntos saíram caminhando rumo à Praça Osório.

*

O alcaide, Rafael Greca, não tem oportunidades de assistir diálogos ou mesmo dialogar dentro dos ônibus. Tampouco tem a oportunidade de assistir às peripécias verbais dos vendedores ambulantes que procuram vender seus produtos dentro dos ônibus.

Há também as peripécias dos que ficam nas estações-tubos de embarque e desembarque postados no rumo das portas 2 e 4, principalmente da 4, para entrar no ônibus, no momento exato momento antes da porta fechar.

A voz eletrônica anuncia:

– Portas fechando.

Os passageiros indesejáveis, imagino, rápidos saltam para dentro.

O alcaide só viaja em ônibus onde os passageiros são de faz-de-conta, são sua assessoria.

Dr. Rosinha é médico aposentado e ex-deputado.

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