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As eleições presidenciais, o discurso da corrupção e a política em Minas Gerais

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O segundo turno das eleições presidenciais está marcado pela continuidade da polarização entre esquerda e direita, disputa que está cada vez mais viva. Na boca da direita dois discursos se destacam para derrotar o ciclo de profundas transformações no campo do desenvolvimento econômico, aprofundamento da democracia e justiça social orquestrados pelo governo PT – a corrupção e a economia. Para tal, Minas Gerais é evocado como caso de sucesso da administração tucana, uma grande falácia.

No campo da corrupção, o discurso vem sendo construído baseado na ideia de que trabalhadores não tem competência para dirigir o país, que o PT é o partido mais corrupto da história e que a corrupção está sempre distante daqueles que pregam sua extinção. Num mar de honradez, são os políticos de esquerda que corromperam a coisa pública. Nesse sentido, o PT é associado por eles como uma organização criminosa, que deve ser combatida por qualquer meio.

Esse discurso é tão perigoso, quanto equivocado. Como bem se referiu a candidata Dilma Rousseff, a corrupção está presente nas relações mais corriqueiras da nossa sociedade e, portanto, ninguém está, a priori, livre de seus tentáculos. Conforme afirma o Prof. Doutor Fernando Filgueiras, em artigo que analisa as percepções sobre a corrupção no Brasil, há uma percepção de que o tema da corrupção relaciona-se somente ao Estado (políticos e funcionários públicos) e não a se pratica na dimensão da sociedade[1].

Um exemplo importante de como os circuitos de corrupção abrangem setores mais amplos, é o caso da apreensão de 450 kg de cocaína no helicóptero do senador Zezé Perrella, que envolveu um funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, um empresário do mundo do futebol e também proprietários de um hotel de luxo da região onde a droga foi descarregada, demonstrando como a corrupção tem fortes relações não só com a política, mas com o tráfico de drogas, o mundo do futebol e o setor privado. Infelizmente nem a mídia, nem a justiça deu importância para esse fato[2].

A corrupção, de fato, nunca foi tão combatida no Brasil, seja pela criação da Controladoria Geral da União, o portal da transparência, seja no aumento das operações da Polícia Federal. Um marco fundamental para encarar a corrupção na sociedade foi, sem dúvida, a aprovação da Lei 12.846/2013 que pune as empresas envolvidas em atos de corrupção. Antes quem respondia eram os funcionários e não as empresas, se estas declaravam que não sabiam do ocorrido.

 

Por fim, Minas Gerais está no centro das disputas nacionais, que passam por considerações em torno de quem dos dois candidatos é legitimamente mineiro, algo que não interessa em nada o debate político, até visões sobre como o estado tem sido administrado pelo PSDB por mais de uma década. Este ponto é fundamental.

Os movimentos sociais mineiros têm, ao longo desse período, denunciado os desmandos do PSDB em Minas Gerais, com uma voz que teve muita dificuldade de ecoar, já que uma das principais formas de governar dos tucanos no estado tem sido a de controlar a impressa[1] e fazer absurdos investimentos em publicidade. Andreia Neves, irmã do candidato e responsável pela sua projeção, coordenava a distribuição de recursos do governo para os canais de comunicação. Além do nepotismo, ela é acusada de beneficiar rádios pertencentes à família e também de usar as verbas para pressionar a demissão de jornalistas que criticassem o governo.

A ideia do “Choque de Gestão”, marca da administração pública do PSDB em Minas legitimou a ideia de que os problemas políticos são considerados problemas de gestão e que o motor da “eficiência” é a meritocracia. O jeito tucano de governar Minas significou falta de investimento em áreas fundamentais como saúde, educação, segurança pública[2]. Além disso, alguns dos programas que contam com maior visibilidade, como o programa “Poupança Jovem”, inclusive proposto como política para o Brasil por Aécio, tem uma cobertura ínfima (hoje atende 9 municípios entre 853), tem problemas no depósito aos estudantes e orçamento menor do que orçamento do governo em publicidade.  A propaganda deste programa foi veiculada em horário nobre da TV.

A administração “eficiente” dos tucanos permitiu que uma das primeiras ações do então eleito governador Anastasia fosse a criação de 1314 cargos comissionados na administração estadual, através da lei delegada 182 em 2011. A ideia de déficit zero propagada pelo Aécio Neves, durante seu governo, não se passou de uma mentira, afinal a dívida bruta do Estado cresceu 127% de 2002 a 2013 e hoje é possível afirmar que temos um estado quebrado.

Como os temas da corrupção e da administração em Minas Gerais permearam os debates eleitorais do segundo turno, é fundamental separar a retórica de Aécio, da real situação de Minas e das deturpações em torno do tema da corrupção. Agora no centro das atenções nacionais, os erros dos tucanos não podem ser mais mascarados e isso já é um ganho para a sociedade mineira, que nunca teve direito de ser amplamente informada, nem de participar ativamente nos rumos políticos do estado. Liberdade ainda que tardia, é o que queremos!

 


[1] Doutoranda em Ciência Política pela UFMG e militante da Democracia Socialista do PT.

[2] FILGUEIRAS, Fernando. A tolerância à corrupção no Brasil: uma antinomia entre normas morais e prática social. Opinião Publica vol.15 no.2 Campinas Nov. 2009.

[3] Para maiores esclarecimentos do caso ver o documentário: “Helicoca: o helicóptero de 50 milhões de reais” disponível no link http://www.youtube.com/watch?v=wwZ0Lvtt8A4

[4]
Para maiores esclarecimentos sobre a blindagem da mídia no governo Aécio, ver o documentário “Liberdade, essa palavra”, disponível no link http://www.youtube.com/watch?v=Y7t20KC068Q

[5] Para dados mais aprofundados sobre essa realidade ver o artigo do Rogério Cerqueira Leite, prof. da Unicamp, intitulado “O choque de indigestão de Aécio”, publicado na Folha de São Paulo. Disponível no linkhttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/190994-o-choque-de-indigestao-de-aecio.shtml

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