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BH: O PT unido com o PSB mas sem o PSDB

121026Por Juarez Guimarães *

A tese da repactuação da aliança com o PSB do prefeito Márcio Lacerda, em Belo Horizonte, foi vitoriosa com 53 % dos votos (255 delegados) contra 47 % (224 delegados) para a proposta dos que antes defendiam candidatura própria do PT para as eleições municipais de 2012.

 

Há duas eleições municipais neste ano que, por razões fortes, vinculam-se diretamente aos destinos das eleições presidenciais de 2014: a de São Paulo e aquela de Belo Horizonte. A definição do PSDB por Serra, apesar de uma vitória apertada nas prévias internas (52 % dos votos), nacionaliza fortemente as eleições na capital paulista. Uma eventual vitória de Serra quase certamente reporá seu nome na disputa que hoje se trava no interior do PSDB para a definição do candidato oposicionista à Presidência da República. Uma derrota possível do candidato tucano certamente encerrará a sua vida política pública, confirmando a candidatura de Aécio à presidência. Além disso, sinalizará fortemente para o aprofundamento da crise do PSDB e de sua capacidade de disputa em 2014.

Em Belo Horizonte, jogam-se fortemente os destinos das relações do PSB com o PT e o PSDB. Como se sabe, Aécio Neves, hoje o candidato mais aclamado pela direção nacional do PSDB, inclusive e principalmente por Fernando Henrique Cardoso, tem uma estratégia diferente daquela tradicionalmente adotada apor Serra: pretende recompor programaticamente o PSDB com o núcleo programático radicalmente neoliberal que se organiza em torno de Pedro Malan e Edmar Bacha e, ao mesmo tempo, abrir o leque de alianças para a centro-esquerda partidária, visando principalmente uma aliança com o PSB.

Em Minas, o PSB já participa organicamente do governo tucano. E em Belo Horizonte, a proposta em 2008 liderada pelo ex-prefeito petista, Fernando Pimentel, levou a uma esdrúxula aliança na capital mineira do PT com o PSDB através de um nome vinculado ao PSB, Márcio Lacerda. Assim, sob o governo do PSB de Márcio Lacerda, PT e PSDB dividem cargos e responsabilidades na prefeitura mineira.

Diante deste quadro, para a eleição dos delegados para o encontro municipal recém realizado no dia 25 de março, três propostas mobilizaram os petistas: a tese da candidatura própria, que obteve cerca de 40 % dos votos; a tese da repactuação com o PSB sem a presença do PSDB que, apresentada por duas chapas, Articulação e “Beagá: unidade e democracia para avançar” (vereador e atual líder da bancada do PT, Adriano Ventura, Mais, Articulação Democrática liderada pelo deputado Reginaldo Lopes e Democracia Socialista), obteve cerca de 17 % dos votos; os que defendiam simplesmente a repetição da aliança com o PSB, sem colocar em questão a exclusão do PSDB, obtiveram 43 % dos votos.

Unidade contra o PSDB

No forte e tenso encontro dos delegados realizados no dia 25 de março, os que antes haviam obtido 43 % dos votos reposicionaram-se a favor da tese da repactuação com o PSB, sem a presença do PSDB. Antes o vice-prefeito e atual presidente do PT de Belo Horizonte, Roberto Carvalho, já havia anunciado uma autocrítica em relação às posições que defendera em 2008 a favor da aliança com o PSDB, e passou, mais explicitamente desde o fim de 2011, a defender a tese da candidatura própria do PT. No encontro, importantes lideranças do PT mineiro como o ex-deputado Virgílio Guimarães, Miguel Correa Júnior, Paulo Lamac se distanciaram autocriticamente do “erro de 2008”. O companheiro Patrus Ananias, apoiador da tese da repactuação, que já havia feito uma rodada de duras polêmicas recentes com os tucanos no estado, recebeu do Encontro uma unânime e calorosa acolhida.

Assim a defesa da continuidade de uma aliança com o PSDB – defendida como uma medida positiva de ampliação das alianças pelo atual ministro Fernando Pimentel – não se manifestou politicamente no Encontro. Se em 2008, apenas 10 % dos delegados presentes manifestaram-se contra a aliança com o PSDB, agora 100 % dos presentes votaram em duas teses que, de modo diferente, defendiam a exclusão do PSDB da aliança.

Esta foi, sem dúvida, a maior vitória política do encontro de domingo: a plena recuperação do espírito de oposição ao neoliberalismo. A aliança com o PSDB havia minado a identidade do PT da capital mineira, levando à perda de sua unidade e a uma problemática diluição na administração Márcio Lacerda. O fato do presidente do partido ser também o vice-prefeito tornou as relações do PT com a gestão da cidade, compartilhada com o PSDB, ainda mais confusa.

Este novo momento de recuperação de identidade e de maior unidade do PT mineiro é decisivo para enfrentar o projeto de Aécio Neves à presidência. Ele coloca o PT em sintonia com importantes alterações na conjuntura política e dos movimentos sociais no estado. Em 2010, os professores da rede estadual já haviam realizado uma das greves mais importantes e longas da história do movimento sindical mineiro pela aplicação do piso salarial mínimo, defendido pelo governo federal. O forte desgaste do governador Anastasia foi evidente. Em 2010, estruturou-se também na Assembleia Legislativa do estado o bloco de oposição, unindo a bancada do PT a setores do PMDB, a partir da liderança muito dinâmica e combativa do deputado petista Rogério Correia.

A disputa pela unidade com o PSB

Neste clima de retomada de posições do PT e de insatisfação com a gestão do PSB, aliada com o PSDB, não é de se espantar que a proposta de candidatura própria do PT, aliada ao PMDB, tenha encontrado forte apelo na base do partido. Além das bases do próprio presidente do partido, Roberto Carvalho, ela veio a aglutinar a Tendência Marxista, do deputado Rogério Correia, além da adesão recente de vereadores petistas insatisfeitos com a gestão municipal (Neuza Santos e João da Locadora). Na própria Articulação formou-se uma corrente pública minoritária, mas expressiva, em torno da liderança do vereador Arnaldo Godoy, a favor da candidatura própria.

No Encontro Municipal do dia 25 de março, os adeptos da candidatura própria recusaram-se, após longas e exaustivas reuniões, uma convergência com a tese da repactuação da aliança. Com o intuito de demarcar um campo alternativo e, no limite, repor a própria candidatura própria, queriam que o Encontro definisse, como exigência, sem diálogo e negociações com o PSB, a retirada do PSDB da coligação.

A diferença decisiva dizia respeito exatamente sobre qual a relação do PT com o PSB: colocar no centro de sua tática política o enfrentamento com o PSB através de uma candidatura de oposição na cidade ou abrir-se a uma difícil mas necessária repactuação com o PSB, reivindicando a exclusão do PSDB da aliança.

Ora, do ponto de vista dos defensores da tese da repactuação, a candidatura própria e de oposição do PT, teria muito provavelmente repercussões negativas gravíssimas no plano municipal, estadual e nacional. No plano municipal, porque dificilmente seria vitoriosa: um candidato, cuja popularidade teria ainda que ser testada, enfrentaria uma aliança duríssima entre o PSB de Márcio Lacerda e o PSDB de Aécio Neves. De modo algum, estaria descartada uma derrota ainda no primeiro turno.

Nestas eleições, formar-se-ia inevitavelmente um palanque das lideranças nacionais do PSB, os governadores de Pernambuco e do Ceará, com Aécio Neves contra o PT. Um verdadeiro desastre político! Muito provavelmente, o PSDB mineiro lançaria Márcio Lacerda para o governo do estado, consolidando uma aliança de forte repercussão nacional com o PSB e, ao mesmo tempo, passando a governar Belo Horizonte.

A tese da repactuação sem o PSDB, afinal vitoriosa no Encontro Municipal, neste contexto, teve uma construção extremamente difícil. O fato de ser vitoriosa já significa uma profunda derrota para os planos de Aécio Neves para 2014.

Consolidar a vitória política

A vitória política obtida pela tese da repactuação com o PSB, sem o PSDB, abre um novo período decisivo para o PT de Belo Horizonte.

O prefeito Márcio Lacerda, de fato, já convidou oficialmente o PSDB para participar oficialmente da coligação. O PT de Belo Horizonte já se posicionou fortemente de modo contrário à participação na coligação dos partidos que fazem oposição ao governo Dilma Roussef: PSDB, DEM e PPS. É preciso que esta manifestação política, amadurecida e correta aprovada pelos petistas mineiros, receba um forte apoio da direção nacional do PT, das próprias lideranças nacionais de Lula e Dilma Roussef, nas negociações a serem feitas com o PSB. A posição dos petistas na capital mineira certamente facilitará o apoio do PSB a candidatos petistas em cidades chaves como Contagem, Juiz de Fora e Uberlândia. Ela consolida a direção dos posicionamentos do PSB de apoiar candidatos do PT em São Paulo, Recife e Fortaleza. Não se trata de desautorizar o prefeito mas de construir com ele uma solução política que se oriente pela histórica relação de fraternidade com o governo Lula e com o governo Dilma.

Está também em negociação com o PSB, pela resolução aprovada, a construção de uma coligação do PSB com o PT nas eleições para a Câmara de Vereadores. Ela é muito importante para ajudar o PT e o PSB a crescerem e qualificarem suas bancadas na Câmara Municipal.

Finalmente, será definido no dia 15 de abril a indicação pelo PT de um candidato a vice-prefeito. A luta dos companheiros que assinaram a tese da repactuação é que esta candidatura reflita as teses majoritárias no encontro, expressando os conteúdos programáticos democrático- populares e a firme oposição à participação do PSDB na coligação.

Leia aqui as diretrizes aprovadas pelo Encontro Municipal do PT de Belo Horizonte.

* Juarez Guimarães é cientista político, professor da UFMG e membro da Coordenação Nacional da DS.

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