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Clarissa Alves da Cunha: “É necessário inserir a luta feminista no centro da luta pela transformação da sociedade”

684314Do site da UNE

Oito de março de 2007. Além das comemorações do Dia Internacional da Mulher no Brasil, as ruas do país estavam tomadas pelos movimentos sociais em protesto contra a presença do presidente norte americano George W. Bush, o “senhor da guerra”, no país. A estudante de Ciências Sociais da PUC-Rio, Clarissa Alves da Cunha, na época com 20 anos, lembra-se muito bem das manifestações na capital carioca.

Para ela, era o começo de uma militância marcante no movimento estudantil que passaria depois pelo Diretório Central dos Estudantes da sua universidade, pela União Estadual dos Estudantes (UEE-RJ) e pela UNE, de qual seria eleita vice-presidenta na gestão 2011/2013 que se encerra agora durante do 53º Congresso da entidade, em Goiânia, de 29 de maio a 2 de junho.

Clarissa se orgulha em ser de esquerda, socialista, feminista, e discursa sobre suas convicções sem medo de aborrecer. Afirma que ainda existem obstáculos que impedem um debate mais amplo sobre o machismo. “É necessário inserir a luta feminista no centro da luta pela transformação da sociedade”, diz.

Critica o capitalismo e faz uma chamada a toda a juventude para rever os valores da atual sociedade. “É fundamental incorporar a aquisição de novos direitos sociais como algo mais importante do que o poder econômico, a substituição da mercantilização da vida por aquisição de novos direitos”, pontua.

Nessa entrevista, após dois anos à frente da UNE, Clarissa diz que faz parte de uma geração que vai conquistar uma vitória de grandes dimensões, os 10% do PIB para a educação pública. Defende a política de cotas e responde a críticas feitas à entidade.

Confira a íntegra abaixo:

Como você conheceu o movimento estudantil ?

Clarissa Alves da Cunha – Eu conhecia a história da UNE, mas, meu primeiro contato foi através do meu Centro Acadêmico (de Ciências Sociais) da PUC-Rio. Já a primeira atividade que participei foi a organização da Semana Acadêmica do meu curso. Um ato de rua marcante no início da minha militância, foi o de 8 de março de 2007, que casava com a vinda do Bush ao Rio de Janeiro.

Depois fui integrante do DCE da PUC-Rio durante algumas gestões, ocasião em que fundei com algumas meninas o Coletivo de Mulheres Estudantes e alguns anos depois fui também da UEE-RJ de 2009 que conquistou a meia-passagem para cotistas e prounistas.

Como é ser jovem e de esquerda, atualmente, no Brasil?

Primeiro, acredito que exista hoje no Brasil um cenário de polarização entre basicamente dois grandes projetos em disputa na sociedade. Um deles foi implementado durante os anos 90, através dos governos FHC. O outro, foi implementado nos últimos 10 anos de governo do PT.

Se observarmos, qualquer posição fora desta disputa é, na prática, meramente residual. Logo, na minha opinião, se o modelo de governo implementado nos anos 90 foi o neoliberal, ser de esquerda hoje no Brasil é se contrapor a este projeto, portanto, é ser anti-neoliberal. Ou seja, defender o papel fundamental do Estado na organização da economia, defender a participação e mobilização dos movimentos sociais e basicamente a substituição da mercantilização da vida por aquisição de novos direitos.

No entanto, este campo de políticas antineoliberais pode ser bem amplo, por isso, faço sempre questão de afirmar que sou socialista e que, para além da disputa atual para a superação do neoliberalismo, tenho como objetivo maior a superação do próprio capitalismo.

Atualmente, presenciamos a participação bem considerável de mulheres na UNE. A diretoria executiva da entidade, por exemplo, tem quase a metade de integrantes mulheres. Existe ainda muito machismo no movimento estudantil?

Hoje as mulheres representam mais da metade do corpo discente da universidade, existe uma maior presença delas nos espaços públicos e muitas vezes isto é visto com mais clareza nos espaços de vanguarda política, como nos movimentos sociais. Tendo em vista que o machismo e o patriarcado ainda são pilares que sustentam o sistema atual vigente, o movimento social, por não ser uma ilha isolada da sociedade, não está isento desta realidade.

Logo, dentro do próprio movimento estudantil ainda se reproduzem muitas práticas machistas. E é sempre bom lembrar que o espaço público, onde se situa a política e consequentemente o movimento estudantil, ainda é um espaço predominantemente masculino.

Tendo em vista esta avaliação, é importante destacar que a UNE vem avançando no enfretamento ao machismo dentro e fora da entidade com grandes campanhas de combate ao machismo na sociedade e a adoção de medidas importantes dentro da estrutura da entidade e nos seus fóruns

Na sua gestão foi realizado o 5o encontro de Mulheres Estudantes da UNE (EME). Por que fazer um encontro autogestionado voltado somente para discutir os assuntos relacionados à luta das mulheres?

Um encontro apenas de mulheres garante o debate referenciado em experiências e pautas que somente as mulheres compartilham por sofrerem na pele a opressão machista. A UNE chega ao seu 5º EME consolidando sua política no combate ao machismo. Os EMEs, que são fóruns auto-organizados, têm produzido formulações com muita unidade na luta contra a opressão das mulheres. A aprovação da cota de 30% da diretoria da entidade, as campanhas contra trotes machistas, a luta por creches, a campanha pela legalização do aborto, a garantia de mesas e debates referente à luta das mulheres nos fóruns da UNE, mecanismos de combate ao machismo no dia a dia do movimento estudantil são todas lutas que surgem e ganham corpo nos encontros.

São todas defesas apresentadas com muita unidade por todos os campos que compõe o movimento estudantil. Além disso, o EME é um espaço onde muitas meninas pela primeira vez se sentem à vontade para falar em público e serem ouvidas. Muitas, também, começam a participar do movimento estudantil através dos EME e de espaços auto-organizados.

Como ser feminista no dia a dia, na universidade, sem parecer ranzinza ou separatista?

É importante tratar do debate feminista com seriedade dentro dos movimentos sociais, entendendo que qualquer afirmação de vontade de transformação da realidade, necessariamente, tem que passar pelo combate ao machismo. Não se pode separar a luta feminista da luta pela transformação da sociedade. Logo, a resistência que a luta feminista enfrenta no dia a dia da universidade tem como fundamento justamente o fato dela evidenciar com grande clareza as contradições da nossa sociedade.

Assim, uma das formas de minimizar esta resistência é pautar com centralidade as bandeiras da luta feminista e não torná-las secundárias em prol de uma unidade que supostamente constitui pautas mais relevantes. O próprio fato de existir este estigma só reforça a necessidade de inserir a luta feminista no centro da luta pela transformação da sociedade. O fato dessa pauta apresentar mais resistência do que outras é que talvez haja ainda um obstáculo maior que os outros.

Uma das pautas da Jornada de Lutas da Juventude foi a denúncia do extermínio da juventude, principalmente os jovens negros da periferia. Como a UNE vê essa questão?

Dados do Ministério da Saúde mostram que metade das vítimas de homicídios no Brasil têm entre 15 e 29 anos e sete de cada dez jovens assassinados são negros, sendo mais de 90% do sexo masculino. Esses dados são alarmantes! A UNE junto a outros movimentos de juventude tem se dedicado a essa luta. É importante destacar a centralidade dada ao tema na Jornada de Lutas da Juventude Brasileira no início desse ano.

E não só isso. O fato da UNE ter uma Diretoria de Combate ao Racismo, que em diálogo com o movimento negro, tem construído pautas importantes para a juventude negra, também demonstra a importância dada pela entidade para esta luta específica.

A defesa das cotas raciais, uma bandeira defendida já há muito tempo pela UNE como central para a democratização da universidade e da sociedade, vem justamente da análise da entidade de que a juventude negra exerce um papel fundamental para o avanço de um projeto de esquerda.

As políticas de cotas ainda causam polêmica e ouvem-se e leem-se algumas posições contrárias. Qual a sua opinião sobre a política de cotas? Para você, a sociedade brasileira tem compreendido seu verdadeiro sentido?

Sou favorável a todos os tipos de cotas. As cotas raciais são fundamentais para tentar minimizar uma diferença social existente entre negros e brancos construída historicamente. Acredito que avançamos consideravelmente, na última década em especial. Logicamente ainda é algo a ser disputado na sociedade com grande prioridade, mas é inegável que hoje temos a opinião pública muito mais favorável. A aprovação das cotas raciais no Congresso Nacional, o julgamento pela constitucionalidade de sua aplicação e as recentes publicações até mesmo da grande mídia dando conta dos resultados exitosos das políticas de cotas são exemplos claros disto.

E mais, vemos até os representantes dos setores mais conservadores da sociedade ter que darem declarações de que defendem tal política, como ACM Neto e Geraldo Alckmin. Ou seja, os setores mais conservadores que antes até mesmo utilizavam a pauta anticotas para angariar alguns votos da esquerda, passaram a ter que defendê-las para não perder votos. Passaram claramente da ofensiva para a defensiva.

A UNE é muito cobrada, principalmente por meio das redes sociais, por defender muitas bandeiras com o governo. Como você responde a essas críticas?

Como disse anteriormente, acredito que existem dois grandes projetos em disputa neste momento na sociedade e cabe a todos os atores do campo da esquerda dialogarem entre si para que a pautas históricas e novas que significam avanços para a nossa sociedade sejam implementadas de fato. A partir do momento que avaliamos que o atual governo contribui para o projeto de superação do neoliberalismo, passa a ser fundamental que não o encaremos com uma postura idêntica da que tivemos contra um governo neoliberal.

Mas isto não significa que cumpramos o mesmo papel que o governo, pois é algo fundamental para nós que tenhamos independência. Nossa relação com o governo é necessariamente uma relação de tensão constante no sentido de tentarmos fazer valer as pautas dos movimentos sociais. Logicamente existem várias táticas para isto, que vão do diálogo à mobilização e pressão pública em diferentes momentos e temas.

Um bom exemplo desta relação que envolve diálogo, negociação e pressão popular se deu agora para a aprovação dos 10% do PIB e a destinação dos royalties do petróleo para a educação. Ambas as pautas foram construídas pelos movimentos sociais, com destaque para a atuação da UNE, sendo que foram várias as ações adotadas para que tal pauta se tornasse provável no presente momento.

Durante o EME você falou muito sobre mudança de valores nos jovens brasileiros. Que mudança é essa? Essa mudança é possível? O que te faz acreditar nisso?

Nos últimos 10 anos existe uma luta pela superação do neoliberalismo e esta luta desconstruiu importantes dogmas neoliberais, como a política de aumento do salário mínimo, políticas de universalização da educação, inclusive no ensino superior, a redução da desigualdade por intermédio de ações diretas do Estado etc. Há ainda um sentimento geral junto à nossa juventude de que o Brasil terá um bom futuro pela frente. Agora, é fundamental que a juventude se paute por valores que contribuam nesta caminhada de um país mais justo e solidário. Ou seja, após a implementação de políticas pós-neoliberais, é importante que os valores que baseiam essas políticas sejam incorporados como fundamentais para o avanço do nosso país e que superemos os valores que sustentam o modelo neoliberal.

Assim, é fundamental que a juventude incorpore a aquisição de novos direitos sociais como algo mais importante do que o poder econômico de contratar serviços privados. Ou seja, trata-se reconstruir a importância da primazia do público sobre o privado. Pautas que claramente contribuem para isso são a da valorização do SUS contra a expansão dos planos de saúde, a da Reforma Política com financiamento público de campanha e o marco regulatório da mídia, que coloca os cidadãos com mais direitos e os grandes conglomerados de mídia nacionais com menos privilégios econômicos, possibilitando sua democratização.

Para a sua geração, o que representa a conquista dos 10% do PIB para a Educação Pública?

É a grande vitória da nossa geração. Não só pelo significado da aprovação de tal política, que faz com que se trate a educação pública prioridade inédita após a redemocratização, mas também pelo fato de tal luta ter sido construída desde o seu começo com protagonismo da UNE.

Como vice-presidenta da UNE, imaginamos que o seu dia a dia deva ser bem corrido. Tem tempo de ir ao cinema, ler um livro, namorar? O que gosta de fazer no tempo livre?

A opção por militar é algo que, apesar de ser bem trabalhoso, é bastante gratificante. Logo, o tempo dedicado a ela é bem prazeroso. Mas sem dúvidas sempre temos que arrumar um tempinho para passar nosso tempo livre ao lado de pessoas queridas. Procuro, sempre que posso, passear. Gosto, principalmente, de ir ao cinema e, também, curtir minha sobrinha. Em relação à leitura estou acabando o quinteto islâmico do Tariq Ali.

Por Cristiane Tada e Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella

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