Notícias
Home / Conteúdos / Artigos / Cuba defendida | José Ernesto Nováez Guerrero

Cuba defendida | José Ernesto Nováez Guerrero

Nós, cubanos, vivemos o dia 11 de julho com espanto, tensão e incerteza. O que começou com um protesto no município de San Antonio de los Baños, na província de Artemisa, rapidamente se espalhou por todo o país, levando muitos de nós a sair às ruas para defender projetos de país muitas vezes conflitantes.

Compreender os acontecimentos em toda a sua complexidade é essencial para o futuro da ilha. O que aconteceu mostra fraturas e desafios que é preciso, como povo, assumir e resolver para evitar cenários de uma escalada maior de tensões.

Crise econômica e de saúde

Em primeiro lugar, existe a crise econômica e de saúde gerada pela pandemia de Covid-19 em escala global e que atingiu duramente todas as economias, especialmente as mais pobres. Em Cuba, com uma economia constantemente pressionada pelo bloqueio dos Estados Unidos e um subdesenvolvimento estrutural que não foi possível superar, esse impacto foi reforçado.

Como consequência, cria-se um cenário de carências, reajustes, distribuição racionada de bens de consumo básicos, escassez de medicamentos e irregularidades nos serviços, o que contribui para tornar extremamente complexo o cotidiano do cubano comum. Como se não bastasse, nas últimas semanas ocorreu uma nova onda de infecções sem precedentes no país. Congestionou os serviços de saúde em quase toda a ilha e levou a novas medidas restritivas na tentativa das autoridades de conter a enxurrada de novos casos.

Bloqueio econômico e ingerência dos EUA em Cuba

Para entender a eclosão do domingo 11, é necessário levar em conta a estratégia sustentada de subversão da ordem interna em Cuba pelo governo dos Estados Unidos. Esta estratégia, que remonta ao início da Revolução, passou por várias fases, incluindo o apoio à contra-revolução armada interna no início dos anos 1960, ataques e sabotagens contra infra-estruturas de serviços ou produtivas, introdução de vírus e doenças, como a febre suína e a dengue hemorrágica.

Ao longo dos anos, o mecanismo de sanções que visa sufocar qualquer rota de liquidez para a economia cubana foi ampliado e aperfeiçoado. Essas medidas, cujo caráter extraterritorial Cuba e a Assembleia Geral das Nações Unidas já condenaram em numerosas ocasiões, contribuem para dificultar significativamente a dinâmica interna do país, servindo de incentivo à insatisfação social.

A irrupção das redes sociais no cotidiano dos cubanos introduziu mais um elemento para essa estratégia de subversão. Essas redes são empresas capitalistas privadas com claros compromissos ideológicos com a elite mundial, são atores políticos de subversão comprovada em inúmeros cenários internacionais. Basta lembrar seu papel nas revoluções coloridas ou na chamada Primavera Árabe. Em nosso continente podemos destacar seu papel no golpe na Bolívia em 2019.

O analista espanhol Julián Macías Tovar demonstrou como o rótulo SOSCuba foi construído e ampliado usando bots, envolvendo celebridades e conseguindo gerar circuitos de opinião que promoviam instabilidade no país. Notícias, fotos e vídeos falsos também têm sido usados ​​intensamente para criar a matriz de que há uma grande instabilidade interna e que a polícia tem sido repressiva. Nesta campanha de assalto simbólico, o menos importante é a verdade, mas o lucro a curto prazo em termos de concretização de ações e reações a nível nacional e internacional.

Nesse sentido, a intenção é manipular os acontecimentos recentes para colocar a questão de uma invasão militar humanitária na agenda política dos Estados Unidos, apelando para um suposto colapso interno.

Desafios e contradições a resolver

Para os cubanos da ilha, o ocorrido em 11 de julho apresenta desafios e contradições que devemos resolver como sociedade para garantir um desenvolvimento harmonioso. O mais importante é como conseguir um maior grau de democracia e participação popular sem fraturar a unidade nacional, tão importante para enfrentar as constantes agressões dos Estados Unidos. E como extensão disso, é como construir laços sólidos entre a nação e a emigração, de modo que esta não acabe atuando como instigadora de agressões e perseguições contra seu país de origem.

É necessário alcançar uma penetração social mais profunda nas estruturas de participação e assistência social criadas pela Revolução. Entre os manifestantes de 11 de julho contra a Revolução, muitos defenderam posições anexionistas, contra as quais lutou José Martí, que entendeu com total lucidez que por trás dessa posição política se escondiam interesses expansionistas.

A luta contra o anexacionismo, que tem na indústria cultural de Miami e os símbolos que fabrica seus emblemas vitais na atualidade, é uma das tarefas principais. Mas essa luta é também contra as formas ideológicas de dominação do grande capital.

Essas horas de dificuldade não podem nos fazer esquecer as perspectivas que se abrem para o país, principalmente com a vacina Abdala. Antes do final de agosto, o governo estima que terá inoculado mais de 60% da população, o que pressagia um cenário de progressiva normalização da vida no país e a volta do turismo, vital para a economia.

Cuba não está só 

Além disso, é uma satisfação constatar que Cuba nunca esteve e nunca estará só. Muitos países e inúmeros amigos ao redor do mundo levantaram suas vozes em defesa da ilha rebelde.

Aqueles de nós que saímos às ruas no dia 11 de julho gritando “pátria ou morte” não desejamos mal a ninguém, apenas expressamos a convicção de defender com a vida aquilo em que acreditamos. Apesar da imagem que a mídia empresarial e as redes sociais têm tentado construir, os revolucionários cubanos não são violentos. Em Cuba tem havido um diálogo incansável, mas a linha vermelha sempre será a defesa da soberania como obra coletiva de justiça social.

Um país que se constrói permanentemente no exercício constante de todos os cubanos, que cresce diante das dificuldades, que avança entre o escárnio e a mentira. Um pequeno arquipélago que teve a audácia de construir um processo social dos humildes, pelos humildes e para os humildes. Por isso, por todos esses motivos e por muitos mais, Cuba está eternamente defendida. (18 de julho de 2021)

  • José Ernesto Nováez Guerrero é um escritor cubano, autor de “El sueño de la razón”, vive em Santa Clara (Villa Clara), Cuba. 

https://www.facebook.com/joseernesto.novaezguerrero

Fonte: La Jornada – https://www.jornada.com.mx/notas/2021/07/18/politica/cuba-defendida-20210718/

Tradução: Lúcio Costa

Veja também

O Brasil é um país sem futuro? | Entrevista

Reproduzimos aqui a entrevista que João Manuel Cardoso de Mello proporcionou à Revista Focus Brasil. …

Comente com o Facebook