As Big Techs resultam de uma nova ordem na aliança entre capital e técnica cujos efeitos ainda não são totalmente perceptíveis

Estamos diante de uma fronteira humana e tecnológica desconhecida. A Inteligência Artificial Generativa produziu novos seres de linguagem. “Hoje, nós estamos falando de tecnologias nas quais a máquina se torna um sujeito de linguagem. Isso é um problema de todo tamanho”, pontua o professor, pesquisador e escritor Eugênio Bucci, em entrevista por videochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Se a máquina se comporta como um sujeito de linguagem e se a máquina consegue colar nos sujeitos individualmente, agindo como sujeito de linguagem, começam a surgir deformações, na forma como as pessoas que fazem tratamento ‘psicológico’ com máquinas ou pessoas que se ‘enamoram’ de máquinas e isso vai moldando as subjetividades”, complementa.
Do outro lado desta fronteira, ou mais precisamente dentro da esfera pública, a ecologia política e comunicacional se transforma radicalmente. “Vamos pensar isso em escala. As subjetividades moldadas pela máquina ou com a máquina são subjetividades que vão se afastando velozmente do ideal do público capaz de julgar e do cidadão livre, que são pilares de qualquer ideia de democracia. Se eu não tenho mais um público capaz de julgar porque é um público replicado, segundo padrões artificiais, como eu vou ter uma sociedade na qual o poder emana do povo ou do público? O elemento inaugural fica prejudicado e o cidadão livre também fica prejudicado”, frisa o entrevistado.
Some-se a essa miríade de complexidades o fato de que nossas sociedades têm demonstrado enorme dificuldade de negociar com a realidade concreta, factual. “Se não formos capazes socialmente de separar o fato da invencionice, não poderemos ter uma ordem democrática. (…) Se uma sociedade não consegue mais coletivamente diferenciar o que é fato do que é convicção, ou o que é um valor moral do que é um fanatismo, vamos perdendo a substância da democracia. Essa é a questão e isso está acontecendo conosco”, alerta Bucci.
Teremos, em poucos dias, novamente uma eleição determinante para o futuro do Brasil. E as respostas sobre este porvir são novas perguntas. “Que futuro a sociedade brasileira deseja? Será que ela não deseja se refugiar no conforto aparente de uma tirania? Porque o convite ao conforto da tirania é tentador em meio a tantas incertezas. Isso me deixa um pouco preocupado. O que a sociedade brasileira deseja? Que aspirações ela está jogando para essa decisão que terá de ser tomada agora nessas eleições?”, provoca o entrevistado.
Eugênio Bucci é professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Superintendente de Comunicação Social da USP, é membro da Academia Paulista de Letras, do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, do Conselho Deliberativo do Instituto Vladimir Herzog e do Conselho Editorial da revista Interesse Nacional. Escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto do jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 2024, ganhou o Prêmio Jabuti Acadêmico pelo livro Incerteza, um Ensaio (Editora Autêntica, 2023). Foi professor da ESPM entre 2010 e 2014, onde dirigiu o curso de Pós-graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, de 2011 a 2013. Foi agraciado com os prêmios Luiz Beltrão de Ciências de Comunicação, Excelência Jornalística (2011), da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Esso de Melhor Contribuição à Imprensa (2013) pela Revista de Jornalismo ESPM, o Prêmio Tese Destaque USP (2017) como orientador da melhor tese de doutorado em Ciências Sociais Aplicadas (O príncipe digital: estruturas de poder, liderança e hegemonia nas Redes Sociais, de Maíra Carneiro Bittencourt Maia).
Escreveu, entre outros livros, O Estado de Narciso (Companhia das Letras, 2015), A forma bruta dos protestos (Companhia das Letras, 2016), Existe democracia sem verdade factual? (Estação das Letras e Cores, 2019, finalista do Prêmio Jabuti), A superindústria do imaginário (Autêntica, 2021, finalista do Prêmio Jabuti) e Incerteza, um ensaio (Autêntica, 2023, ganhador do Prêmio Jabuti Acadêmico). Seu trabalho recebeu um longo ensaio publicado na Alemanha, escrito por Thomás Zicman de Barros, com o título de ‘It’s All a Matter of Image!’: Aesthetics and Radical Democracy in the Yellow Vests Movement, or in Praise of Eugênio Bucci.
Leia a entrevista completa clicando AQUI.