Estamos no olho de uma crise civilizacional sem precedentes na história. Todas as grandes crises conhecidas eram regionais. Na sequência da crise, surgia um novo sujeito histórico (“os bárbaros”) com vitalidade e projeto alternativo que permitia a história continuar com um novo rumo.

Desta vez é diferente. A crise parece ser global, estrutural e terminal. Global, porque envolve todo o globo. É estrutural, porque não se trata de uma crise de conjuntura que, superada, permite a continuidade da civilização ocidental, desprezada por Donald Trump. Agora, o coração foi atingido. Por isso ela é terminal. Com ela termina, não o mundo, mas um tipo de mundo social, montado nos últimos séculos.
Para resolver os problemas internos e os herdados, esse tipo de mundo precisaria negar-se a si mesmo. E isso ele não o faz. Por isso, tem sentido a severa advertência de Eric Hobsbawm ao concluir a “Era dos extremos”(1994): “O mundo corre o risco de explosão e implosão.Tem que mudar…a alternativa para a mudança é a escuridão”(p352). Fatalmente está em rota de colisão contra o iceberg que ele mesmo criou. Um sinal de esperança nos oferece o eco-socialismo que herda o melhor do ideal socialista clássico (não o soviético) e o articula com a ecologia.
Qual é esse iceberg? A ordem do capital,um verdadeuro Titanic. Ela pressupõe falsamente ser os recursos da Terra ilimitados. Imaginam que isso lhe permite também um crescimento ilimitado. O sistema não se importa com a Sobrecarga da Terra que já atingiu em meados de junho de 2026 o seu limite. Nem com a erosão das nove fronteiras planetárias (mudança climática, integridade da biosfera, mudanças no uso do solo e outras) que ultrapassadas podem provocar um colapso da civilização. Seis delas já foram ultrapassadas. .
O sistema do capital é depredador. Normalmente desaparecem, no processo normal de evolução, 300 espécies de seres vivos por ano. Atualmente, devido à voracidade consumista, segundo E.O.Wilson, desaparecem entre 70-100 mil por ano. Isso equivale a uma verdadeira devastação como em milênios no passado. Quase todos os bens e serviços naturais não renováveis se fazem mais e mais escassos.
Além dos já referidos, alguns representam limites intransponíveis que ameaçam todo como é o caso da escassez de água potável. Somente 3% de toda água é potável. E desta, apenas 0,7% é acessível ao uso humano. Nos vários forums internacionais organizados pela ONU se chamou atenção ao fato de que nos próximos anos far-se-ão guerras devastadoras entre regiões para garantir acesso à agua potável, sem a qual a vida se torna impossível. Acrescente-se a isso a exaustão nos próximos anos,já sentida agora devido ao fechamento do estreito de Ormus, da energia fóssil (petróleo), sangue da máquina industrialista mundial. Dependemos de fontes energéticas renováveis alternativas, parcialmente desenvolvidas, que nem chegam a 30% da demanda total.
Ele é consumista: a máquina foi projetada para produzir bens e serviços materiais de forma linear, crescente e ilimitada. Esses devem ser consumidos. Se não houver consumo o negócio vai à falência. Os seres humanos são induzidos a consumir mais e mais e a universalizar o consumo, o mais que possam,coisa que a Terra não suporta.
O consumo não é solidário mas individualista. Por isso produz desigualdades e injustiças clamorosas que atentam contra o sentido da criação, orientada mais pela cooperação do que pela competição, hoje hegemônica.
Há saídas para uma crise de tais proporções? Não dentro da ordem capitalista. Sim, à condição de inaugurarmos um novo padrão civilizatório de produção, respeitoso da natureza e de um consumo responsável e solidário.
Mas cabe notar a distorção filosófica subjacente à nossa civilização: o fato de ela ter-se construido sobre a parafernália dos meios técnicos para produzir poder e riqueza e não sobre os fins que dão sentido à nossa aventura planetária.
Ademais marginalizou a inteligência cordial, base da ética, da justa medida e da espiritualidade que colocam a questão dos valores e dos fins últimos. A primeira, representa a modernidade técnico-científica, cuja expressão maior é a IA (o dominus,o dono). A segunda, a modernidade ético-espiritual secundarizada (frater) todos, a natureza incluida sabendo-se parentes e irmãos e irmãs.
Há saída para a crise: Sim, se resgatarmos o que deixamos para trás, refundando uma civilização que confira centralidade à comunidade de vida e, em razão dela, reorientar a economia, a política e as formas de participação social.
Querem-no os senhores do poder e dos negócios? Não. A maioria é negacionista. Estão mais preocupados em auferir vantajosos lucros do que em garantir as condições para que o Planeta continue ainda habitável.
Podemos deter o Titanic em rota de colisão? Sim e não. Sim, se introduzirmos as mudanças necessárias. Não, se persistirmos no atual caminho que nos leva a cenários dramáticos.
Mas existem as forças diretivas que construíram o universo e a nós mesmos. Elas são mais fortes que a destrutividade humana. Por que não tentar o ecosocialismo (Michel Lowy),proposto e realizável em todo o planeta, por dar centralidade aos valores? É um projeto viável e promissor de um futuro melhor.
Leonardo Boff é teólogo, escritor, filósofo e professor universitário.