(Comentário inspirado no livro de Agnes O. Franco)

1.
Na obra coletiva, Emergência climática: reflexões a partir da classe trabalhadora (Fundação Perseu Abramo e Hucitec, 2025), organizada por Agnes O. Franco, lê-se o mundo. A máquina de projeção dos conteúdos falsos ou descontextualizados, por exemplo, é desmontada. A agropecuária extensiva perde o glamour frente as desvantagens da monocultura: dependência de insumos químicos, impacto no microclima local e recursos hídricos, etc. Fiat lux.
Os meios de comunicação desencorajam a procura de informações em fontes de credibilidade sem interesse comercial. Em paralelo, os algoritmos da Inteligência Artificial (IA) mantêm ativas as redes sociais com filtros-bolha e câmaras de eco que invocam de modo acrítico as polarizações. Assim, a checagem é jogada para um segundo plano e a “pós-verdade” pode circular. O contraditório cede lugar ao pensamento único para a fidelização dos seguidores.
A tarefa de desinformar a cidadania passa pela negação da hecatombe climática, afrontando as pesquisas científicas, abrindo espaço ao obscurantismo. Nunca falta o ecocida para relativizar o fenômeno do El Niño ou o degelo nos Andes e nos Alpes. Para enfatizar realizações nefastas do capitalismo, hoje, as intervenções predatórias da humanidade no “antropoceno” (Era do Humano) são substituídas pelo léxico “capitaloceno” (Era do Capital). Com razão.
O modelo econômico hegemônico impede a mitigação das mudanças climáticas. Ações adaptativas revelam-se insuficientes frente a intensidade e frequência dos eventos: inundações, deslizamentos, secas. Espécies correm risco de extinção: no Ártico, o urso polar e a foca anelada; na Antártida, os elefantes marinhos e os pinguins. Seu sólido habitat anterior desmancha no ar.
Mulheres, indígenas, agricultores são os mais atingidos. Culturas e infraestrutura são arruinadas. Enquanto o agronegócio mira a exportação de commodities (soja, milho, trigo, arroz, algodão, cana-de-açúcar), sem atentar no mercado interno. Ou na terrível tragédia do Rio Grande do Sul, na qual o MST doou 202 toneladas de alimentos, 50 mil refeições e 1,5 milhão de litros d’água potável aos necessitados. Mas os carecimentos não comovem os exportadores.
2.
Impossível ocultar a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), com o dióxido de carbono e o metano. Conforme o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 1988), criado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a produção de itens para consumo, transporte, energia e o desmatamento do solo elevaram a temperatura média global em 1,4°C em 2025, sendo o limite crítico 1,5°C. “Ninguém puxa o freio de urgência para parar o trem”, acusa Michael Lowy, coautor de um Manifesto Ecossocialista Internacional.
A deslegitimação dos saberes e da regulação não valida quimeras. As convicções íntimas e citações bíblicas de respaldo para fake news não autorizam uma “nova normalidade”. Relatórios técnicos do IPCC indicam em 90% a chance de a crise climática ter causa antropogênica. Para evitar uma continuidade dos desastres, a legislação de regulamentações tem papel importante.
O negacionismo ora assume a forma literal ao afirmar algo que não é verdadeiro; ora de interpretação ao alegar que as mudanças são provocadas pela natureza; ora de “escolha” na tomada de decisões avessas ao interesse geral. O princípio da privatização dos bens públicos vitais (água, luz, gás) corrompe a República, com a dialética entre a preguiça administrativa e a subserviência às grandes fortunas, para o acesso dos subalternos às migalhas do banquete.
A falta de um compromisso ético com a vida e o combate à fome matou centenas de milhares na campanha antivacina em plena pandemia e deixou 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. O período é marcado a fogo pela necropolítica e o despudor. Contempla o que há de mais podre, canalha em toda representação da economia e da política do século XXI.
Políticas governamentais são essenciais à recuperação de biomas, à preservação da biodiversidade e dos ecossistemas para construir a resiliência nas cidades e na sociedade civil. Eis o que prega a Federação Brasil da Esperança (2026), com a liderança do presidente vindo do Nordeste, Lula da Silva.
3.
Para alguns, a solução do aquecimento global virá pela providência divina ou pela crença que permanece intacta no poder da tecnologia e da ciência para resolver a colossal aventura do Homo sapiens, apesar dos pesares. Parafraseando a banda britânica, a opção é por uma viagem no foguete amarelo com a renúncia total à “Democracia como uma comunidade de vida na Terra”, de acordo com o sugestivo título para a Aula Magna de Achille Mbembe, na USP.
Think tanks conservadores propagam ilusões e frases tóxicas: “O Agro protege a Amazônia”; “Incêndios não são tão numerosos”; “É tudo fruto de uma articulação internacional com objetivos escusos”. As mentiras aliam-se ao ataque contra as instituições republicanas para explorar o sentimento de nostalgia do regime de exceção. Dito diferente, a emergência climática anda de mãos com a emergência democrática e também com a emergência nacional.
Que a “terceira via” midiática desqualifique o governo atual mostra de que lado está. Que os liberais de plantão estendam o tapete ao autoritarismo é a prova de que, em nome do livre mercado, sacrificam o Estado de direito em coro com os financistas da Faria Lima e castas privilegiadas. Imitam a rã que leva o escorpião para atravessar o rio, numa oportuna fábula de Esopo.
Já a extrema direita ignora o caos ecológico. O butim do vencedor na eleição é a entrega da Petrobras e das terras raras para uma nação estrangeira. A carta de Flávio Bolsonaro ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco A. Rubio, com o convite para integrar o “grupo de transição” da nova governança, coloca outra cena de crime no currículo lesa-erário das rachadinhas: a de traidor da pátria e réu confesso por tráfico da soberania nacional.
Mais: por assentir inerme ao despautério, torna o PL cúmplice da orquestração criminosa que simboliza o ódio histórico das elites ao Brasil e ao povo brasileiro. “O pior dos Bolsonaros” deve se apresentar ao presídio de segurança e jogar fora a chave, por absoluta coerência com o que arrota no horário gratuito. Mas não se vexe, menino 01: persona está acima da lei. Para poupar despesas extras convém que o pai e o filho dividam a mesma cela. Ali, na Papuda.
Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul.