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Ernest Mandel (1923-1995) e a Democracia Socialista | Carlos Henrique Árabe

Em 20 de julho de 1995 morria Ernest Mandel. Ao lembrá-lo nesse dia devemos reconhecer sua imensa importância para a formação da Democracia Socialista.

Em sua contribuição ao final dos anos 70, Mandel inovou o debate político ao defender a concepção marxista de estado operário com instituições da democracia socialista no período de transição revolucionária ao socialismo. O documento “Ditadura do Proletariado e Democracia Socialista”, elaborado por Ernest Mandel para o debate da IV Internacional,   defendeu uma alternativa teórica e programática ao modelo estalinista de ditadura burocrática associada ao “socialismo” num só país. O nome da nossa corrente Democracia Socialista, definido no congresso de fundação em dezembro de 1979, advém daí.

A sua maneira não dogmática, criativa, e mesmo crítica, de desenvolver as teses centrais de Léon Trotsky também nos influenciou. Longe do sectarismo, às vezes caricatural, que permeava boa parte dos movimentos trotsquistas, abriu horizontes para a convergência entre correntes de matrizes diferentes tendo em comum a referência ao marxismo e às revoluções. Certamente nos ajudou a interpretar e a engajar no grande e efervescente caldeirão de correntes e militâncias que deu origem ao PT. Isto não quer dizer que houvesse sempre acordo em várias questões decisivas acerca do desenvolvimento do PT. Mesmo assim, havia um debate saudável entre nós e nos ajudou a forjar um ambiente em que a polêmica poderia ser parte da construção da nossa corrente e das suas relações com a IV internacional.

Aprendemos com Mandel a necessidade de estudar economia política. Tivemos o privilégio de conviver com um dos principais economistas marxistas do seu tempo.

Paulo Singer na apresentação de O Capitalismo Tardio (publicado na coleção Os Economistas, Abril Cultural, 1982) assim dizia:  “Este livro é um dos poucos dos quais se pode dizer que ganham atualidade à medida que o tempo passa. Concluído em 1972, em sua versão original, sua tese central — de que o capitalismo acabava de entrar numa fase de “tônica estagnante” — estava longe de ser evidente. Antes, pelo contrário, a economia capitalista mundial parecia estar no auge de um longo período de prosperidade que, de modo algum, aparentava estar chegando ao seu fim. O mercado internacional estava, na verdade, dando sinais tão fortes de vigor que chegava a estimular em alguns países taxas de crescimento extraordinariamente altas e duradouras. Era a época dos”milagres econômicos” no Japão, no Brasil e em outros países. Sustentar, nessas condições, que o capitalismo tardio já tinha ultrapassado o zênite de sua fase ascendente e estava, desde o fim dos anos 60, mergulhado numa onda caracterizada por dificuldades econômicas crescentes, requeria considerável presciência, como os fatos demonstraram logo a seguir. Com a chamada “crise do petróleo”, em fins de 1973, a economia capitalista realmente entrou na pior recessão do após-guerra, da qual saiu de forma precária para recair em novas recessões, das quais até o momento não mostra ser capaz de se recuperar. Sem dúvida, a história desta década que nos separa do lançamento original de O Capitalismo Tardio confirmou de modo cabal que a tendência de longo prazo da economia capitalista mudou nitidamente de direção e no sentido previsto pelo seu autor. Dificilmente se encontrará justificativa melhor para recomendar uma obra à atenção e ao estudo dos que almejam entender a época em que vivemos.”

Carlos Henrique Árabe é da Coordenação Nacional da Democracia Socialista.

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