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Estamos diante de novas Jornadas de Junho? |Michel Fukuda e Arthur Grigolin

A manhã do último domingo (31 de maio) começou agitada. Durante a madrugada, o grupo de hackativistas Anonymous divulgou um vídeo rechaçando a violência policial nos Estados Unidos, evidenciada pelo caso George Floyd, homem negro assassinado pela polícia de Minneapolis. Para combater as injustas execuções policiais – que acontecem sob as vistas grossas do governo Trump – o grupo prometeu expor os “muitos crimes” cometidos pelas instituições e governantes para o mundo.

O retorno dos Anonymous à evidência das notícias diárias soma-se à efervescência que já vinha sendo construída na última semana nos Estados Unidos e no mundo. A morte de George Floyd fez irromper uma série de rebeliões por todos os EUA, mobilizando verdadeiras massas cansadas de estarem sob a mira constante da polícia, gerando, inclusive, comoção internacional. Para os brasileiros, as mobilizações ao norte serviram como combustível para alimentar uma indignação, muitas vezes ainda latente no panorama geral do Brasil, pelas vítimas da truculência policial, fazendo fervilhar os sentimentos de muitas e muitos, principalmente devido aos recentes assassinatos dos jovens Matheus de Olivera (23) e João Pedro (14), vítimas da PM de Wilson Witzel no Rio de Janeiro. Assim como o imaginário coletivo de 2013 teve fortes influências de movimentos internacionais como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street, 2020 dá indícios de ser fortemente influenciado pelo Black Lives Matter.

Ainda no domingo, por volta do almoço, as ruas de pelo menos 4 capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre) foram palco de manifestações em defesa da democracia, convocadas por torcidas organizadas populares e antifascistas como resposta aos diversos atos da extrema-direita nos últimos meses (incluindo o próprio domingo) que defendiam a reabertura do comércio e o fim do isolamento social, valendo-se de símbolos neo-nazi-fascistas, de supremacia brankkka e apologéticos à ditadura burguesa-militar. Assim como em 2013, a repressão policial aos manifestantes democráticos (e somente a eles) teve e tem tido repercussão exponencial, capaz de acabar com o silêncio das mídias burguesas em relação aos movimentos populares.

Neste ano, o COVID-19 foi responsável por colocar milhões de brasileiros dentro de suas casas, em isolamento social, para evitar uma contaminação massiva da população. Apesar disso, o presidente da República não só ignorou por diversas vezes as orientações de seus próprios Ministros da Saúde (já trocados duas vezes) como semanalmente tem participado destas manifestações contra as medidas de saúde preventiva, causando aglomerações por todo o Brasil e qualificando seu projeto de genocídio dos trabalhadores e trabalhadoras, em especial dos mais pobres, periféricos e negros. Precisamos nos debruçar sobre o teor dessas manifestações: pela primeira vez em décadas tivemos demonstrações tão frequentes de apoio a uma intervenção militar e ruptura institucional, inclusive por parte do presidente e seus apoiadores do núcleo duro, como os 300 de Sarah Winter que marcharam por Brasília como uma reedição tupiniquim da Ku Klux Klan. É isto que nos leva ao último domingo, quando as manifestações bolsonaristas até então pouco contestadas fisicamente encontraram a resistência das torcidas organizadas.

Para nós que somos militantes organizados na esquerda, os posicionamentos e ações do presidente só reforçam aquilo que nós já sabíamos com toda sua intensidade – mesmo que alguns ainda tentassem minimizar. Contudo, o sentimento é de consolidação da virada no ideário político daqueles e daquelas que foram as vítimas da fraude eleitoral de 2018 e de radicalização dos 70% contrários ao governo. O Fora Bolsonaro que defendemos desde o início do desgoverno encontra agora, além de adesão das esquerdas tradicionais, institucionais e da oposição, o clima nas ruas; um clima com essência especialmente antifascista.

Já é comum vermos algumas reavaliações e aprofundamentos sobre as Jornadas de Junho de 2013. Se por alguns anos parte da esquerda se restringiu a apenas condená-las e atribuir a elas o renascimento dos facínoras da extrema-direita, de maneira simplista, temos ultimamente a oportunidade de aprofundar nas constatações e perceber que a síntese de 2013 pode ter sido dada pela falsa sensação de “establishment” da esquerda e por sua incapacidade geral de direção nas ruas, dando espaço ao ninho de onde surgiu a cobra do novo fascismo brasileiro. Muitos diriam que foi um “momento Rosa Luxemburgo” que se tornou impossível de ser aproveitado.

Hoje nos vemos ante a um possível momento como este de mobilizações massivas e espontâneas, mas reeditado e com novas nuances que nos abrem muito mais possibilidades que 2013 – a exemplo da defesa intransigente da democracia e da mudança dos atores políticos envolvidos (o foco do combate que era o PT transfere-se agora para Bolsonaro). Apenas o desenrolar do tempo poderá nos dizer o quão parecidos serão 2020 e 2013, já que por ora é possível identificar apenas algumas semelhanças. Contudo, a reflexão que devemos nos colocar agora é: qual o nosso papel neste momento de efervescência das massas e acúmulo de indignações, mesmo que latentes, mas que se põe prestes a eclodir? Onde nós estaremos nesse novo contexto com potencial de ser o marco histórico a dividir os milênios? Nos contentaremos com uma posição passiva, que pode ter consequências ainda piores que as de 2013?

Em março, no início da pandemia no Brasil, suspendemos nossas lutas nas ruas a fim de preservar as vidas dos nossos. Mas os desgovernos de Bolsonaro, seu aliado arrependido João Dória, e tantos outros que levam a cabo o projeto genocida da extrema-direita mundial nos tiraram tanto (inclusas quase 30 mil vidas oficialmente e tantas outras fora dos registros) que não sobrou sequer o medo do vírus entre muitos dos nossos. Em São Paulo, cidade com um dos maiores índices de contaminação do COVID no mundo, já é comum ver muitos, em especial aqueles e aquelas que foram forçados a continuar trabalhando e os mais jovens, sem as mesmas preocupações com o vírus de 2 meses atrás; seja porque já foram contaminados e superaram a doença ou porque já se perceberam como assintomáticos. Reside aí o nosso potencial de mobilização nas ruas neste momento.

Enfrentamos um momento tão sombrio e ímpar em nossa história que é capaz de acordar os mais adormecidos para a luta política, que tem dimensões materiais, populares, democráticas e com potencial de massificação nas ruas. Para não ter os mesmos resultados que no passado, deveremos agarrar todas as possibilidades que serão abertas a partir de agora para cessar com todo o sofrimento de nosso povo. Poderá começar, aqui e agora, um novo período na história brasileira e mundial. É em meio à escuridão que brilha mais forte a chama da revolução; e é a ela que devemos dedicar todos os nossos esforços. Que arrenquemos a esperança das ruas!

Michel Fukuda e Arthur Grigolin, militantes da DS, Kizomba de São Paulo

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