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Estaremos nas ruas, somos resistência! | Vanessa Gil e Cláudia Prates

Um antigo debate da esquerda volta à tona já no início do governo fascista que se instalou no Brasil, as pautas identitárias como divisionistas e de menor importância na conjuntura geral. Estamos diante de um governo que surpreende no conjunto da sua obra, e que reforça seu pensamento ao nomear a Pastora Damares Alves, uma Ministra que reverbera absurdos numa estrutura chamada de Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Não faltaram memes que viralizaram mesmo antes da sua posse, ou depois de sua fala sobre as cores das roupas de meninos e meninas que virou piada internacional. No dia seguinte a ministra ainda deu uma entrevista demostrando completa falta de preparo ao falar sobre as denominações de gênero. Na sequência, sua fala sobre quem são as bonitas ou as feias, e ainda de que as feministas não gostam de homens porque são feias. Ora, recusamos a imposição de padrões de beleza, portanto feio é o preconceito.

Logo surgiram críticas à importância exagerada dada à fala de Damares. O argumento apresentado ressaltava que o “debate central” é o da economia. Afirmava que, neste momento, saber o que Paulo Guedes está fazendo é o mais importante, pois a Ministra das Mulheres seria uma desequilibrada fazendo cortina de fumaça para as pautas principais, etc. Ninguém em sã consciência duvida da importância de estarmos atentas/os ao que se passa em qualquer ministério. Muito menos um que é dirigido por um homem da extrema direita.

Mas Damares não é insana. Ela não é ignorante sobre o que fala, muito pelo contrário. Ela é uma estrategista e não está fazendo apenas cortina de fumaça. Está sim escancarando o pensamento conservador que assola o Brasil e seu crescente fanatismo religioso. “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”, diz Damares Alves em uma fala em que declara que irá governar com “princípios cristãos”, sempre priorizando a família. Bem, se o Estado é Laico, como podemos tolerar a imposição de uma única crença e, pior, como orientadora das políticas públicas?

Desde suas origens, o feminismo enfrenta permanentemente as forças conservadoras que impõem modelos capitalistas, racistas e patriarcais de corpo, sexualidade e comportamento, de organização do trabalho e da família.
Mas só tentar ridicularizar as ideias feministas elaboradas ao longo da história da humanidade não é suficiente. Evidentemente, o alvo sempre será diretamente “as feministas”! São as feministas que lutaram pelo direito de todas as mulheres ao voto – as sufragistas, foram as que denunciavam as jornadas de trabalho abusivas, a violência doméstica, o direito de decidir sobre seu corpo. Logo, as feministas metem medo.

Governos autoritários, que servem de olhos vendados ao capital sempre precisaram reforçar o lugar da mulher como cuidadora na família, parindo muitos filhos, dependente economicamente dos maridos, além de arcar sozinhas com as tarefas domésticas. A ideia da família tradicional heteropatriarcal dá sustentação ao capitalismo através do trabalho doméstico e de cuidados não pago, tão necessário a este sistema de exploração que vivemos. O capitalismo, heteronormativo, patriarcal e racista/colonialista, se reestrutura permanentemente como em sua origem, usando mecanismos violentos de acumulação que são a exploração do trabalho, a apropriação dos bens comuns, o controle sobre o corpo e a sexualidade das mulheres, a violência e o poder militar – institucional e bélico.

É fundamental enxergarmos o papel ideológico do Ministério da Mulher, por exemplo, que tem na sua denominação “família”, que significa reforçar a ideia de família tradicional de propaganda de margarina, invisibilizando tantas outras formas de organização familiar que existem em nossa sociedade.

As primeiras falas atrapalhadas do governo apontam qual o objetivo central – a reforma da previdência, privatizações, extinção de todos os órgãos que atendem populações tradicionais como indígenas e quilombolas, extinção do ministério da cultura, eliminação de políticas para a população LGBTT, o estatuto do nascituro, além de estarem na contramão dos avanços pedagógicos em relação à educação, que na fala da Ministra diz “vamos acabar com o abuso da doutrinação ideológica de crianças e adolescentes no Brasil. A revolução está apenas começando.”

Mas isto não começou agora, vamos lembrar da batalha contra a “ideologia de gênero” onde o movimento feminista, movimento negro e o movimento LGBT travaram nos legislativos há bem pouco tempo. Alguém tem dúvidas do que isto tudo quer dizer? Será a queima de livros didáticos e todos os materiais que podem libertar o pensamento para seguirmos rumo ao obscurantismo, significando além de um “Direita, volver” serão longos 30 anos de “De volta para o passado”.

A vida das mulheres e, principalmente, das lésbicas, das negras, das indígenas, das camponesas e ribeirinhas está ainda mais em risco. Mas, lembremos: o capital não se importa com vidas. Precisa da força de trabalho e para isto é importante para o Estado ter políticas de controle sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres para seguir seu curso de expansão/exploração. Tudo está ligado e faz parte da mesma engrenagem. Achar que Damares é só fumaça seria um erro primário da oposição. Cada peça deste jogo tem seu papel e nenhum Ministro deve ser subestimado –nenhum. Principalmente Damares Alves, esta, não pode sair da nossa vista. Precisamos estar nas ruas e nos opor de forma organizada e sistemática aos seus princípios, estudar cada passo deste governo, seguir suas ações e principalmente saber explicar para as outras mulheres o que está acontecendo.

Estaremos nas ruas de todo o Brasil e fora dele, onde já temos muitas manifestações de apoio.
Marchemos unidas, numa só voz, pois somos todas Resistência.

Vanessa Gil é militante da Marcha Mundial das Mulheres no RS e Doutoranda em Educação – PPGEDU/Unisinos.
Cláudia Prates é militante da Marcha Mundial das Mulheres no RS e Educadora Popular.

Originalmente publicado em Marcha Mundial das Mulheres.

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