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Cafarnaum, filme escancara crueza das relações humanas | Eduardo Tadeu Pereira

O filme da libanesa Nadine Labaki é daqueles que aos quais se assiste com curiosidade. É também daqueles que marcam, com cenas, falas e provocação de sentimentos inesquecíveis, que fazem aflorar emoções e imobilizam o espectador ao término da projeção.

A história de Zain, menino na periferia de Beirute, poderia ocorrer em qualquer grande cidade do mundo. Ator que nasceu na Síria, não profissional, o jovem Zain Al Rafeea tem performance fantástica. Inclusive ao simular ser refugiado para pedir esmolas e puxar o sotaque sírio.

Cafarnaum retrata a vida do menino Zain, que vive com sua família em extrema pobreza. Para proteger sua irmã, que ao menstruar passa a ser negociada pelos pais com um comerciante local, sai de casa, vive o drama de refugiados, comete um crime ao esfaquear o homem para quem seus pais entregaram a irmã e, por isso, acaba preso e condenado aos 12 anos de idade. Ao processar seus pais por o terem colocado no mundo, Zain questiona a estrutura da sociedade e do Estado.

Assim, o enredo passa pelo drama da família de Zain e a esperteza do menino. Aborda ainda a problemática de imigrantes oriundos de países pobres e a situação das mulheres, particularmente naquela sociedade em que podem ser tratadas como objeto e, portanto, negociadas. Trata ainda da relação dos pobres com o Estado, no caso com o Judiciário, como estrutura exclusiva das elites.

Muito marcante no filme é crueza das relações humanas. A percepção do pai do menino de que: “nós não somos seres humanos, somos insetos”. Então, para que documentos? Isso é para quem tem lugar na sociedade, no mundo. Documentos são para os seres humanos…
Ao ser preso, o pequeno Zain é examinado na delegacia por um médico que, ao conferir os dentes do menino, decreta: tem em torno de 12 anos. Como se faz com animais e se fazia com escravos. A cena corta o coração.

Ao processar os pais, Zain questiona, na realidade, a sociedade. Coloca frente a frente a representação da sociedade formal, através da estrutura judicial, e a família excluída, vilipendiada, desconsiderada. A representação da exclusão com sua dureza. Filme imperdível para alimentar a revolta e a esperança!

Título: Cafarnaum
Direção: Nadine Labaki
Música: Khaled Mouzanar
Produção: Líbano/França
Elenco: Zain Al Rafeea, Nadine Labaki, Yordanos Shifera, Boluwatife Treasure Bankole

Originalmente publicado em Fundação Perseu Abramo.
Eduardo Tadeu Pereira é historiador e doutor em educação, foi prefeito em Várzea Paulista.

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