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Habemus presidentum | Luiz Marques

Edward Said, em Orientalismo, relata que até o final do século XIX a geografia era uma área de conhecimento “enfadonha e pedante”. Mas se tornou em nosso tempo na “mais cosmopolita de todas as ciências”. Políticos que se comportam como estadistas e percorrem o planeta, abrindo portas e estendendo a mão, falando aos governantes sobre a necessidade de se formar uma frente política mundial para combater a fome e a ascensão da extrema-direita, em defesa da democracia, compreendem que sem entender de geografia é impossível fazer história. Sem arguir os valores humanistas, a oratória tradicional sobre a cidadania não ultrapassa nunca a barreira da hipocrisia.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Assim como o capital sempre soube que necessita de novos mercados a serem explorados, Trotski reconhecia que não era possível construir o socialismo em um único país. A solidariedade deve ter caráter expansionista e colaborativo no plano internacional, entre os países oprimidos. Da mesma maneira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe que não é possível construir uma nação justa e igualitária, em isolamento. Depois de seis anos, sob as patas golpistas de Michel Temer e o coturno genocida na pandemia / ecocida na floresta amazônica de Jair Bolsonaro, o imperdoável ostracismo a que fomos submetidos foi embora. No entanto, deixou sequelas, retrocessos, sujeira no tapete.

Agora vem à tona na imprensa um outro genocídio feito com premeditação, o da etnia originária Yanomami, resultado do garimpo ilegal que (des)mata a floresta e infecta a água com mercúrio. Conforme constatou in locus o presidente Lula: “Adultos com peso de crianças, crianças morrendo por desnutrição, malária, diarreia e outras doenças. Os poucos dados disponíveis apontam que ao menos 570 crianças menores de cinco anos perderam a vida no território Yanomami, com doenças que poderiam ser evitadas”. O governo promete recrutar médicos para atender a população em extermínio. A bancada petista na Câmara dos Deputados entrou com uma representação criminal contra Bolsonaro e a ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos pela total incúria.

Segundo o líder indígena Júnior Hekurari, muitas pessoas da comunidade foram assassinadas por garimpeiros e, meninas, estupradas até a morte. Impunemente, porque a Polícia Federal recebeu ordens do Palácio do Planalto para ignorar os crimes. “Mais que uma crise humanitária, o que vi em Roraima foi o genocídio premeditado contra os Yanomami, perpetrado por um governo insensível”, conclui Lula. Nosso povo livrou-se dos palhaços sociopatas no poder, do complexo colonial de vira-lata das “elites” e do negacionismo climático. Contudo, os responsáveis seguem lépidos e faceiros.

A primeira viagem ao exterior do atual mandatário é emblemática. Ao mirar a Argentina, com a qual temos laços políticos, comerciais e culturais, anunciou a retomada das articulações de integração com o Mercado Comum do Sul (Mercosul), a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Em Buenos Aires, na reunião da Celac, a decisão foi comunicada aos países relacionados com a multilateral: União Europeia (UE), China, Índia, Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e União Africana (UA).

Na metrópole portenha, Lula declarou que normalizará o diálogo diplomático com a Venezuela e com Cuba para restabelecer as parcerias com cooperação. Junto com o presidente argentino Alberto Fernández, assinou o documento das “duas nações irmãs” para iniciar os estudos com vistas a uma moeda comum na América Latina (AL). O objetivo é usá-la para fluxos financeiros e comerciais, de modo a reduzir os custos operacionais através de um processo de desdolarização e também para salvaguardar-se da vulnerabilidade externa. Quando Argentina e Brasil fecharem o acordo, à semelhança do ocorrido entre a França e a Alemanha na Europa, o mesmo será oferecido aos países do bloco. Só o rentismo manifesta-se contrariamente. Isso é pensar com genuíno faro geopolítico.

O tema envolve questões fiscais, tamanho das economias e o papel dos bancos centrais. A AL representa 5% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Para uma comparação, a UE que é a maior união monetária do mundo, o euro, abrange 15% do PIB mundial. Em fevereiro, Lula tem viagem marcada para Washington, a convite do presidente dos Estados Unidos Joe Biden. Em março, vai a Pequim para se reunir com o presidente da China Xi-Jinping. Em resumo: Habemus presidentum.

Os picaretas sem vocação política ou porte intelectual, antecessores da esperança de retorno em 30 de outubro, encerraram seus mandatos pífios na presidência da República com a economia na décima terceira posição. O país cresceu como rabo de cavalo, para baixo, após o golpe que depôs a presidenta honesta e retirou da disputa o candidato que ponteava as pesquisas de intenção de voto nas eleições, em 2018. É fácil inferir os interesses econômicos estratégicos (externos, por óbvio) embutidos na campanha midiática para disseminar o antipetismo na “opinião publicada” e o lawfare judicial contra o PT e, por extensão, da esquerda em geral. Com o improvável operário, chegamos à sexta posição no ranking da economia, superando inclusive o berço do capitalismo, a Inglaterra.

A verdade vencerá, era o título do livro de Lula enviado ao Papa Francisco, no ano da injusta prisão que contou com a conivência do Tribunal Regional Federal (TRF-4). O acampamento de lutadores sociais erguido em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba, denunciou a farsa a cada hora. E, por ironia do destino, ensejou a aproximação do casal que fez bater o coração da nação combalida.

Empresas nacionais de engenharia e infraestrutura que disputavam mercado nos hemisférios Norte e Sul foram destruídas: Norberto Odebrecht, Andrade & Gutierrez, etc. Para festejo das petrolíferas estadunidenses, foram fatiadas a Petrobrás e o pré-sal, a descoberta que trouxe a muito promissora autonomia de combustíveis fósseis ao país. A “quinta coluna madrilenha” de agentes ordinários do aparato burocrático de Justiça, partícipe do esquema lesa-pátria, na expectativa de se apropriar de bilhões de reais para projetos pessoais de poder, quase conseguiu o seu intento. Foi barrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que explica a guerra à instituição promovida pelo neofascismo, com audiência nas bolhas robotizadas de bolsonaristas que romperam o tecido social com violência.

Após 580 dias, a verdade venceu finalmente. A Suprema Corte admitiu a espúria armação delituosa montada por canalhas, em conluio escuso contra um inocente cujo grande “pecado” foi implementar políticas públicas para uma superação das graves desigualdades sociais, econômicas, culturais e regionais que envergonham, desde priscas eras, o senso de brasilidade dos autênticos patriotas – os trabalhadores com ou sem carteira formal de trabalho, neste quadrante de cínicos traidores.

A missão de desconstrução e destruição ficou a cargo dos patriotários, inimigos da cultura e das artes, teleguiados por conspiradores e algoritmos para gerar militontos em escala industrial. Os financiadores foram setores empresariais beneficiados por verbas oficiais do desgoverno corrupto e covarde do despresidente, ora refugiado em Orlando. Um milhão de armas foram distribuídas para a gente de bem fake, sob o período do obscurantismo. Não faltaram orações para pneus, literalmente, e mensagens para ovnis. A escumalha oscilou entre a comédia e a tragédia. Procurem no Google.

Não obstante, a roda da história girou. Os torturadores (“Doutor Ubirajara” e “Capitão Lisboa”) de presos políticos na década de 1970, no DOI-Codi, acabam de ser condenados na 7° Vara Cível Federal de São Paulo. Estão obrigados a indenizar em R$ 1 milhão “a sociedade brasileira”. Entre as vítimas de torturas estava o jornalista Vladimir Herzog. Os homens mais ricos do país (Carlos Sucupira, Jorge Lemann e Marcel Telles), sócios da controladora da rede varejista Americanas, desviaram R$ 1 bilhão daquela aos acionistas. Foram pegos com a mão na botija. Eduardo Moreira calcula que no mínimo R$ 300 milhões pousaram nas contas dos meritocratas bilionários; à época encobriam em segredo uma fabulosa fraude nas empresas, no montante de R$ 20 bilhões.

A direção entreguista da Petrobrás, no quadriênio da famiglia miliciana, agiu igual ao forrar os bolsos de investidores estrangeiros da petroleira, impedindo-a de repor os estoques de petróleo e gás e de investir na produção. A burguesia fedida, com a piscina cheia de ratos como avisou Cazuza, está por trás do antipetismo anteontem e, ontem, do terrorismo realizado a soldo na Praça dos Três Poderes, em Brasília. A insubordinação do general Júlio César (ops) de Arruda impediu a prisão em flagrante no puxadinho de luxo de terroristas, sob a proteção do QG em 8 de janeiro. Demitido do comando do Exército, já foi tarde para casa. Não à toa, o supergrampo em membros do Ministério Público e do Judiciário apavora os cúmplices de toga, na investigação levada a pleno efeito pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes. A Terra se move à esquerda.

Sinais de que o Brasil despertou do pesadelo fratricida. O Estado fez as pazes com a sociedade civil. Recuperamos a nossa dignidade, dentro e fora. A vida e a liderança de Lula importam. La nave va.

 

Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.

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